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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

 

 

 

 

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Tarde cinzenta e fria, as portas do café estão fechadas, apesar de no seu interior permanecer a clientela, assim estão mais abrigados da temperatura exterior. O mini-mercado, pela entrada e saída de aldeões, faz o seu negócio, ao mesmo tempo é abastecido de produtos hortícolas para satisfazer as necessidades dos fregueses. A padaria continua fechada, faltará pouco para a sua abertura. A biblioteca ambulante teve o seu primeiro visitante da tarde, espera por mais na aldeia de Amoreira, onde estas acções quotidianas não a fazem neutralizar na luta da desertificação nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra.

 

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As nuvens surgem ameaçadoras, extensas, volumosas, umas mais escuras que outras, lançam grossos pingos de água fria espaçadamente, enquanto o clarão do astro rei ainda resiste. Na campina inúmeros charcos de água, a terra não consegue absorve-la, está inundada, resta-lhe esperar que se transforme em vapor. As viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, trouxeram-me juntamente com as histórias à aldeia da Barrada. A agitação produzida pelo para-arranca de automóveis é superior ao normal para este local, no largo contíguo ao café Areias, aldeões vagam veículos vindos da direcção do cemitério, trajam de cor escura. Desconfio da partida definitiva de um deles, a união vai até à cessão de existir de modo terreno, depois só as memórias. 

 

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Ás portas da aldeia de Alvega, uma cegonha sobrevoa baixinho na descida para o seu ninho, quase toca na biblioteca ambulante. Vem-me à memória os aviões quando procedem às aterragens no aeroporto General Humberto Delgado, por pouco alisam o topo dos edifícios mais altos. As asas bem esticadas, com as patas posicionando-se na abordagem à sua habitação. No Largo da Praça da República, a tarde cinzenta não traz novidades, a chuva contínua fraquinha, mas abundante para empapar quem percorre o local sem protecção. Os livros protegidos nas estantes, apoiados nas suas prateleiras a coabitar com o piloto da biblioteca e companheiro nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, aguardam a vinda dos alveguenses. 

07 Jun, 2018

Dar asas

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A chuva recebe a biblioteca ambulante nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, o José no interior da mercearia espreita ansioso pelas histórias. Com o saco na mão aproxima-se, entra para devolver os livros. Veio da horta, andou a semear um bocado de milho, terminou mais cedo em virtude de ter de vir à biblioteca. A precipitação na aldeia do Monte Galego, forma uma cortina que não permite alcançar com a vista o horizonte. O José leva histórias que lhe dão possibilidades de chegar mais longe, sem limites ou fronteiras, dão-lhe asas para atingir sonhos.

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- Deixa cantar a calhandra! Foram as palavras ditas pelo homem velho que estava comigo, ambos protegendo-nos do sol excessivo na aldeia da Barrada, nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. Os filhos abalaram para outras terras, está só com a velha, como ele diz. Da sua casa, lá em cima, a última quase ao pé do cemitério, desloca-se vagarosamente até aqui. Senta-se um bocado a ver passar o tempo, pois gente não se vê nenhuma, nem para levar um livro. Os quarenta graus que se fazem sentir, afasta tudo e todos. Só eu e o velho suportamos esta força da natureza.

 

07 Jun, 2018

Tempos difíceis

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Mais uma tarde com temperatura demasiadamente elevada para a primavera, nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. O itinerário de hoje rumou até às aldeias da Barrada e S. Facundo, nesta última ao chegar, avisto aldeões idosos refrescando-se na boleia da aragem que se faz sentir no espaço onde a biblioteca ambulante habitualmente estaciona. Salvo um, todos os outros não sabem ler, nunca frequentaram a escola, cresceram nos anos da fome, antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Foram obrigados a trabalhar muito novos, alguns com oito anos, para acrescentar mais algum amparo nos gastos das suas famílias. Uns fugiam à labuta diária, denunciados pelos próprios pais à Guarda Republicana, esta procurava-os como se fossem delinquentes, colocando-os novamente a trabalhar nos campos, do nascer ao pôr do sol. Assim estão os seus corpos, mal conseguem andar, têm de ser apoiados por bengalas e muletas, pelas auxilares do lar de dia, onde passam o tempo até ao entardecer. Regressam as suas casas após o jantar, tempos difíceis.