Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Nunca fica desprovida

IMG_20181127_153913.jpg

A tarde soalheira, convida a passeios pelo campo, a biblioteca ambulante sem ser um veículo de passeata, mas sim de imagens, ideias, pensamentos e fantasias, desloca-se nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, está na aldeia da Concavada, terra natal do poeta que incomodou a sociedade da sua época. No jardim defronte, as árvores  estão nuas, seguras da sua aparência, quando os dias voltarem a ser mais longos com menos frio, voltarão a cobrir-se de folhagem. A biblioteca nunca fica desprovida das suas histórias, tem obrigação de deixar que lhe tirem aos poucos as suas histórias, sem ficar completamente despida, também é uma vaidosa, está constantemente a renovar as suas histórias, bem costuradas em capas de variadas cores, umas mais altas, baixas, outras magras,  gordas, e todas bonitas. Gostam de ser tocadas de viajar, de conhecer novos leitores, novas aldeias. As histórias da biblioteca são umas felizardas!

Os leitores uniram-se

IMG_20181126_161502.jpg

IMG_20181126_152801.jpg

Recebendo o amparo dos raios solares a biblioteca ambulante nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, foi à aldeia dos Casais de Revelhos,  hoje orgulhosa da sua tutora na comemoração do seu vigésimo quinto aniversário. Os leitores uniram-se aos festejos marcando presença, trazendo e levando histórias, a normalidade continua neste início das viagens desta semana. Com a tarde a encolher-se rápidamente a biblioteca avança até à aldeia de Mouriscas, o motor ainda não tinha arrefecido, já o Luís entrava, há muito que não o via, é leitor da biblioteca desde os seus três anos. Ainda me lembro, cabelos pelos ombros, fartos em caracóis, agora com  nove anos, continua a procurar histórias que o farão progredir como pessoa.

Liberdade que deste

IMG_20181123_142447.jpg

Vinte cinco anos a perpetuar, informar, espalhar, revirar memórias, histórias, pensamentos, ideias, reunindo outras tantas até hoje. Acolhes obras de vários criadores e autores, músicos, pintores, escultores, desenhadores, recepcionas artistas do teatro do cinema, tudo gente determinante na cultura portuguesa. Até aqueles menos conhecidos, responsáveis, pessoas, importantes nas manifestações intelectuais e artísticas, que caracterizam a comunidade que abranges. Tutelada por António Botto, poeta incómodo, sublinhas a letras de ouro, José Saramago. Um prémio Nobel, além dele vieram outros prosadores, poetas, pessoas unidas aos livros e leitura e continuarão sempre a vir. No teu regaço, todos eles contaram, declamaram, cantaram, riram, choraram, e nós os que lemos, ouvimos, estamos reconhecidos pela independência que construiste, pela liberdade que  deste de te frequentarmos, conhecermos, aprendermos e crescermos na tua dimensão. És a embaixadora cultural do território que abraças, muitos abrantinos, portugueses, estrangeiros, vieram e foram, outros virão e irão, nunca te deixaremos na solidão.

Passeio a pé pela Travessa da Palma

IMG_20181113_103543.jpg

IMG_20181113_103601.jpg

IMG_20181113_103722.jpg

IMG_20181113_103740.jpg

IMG_20181113_103817.jpg

IMG_20181113_103900.jpg

 

O sol incentivava a manhã ao mesmo tempo desafiando-me a caminhar à Travessa da Palma, uma ruela de Abrantes. Na Toponímia abrantina Eduardo Campos, refere que no AHCA, um documento (auto de vistoria) consumado pela CMA em 1807, informa que a Travessa se situa entre o celeiro do castelo e os quintais do prior da igreja de S. Pedro..., a referida travessa só servia para dispejo de imundise e por ser muito solitaria de noite e de dia se costumav ão reculher para ali individos desconhecidos para praticarem factos indeçentes e excandalosos, perturbando o suçego daquela vezinhansa e atacando as pesoas que á Roda dos Expostos vão levar  crianças. A CMA ordenou  a construção de um muro, salvaguardando uma parcela dos quintais do prior, adequando-a a curral. No mesmo livro conclui-se que foi uma Travessa antiga, o seu início foi na Rua Nova, em seguimento à Rua da Palma terminando próximo do muro do castelo, esta mencionada num topónimo de 1625 de origem desconhecida. Presentemento a sua acessibilidade é pela Rua Nova, com uma ligeira inclinação, terminado na Rua de Santos e Silva (Rua Grande). No sentido contrário, vai-se até à Rua Nova, avistando-se um pouco mais acima a muralha da fortaleza. Uma rua de curta distância, quase um fio quando atravessada no seu ponto médio, não é aconselhável transpô-la de automóvel, o risco é enorme, os testemunhos estão gravados na fachada de uma casa e no muro alto que cerca os quintais, dos quais se estendem longos ramos, onde estão supensos Kiwis. No espaço mais antigo esta travessa é mais uma jóia na arquitectura urbana da cidade,  na primavera, ao percorre-la, sinto os aromas dos limoeiros das laranjeiras que protegem do sol os quintais lá no cimo.

Resistirem a estarem esquecidos

IMG_20181123_113014.jpg

 

IMG_20181123_101915.jpg

IMG_20181123_101844.jpg

IMG_20181123_101622.jpg

IMG_20181123_101656.jpg

As brumas abraçam as viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, aldeias espreitam, o declínio das cores da paisagem, árvores enormes surgem bruscamente do denso nevoeiro imitando gigantes, todo este cenário a biblioteca ambulante descobre até á aldeia da Bairrada. Por curvas e contracurvas, caminhos longos, curtos, largos, estreitos, subindo, descendo a biblioteca com as suas histórias não desiste daqueles que estão ausentes saciando-lhes a vontade de aprenderem, conhecerem,  de resistirem a estarem esquecidos.

O lugar não está abandonado

IMG_20181122_110702.jpg

O som próximo de algo a embater em folhas, advertiu que ainda se vê panos verdes a rodear as oliveiras, não há muita azeitona, mas é boa, o azeite tem mais qualidade. Dizem os aldeões, não se cansam de a colher com um sorriso no rosto. A biblioteca ambulante nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, é espectadora disso mesmo, nas últimas semanas a agitação nos olivais junta famílias, uns tiram férias, outros deslocam-se das cidades para onde abalaram, nos fins de semana regressam às aldeias de onde são naturais. São velhos e novos, avôs, pais, tios e filhos, todos trabalhando e ajudando nesta actividade ancestral. Na aldeia do Carril são os sons possíveis, não se vê ninguém, só as chaminés fumegantes e a biblioteca previnem os forasteiros de que o lugar não está abandonado.

 

É um impulsionamento

IMG_20181121_080434.jpg

IMG_20181121_104151.jpg

IMG_20181121_103802.jpg

IMG_20181121_103741.jpg

IMG_20181121_103250.jpg

A prazentearia do período da manhã foi perfeita nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. A biblioteca ambulante rumou à aldeia do Vale de Horta, campos verdejantes, charnecas e terras de algum cultivo compõem este território no limite da aldeia com a do Vale das Mós. Houve paragem para que o comboio de mercadorias  da linha do Leste,  proveniente do alentejo, passasse  até uma qualquer estação que o acomode. A biblioteca na aldeia opera como uma passagem de nível, onde quem circula na estrada e se dirija na sua direcção, entre para ler e levar histórias, ao sair o nível do seu conhecimento é mais elevado. Estas passagens transportam-nos para grandes viagens, dão-nos a conhecer pessoas, pensamentos, outras culturas, terras é um impulsionamento para crescermos em qualquer idade.