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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

01.Jul.22

Vivam as bibliotecas...

historiasabeirario
Estamos a celebrar as bibliotecas, as fixas e as móveis, é nas últimas que me vou segurar.  Bibliotecas ambulantes, exploradoras de territórios, viajantes procurando leitores nos lugares onde as populações escasseiam. Realizando traços de leituras em circunstâncias muito difíceis, os sorrisos daqueles teimosos afastados das cidades, quando recebem as histórias, deixam para trás os dias que não paramos de suar, aqueles onde os agasalhos seriam bem vindos. Manhãs e tardes com (...)
30.Jun.22

Só o tempo passa pelas suas aberturas...

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O largo está ermo, ouço os pássaros,  mas não consigo vislumbrar vivalma. O vento também se faz ouvir no alcatrão quente, um painel para os traços grossos, não passam de sombras dos fios que nos permitem comunicar, como o sombreado dos prédios que ladeiam um dos lados da rua que desemboca na área onde cada vez mais só o ar a ocupa. A chaminé quieta sobre um telhado desgastado, onde só o tempo passa pelas suas aberturas, parece querer dizer que a estrutura onde está (...)
29.Jun.22

Sempre inclinadas ou fora do lugar...

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A manhã está resmungona em Alferrarede Velha. A Maria aproximou-se com ambas as mãos segurando sacos cheios, massas, enlatados e pão foram os que se deixaram ver. Disse que ia a casa e já regressava para devolver as histórias. Olhei,  a Maria balanceava a sua pequena estrutura enquanto caminhava na direcção das histórias, trazia outro saco preso numa das mãos, continha as histórias lidas que seriam comentadas logo que entrasse na biblioteca ambulante. Gostei desta, esta não (...)
27.Jun.22

Mais próximo de quem lhe enviava a saudade...

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O Ti Chico comprava pão, ao mesmo tempo questionava o padeiro se queria comprar mel, tem para cima de cem colmeias, segundo ele. Ouviu do padeiro que o avô praticava o mesmo ofício, não conseguindo concretizar um possível negócio. Na aldeia as manhãs no largo são sempre assim, sentadas, as pessoas esperam pelo homem que traz o pão. A biblioteca ambulante não tinha calado o motor e o viajante das viagens e andanças já tinha descoberto a existência de um furo num pneu. A sorte (...)
24.Jun.22

Não podia desistir...

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Ontem foi um dia trágico nas viagens e andanças, ontem as luzes traseiras do veículo longo que seguia à frente inflamaram de um vermelho acentuado, um grito de aviso para o que aí vinha, uma travagem brusca com as histórias aflitas por saberem o que estava a acontecer. Ontem os meus ouvidos foram atraídos por um estrondo, depois a desordem, uma amálgama de sobras no ar, poeiras e fumo, um automóvel quase planava, terminando o pequeno voo logo ali tão perto. Ontem dois anjos (...)
22.Jun.22

Ler na praia, ou debaixo. do telheiro...

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A manhã está refém das nuvens cinzentas, destacam-se as ervas secas, carregadas de um amarelo forte, o contraste é bonito de se ver ao longo da estrada que leva a biblioteca ambulante. Só a chuva se ouve a bater fortemente, as histórias estão assim sequestradas pela intempérie na aldeia da Atalaia. Os leitores que gostam de ler na praia fluvial, ou debaixo do telheiro ao final da tarde ao mesmo tempo que se refrescam com uma cerveja, não virão com esta massa de água a (...)
20.Jun.22

Perante o desejo descontrolado...

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Novamente na estrada a levar histórias, após uns dias a comunicar com a pequenada nas Festas da Cidade de Abrantes. Não é de todo a atmosfera onde o viajante das viagens e andanças e a biblioteca ambulante se dão melhor. É a pisar o alcatrão, a permanecer nas aldeias e lugares, rodeados pela charneca, pelas pessoas dos sítios remotos. Nos dias quentes, nos dias frios,  colados ao meio rural, cravados na terra deles. Não é propriamente o país das maravilhas, pouca densidade (...)
08.Jun.22

Hoje vi uma lebre...

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Hoje vi uma lebre a atravessar a estrada, não deu para perceber se corria ou saltava, tal foi a sua súbita aparição.  Como surgiu, desapareceu apressada para a floresta, aflito fui à história verificar se a lebre estava na corrida com a tartaruga. A lebre dormia e a tartaruga vagarosa lá ia, não me deixou fechar o livro sem uma piscadela de olho, como a querer dizer,  temos que ser persistentes no que pretendermos alcançar. A tartaruga e a biblioteca ambulante, ambas a correr (...)
06.Jun.22

O vento está enamorado...

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  A história espreita a tarde a tentar alcançar quem atravesse a rua. Mas só o vento está na aldeia, traz histórias dos lugares por onde passou. Pôs as árvores a dançar no vale, os ramos rodopiam de um lado para o outro, como as saias das bailarinas. O vento dançarino dança com todas as árvores ao mesmo tempo, sussurando com uma, com outra, elas ficam  tontas com o que lhes diz, mas também do fandango improvisado ficam sem tino. O vento está enamorado, as folhas das (...)
02.Jun.22

Não há leitores para levar histórias...

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A padeira não demorou muito tempo, após a biblioteca ambulante a ter ultrapassado, não houve corrida nenhuma, uma mulher com um andamento pesaroso vai na direcção do largo. Pouco depois juntaram-se mais, a padeira estacionou, como se tivessem molas a impulsiona-las, levantaram-se ao mesmo tempo com os sacos na mão. Rapidamente ficaram cheios de pão, voltaram a sentar-se, segundo elas houve orvalhada pela madrugada, uns chuviscos fizeram a sua aparição sem molharem a terra (...)