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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

As primeiras leituras são como o início das primeiras explorações marítimas, por navegadores, enfrentando as enormes vagas do oceano, em frágeis barcos de madeira. A descobrirem palavras novas, terras desconhecidas, aventuras, até então, possíveis em sonhos. Transpondo páginas, dobrando cabos, sublinhando com o dedo, fixando o padrão. A referenciarem palavras novas, atribuindo terras aos reis, às nações que os enviaram. A leitura é um oceano sem limite, onde é necessário (...)
Anda ao redor da biblioteca ambulante, a ler o que está escrito na carroçaria, devagar aproxima-se da porta grande, a que permite o acesso ao novo mundo. Convidei-o a entrar, não quis, disse-me que não gostava de ler, questionou-me, é funcionário do município, respondi, sou bibliotecário ambulante. Entre, venha ver as histórias, insisti, voltou a negar, não gosto de ler, frisou. Está desconfiado, não ande, eu nas aldeias, a dar banha da cobra em vez de literatura.  Frequentou (...)
A corrente de ar entra sem ser convidada, traz o canto das cigarras, a fresquidão numa tarde de verão. Acompanha-a as palavras fortes do vento, as melodias dos pássaros, o eco das páginas nas histórias, a avançarem perante os olhares empolgantes dos leitores da biblioteca ambulante. Talvez seja o motivo pelo qual só ter vindo um leitor à biblioteca ambulante esta tarde até ao momento. Os outros apressam a leitura, falam com os personagens, dizem-lhes para tornarem mais rápido as (...)
No terreno situado junto ao lugar onde a biblioteca ambulante se demora na aldeia da Foz, uma mulher colhe tomates para  dentro de um balde. O olhar sábio leva-a a escolher os que estão prontos para cozinhar, os que se envolvem com a alface nas saladas num momento de amor e  sabor, os que se golpeiam com os dentes. Um leitor quando se abeira das histórias na biblioteca ambulante atira-se igualmente com o olhar que sabe muito. Prudentemente, vai seleccionando as histórias, (...)
Na aldeia do Souto a manhã caminha sozinha, não vejo pessoas na rua, de mãos dadas com a aragem fresca, no sítio onde as histórias estão abrigadas dos raios do sol. Há que aproveitar ambas, daqui a pouco o calor vingará quem ousou partilhar os primeiros momentos do dia com o frescor matinal. As histórias não vão ficar na aldeia para sempre, voltarão quando o mês de Agosto for dividido, com a chegada dos que estiveram de férias, por aqueles que as iniciarão precisamente (...)
OH! OHHHH! Senhor João! Senhor João! Ouvia a voz arrastando-se no ar do início da manhã, enquanto procurava uma nesga, entre os raios do sol, a ferirem-me a vista, ainda a acordar, tentando ver quem me chamava aquela hora. Finalmente alcanço o vulto, auxiliado pela mão a substituir a pala, reconheço uma leitora. Quando vai a Alferrarede, tenho dois livros para entregar. Não consegui dizer o dia, fazer uso da razão, repentinamente, não é oportuno nas primeiras horas do dia. Sem (...)
Outra aldeia, mais uma romaria prestes a acontecer. O verão é farto em romarias, nas aldeias as ruas nunca deixarão de estar engalanadas até ao regresso do outono. Atraem os forasteiros, os filhos da terra, não é só a palavra solidão a fazer companhia. A palavra cozinha irá estar sempre presente nos dias vindouros, a preparar refeições para eles. A palavra brisa refresca-os após as noites de folia, a bailarem, até olharem a palavra céu, verem a lua a iluminar a noite. (...)
Gonçalo Cadilhe, Paul Theroux, são uns dos muitos escritores viajantes. Por terra, no mar e no ar, visitam em toda a extensão, continentes, países, cidades, lugares. Com história, património natural, diferentes dos demais, não perdendo a oportunidade, algumas vezes, de utilizarem meios de transporte famosos. O Transiberiano, na Rússia, o Maharaja Express, na India, o Tren del Fin del Mundo, na Argentina e outros tantos, na ferrovia, atravessando desertos. Ultrapassando oceanos, à (...)
A manhã iniciou-se nos Meninos da Floresta, onde se desocupa os tempos livres das crianças. Brinca-se ao ar livre, aprende-se a semear e a plantar, legumes e hortaliças. Há cozinha, elaborada com mistura de terra humedecida e de outras substâncias orgânicas, há lama por todo o lado, nas mãos, no rosto, na roupa. Não há melhor lugar para se aprender, e adquirir conhecimento. A biblioteca ambulante hoje visitou os Meninos da Floresta, a Celeste prendeu-os com uma história, (...)
A chuva é mesquinha a cair, não lhe escapa nada, atenta, não deixa ficar nada por molhar. Tive que fechar as portas da biblioteca ambulante, proteger as histórias, do afecto extremo da água. Após o almoço, no largo do Cabrito, a precipitação está acelerada, desleixou-se com as pessoas, com os leitores. Não se vê ninguém no largo, os automóveis circulam, como a chuva, cheios de pressa, ignorando a biblioteca ambulante estacionada. Não há tempo a perder com olhares (...)