A quantidade de chuva caída nas aldeias da minha terra devia ser armazenada em depósitos que não deixassem passar a água. Salas, ou cisternas, onde se encontra água para utilizar na rega dos campos, dar de beber a quem tem sede, repositórios de águas pluviais. Bibliotecas com água, ao serviço das populações, dos animais domésticos e selvagens. Quando actualmente o assunto mais corrente é a seca que o planeta atravessa, a escassez de água. Faz sentido aproveitar aquela que (...)
Finalmente o sol desprendeu-se das correntes que o prendiam, abriu os braços, envolveu as pessoas sentadas na esplanada. A biblioteca ambulante fez o resto, cercou-os com os jornais, deu-lhes a energia das palavras destinadas a informar. Apaziguou as vozes sempre ásperas destes fregueses, habituais no café. Lá dentro há outros, concentrados no jogo de cartas, não perceberam que têm os jornais à disposição, espalhados em cima das mesas. Hoje o grupo de pessoas na esplanada é (...)
Tenho saudades do sol, há vários dias que este não consegue ficar firme e estável nas aldeias da minha terra. A sua ausência tem consequências nas viagens e andanças, são poucos os leitores que vêm à biblioteca ambulante. As histórias correm o risco de ficarem deprimidas, constantemente, sem se mostrarem ao exterior, à privação dos toques carinhosos dos leitores. Quando as seleccionam, abrindo as páginas e deixar sair os ecos da parte mais interior. Depois, passarem para (...)
Hoje, o dia está cinzento, sem uma réstia de sol não há vivacidade nas aldeias, ficam de parte os leitores da biblioteca ambulante. Os restantes estão em casa, sei disso, o ar é denso, o odor da lenha em combustão impregna os lugares onde a biblioteca ambulante permanece. Originária do sobreiro, arde em todas as lareiras, nas aldeias. As chaminés estão o dia todo a vomitar fumo, sem parar, parecem comboios alimentados a vapor, cujas fornalhas engolem toneladas de lenha para (...)
Por estes dias o sol é o melhor amigo das pessoas nas aldeias da minha terra. Quem mais aproveita esta amizade são os velhos, aquecendo os corpos carcomidos pela passagem do tempo. Nas ruas, muitas destas, únicas, abrindo as aldeias a lado nenhum, levando o lamento do silêncio, a resignação. É vê-los sentados no limiar das portas da entrada das suas casas, sentados em pequenos bancos, abraçando o calor do sol, olhando o tempo sem novidades. Mas, também levam a biblioteca (...)
No largo do coreto em Alvega, o monte de lenha, posto a arder nas vésperas do Natal, continua fumegando lentamente. As mesmas pessoas, continuam apoiadas na parede onde está a porta da entrada do café. Sem emprego, estão amparadas nos parcos subsídios, oriundos do fundo de desemprego, da segurança social, da boa vontade das pessoas. Deixam o lugar momentaneamente para se aquecerem no lume que resiste à chuva, à geada, ao tempo que anda devagar nas aldeias da minha terra. Voltam (...)
O rádio emite música, o céu está maioritariamente azul, isto porque, no horizonte se avistam algumas nuvens aparentemente inocentes. Viajamos para o final do ano sem muitos leitores à vista. Só alguns, ocasionais, os que gostam de ler jornais, quanto mais não seja, lerem as palavras em destaque. Foi o que aconteceu hoje de manhã, onde os jornais que coloquei sobre a mesa da esplanada, no Mercadinho da Fonte, não conseguiram aquecer o lugar. Foram alvo da atenção geral, (...)
A chuva não para de cair, alimentando as ribeiras, tornando visível pequenos charcos nos terrenos que acompanham a biblioteca ambulante pelas aldeias da minha terra. No interior do café Areias, no meio da obscuridade jogam às cartas dois homens. Enfiados no fundo da sala, só muito perto da mesa onde estão sentados se deixam ver. Admiro a audácia destes dois, disputando um jogo de bisca, onde os naipes parecem silhuetas presas nas mãos. Mas, não é bem assim, pois as cartas são (...)
As folhas no chão são as únicas fiéis no adro da igreja, protegidas debaixo do véu que cobre a manhã. O horizonte está um pouco denso, na estrada, ao longe, os pequenos círculos amarelos aproximam-se rapidamente da biblioteca ambulante, deixando atrás de si um rasto de água pulverizado. Não é a mesma pegada da biblioteca sobre rodas, ou da carrinha da distribuição dos jornais. Os primeiros afastam-se, secam pouco depois, perante a indiferença dos que continuam a passar na (...)
Em Alvega, o largo do coreto pôs em condições o monte de lenha, que irá ser consumida lentamente, durante os próximos dias, ultrapassando mesmo o final do corrente ano. Por aqui irão passar as gentes da aldeia, os forasteiros oriundos dos lugares próximos. O calor libertado em virtude da incandescência, a temperatura elevada, são favoráveis a ajuntamentos, de pessoas, de conversas, de muitas histórias. A enorme fogueira será a atracção da aldeia, ao redor desta, quando a (...)