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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

A letargia da aldeia

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 A letargia da aldeia paira por todo o lado, só o som da água vinda da bica a cair no pequeno tanque a quebrar a tranquilidade, ao mesmo tempo a embalar o viajante da biblioteca itinerante na Aldeia do Mato, nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. Lá mais à frente no limite da aldeia com o rio, um homem apanha azeitona, não se vê mais ninguém, a melodia dos pardais distrai o transeunte. O rio descansa do rebuliço dos meses de calor, a normalidade instalou-se outra vez.

Ansiosa de chegar

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 Finalmente vejo os panos rodeando as oliveiras, assim as azeitonas já se podem desprender da ramagem que as aguentam, sem se perderem na terra. Escadas reclinadas sobre a folhagem, homens empoleirados sacudindo com paus os frutos mais altos, em baixo são as mulheres com paus mais compridos que açoitam as folhas. Os panos ficam cheios de pontos pretos e esgalhos, tudo isto é separado, a azeitona é ensacada, indo depois para o lagar. Daqui para a frente será este o cenário durante alguns dias, nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. Na aldeia de Coalhos, uma extensa nuvem escura largou toda a água, causando enxurrada, formando pequenos cursos de água ansiosa de chegar aos afluentes que a guiarão ao rio Tejo. A biblioteca ambulante, firme, aguentou a impetuosidade, os leitores é que não se atreveram a enfrentar o temporal.

Conseguem passar

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Após  ter trocado de " calçado " ( pneus ) a biblioteca ambulante, nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra rumou  toda desembaraçada na direcção da aldeia de Sentieiras. Fui recebido por gotas de água disparadas pelas nuvens, instantes depois o sol lança os seus braços, empurrando as nuvens dali para fora. Agora sem ameaça de outra imprudência da natureza e de portas abertas, os aldeões conseguem passar para dentro da biblioteca.

À volta da panela com a melhor sopa do mundo

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 Esta tarde desloquei-me ao espaço infantil da biblioteca tentar encontrar um livro pedido por uma pequena leitora da biblioteca ambulante, deparei com um grupo de meninas e meninos centralizados na história que a Celeste e a Silvia lhes liam em voz alta, ao mesmo tempo teatralizada, tendo como personagens uns bonecos retratando os animais da floresta, esses animais caminhando pela floresta deparavam com a casa da tartaruga que tinha ao lume uma panela com água para fazer uma sopa. Cada vez que um batia à porta pedindo licença para entrar, entregava um legume, que pelas mais variadas causas traziam num saco. O titulo da história, " A melhor sopa do mundo ", como cenário, uma lareira com chaminé e trempe para suportar a panela. Ao ouvi-las lembrei-me do que ouvia dos meus pais e avós, no tempo da guerra uma sopa ou um caldo foi muitas vezes a refeição ao almoço e ao jantar, para eles foi a melhor sopa do mundo. Com a sopa conseguiram ultrapassar anos de menos abundância, um pouco de água, uns legumes à mistura e já está, todos se reuniam à mesa à volta da panela, confortando o estômago  dialogando uns com os outros, socializando, como se diz no presente. Noutro cenário, a biblioteca sendo a panela com água, os livros os legumes, os leitores, esses, consomem a água da panela, a sopa, para uns está salgada para outros está boa, alguns até podem dizer que é pouca. O importante é que todos se juntam na panela absorvendo o seu conteúdo, tornando-se mais convincentes, experientes e conhecedores. Leiam a história, dela retirem as diversas mensagens que se adaptam a múltiplas lições que se encontram no dia a dia de cada um de nós. Logo em casa não se esqueçam de comer a sopa, aliás comam sopa todos os dias, o mundo será melhor assim.

Sem barreiras

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 O rio paulatinamente vai conquistando as margens, um esforço que não depende só dele, as barreiras artificiais a montante sobretudo, e a pluviosidade que ainda agora vai no início da estação. As viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra na biblioteca ambulante, igualmente conquistam leitores. A sua afluência à biblioteca, às histórias, é da mesma forma que o rio, tem altos e baixos, outras barreiras se interpõem. Mas uma força maior vai rompendo, cobiçando resistências, a força do querer saber e não ter onde obter, a biblioteca ambulante todos os dias sem barreiras dá essa força através das correntes literárias, cinematográficas e musicais.

Viagem a pé pelo Outeiro de S. Pedro

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 ... Ao final da tarde os últimos soldados aliviavam-se da sua equipagem junto das tendas já levantadas, no horizonte a cor escarlate anunciava que o dia seguinte seria novamente quente.Horas antes o rei estancou a coluna do seu exército, muitos ainda atravessavam a improvisada ponte no rio Tejo. O excessivo calor, a íngreme rua da Barca, homens extenuados, desidratados, com distúrbios intestinais, a incógnita quanto ao desfecho da campanha, contribuiu para a que a paragem moderasse o desalento nas hostes.Perante o alcaide, o prior de S.João, Álvaro Esteves o tabelião e outras figuras da vila de Abrantes, além da população, curiosa por tão numeroso exército, o rei desmontou, apoiando-se numa enorme pedra que por ali estava. Logo de seguida um escudeiro segura nas rédeas do seu cavalo de guerra, enquanto um aio lhe traz água fresca, com a qual lava o rosto poeirento e vermelho do sol que se faz sentir no mês de julho. O som de cascos batendo com força no chão ao longe, indica a aproximação de cavaleiros apressados, batedores de confiança, transmitem ao rei o local mais seguro para se instalarem. Ali à direita, aquela colina, direcionada a sul, a norte protegida pela fortificação, seria o sítio onde ficariam aguardando por mais soldados comandados pelo Condestável, Nuno Álvares Pereira, vindo de além Tejo. Mais acima na rua, a carriagem já podia avançar na direção da colina, os homens de mão do rei, coordenaram o reinicio da marcha do exército, D. João I continuou a pé o resto do caminho, tendo como companhia os abrantinos mais importantes. Os dias passaram, o exército reabilitado das suas mazelas, muitos já se exercitavam nos jogos de guerra sob as ordens do Condestável, alguns dias estacionado no acampamento, os mais enfermos repousavam no albergue, não tendo possibilidades de continuar na campanha, da vila partiriam outros. Estávamos em agosto, a indecisão de se avançar ao encontro do enorme exército castelhano sob o comando de Juan I de Castela ainda se mantinha, realizaram-se vários conselhos de guerra, nuns batedores informavam que o inimigo tinha transposto Celorico, noutros a dúvida se a horda de mercenários e soldados oriundos de Inglaterra teria aportado num qualquer lugar da costa. O Condestável bastante irritado, diz que vai com as suas tropas ao encontro dos castelhanos, nisto prepara-se para se levantar e sair. Quando o rei levantando a mão em sinal de apaziguamento diz « se poeria batalha a sseus emmjgos ou hussaria de guerra guerreada, pois que o poer na cousa muy duvydosa », está assim a dúvida desfeita quanto ao destino da campanha. Dias depois, a cinco de agosto os soldados levantam o acampamento e iniciam a marcha em direção à rua Grande seguindo depois para a saída da vila através da rua Adeante, rumando a Constância e depois Tomar...

Teriam sido assim os acontecimentos descritos na narrativa atrás escrita no ano de 1385?  O local, o Outeiro de São Pedro, cujo nome surge por ter ali existido uma igreja com aquele nome. Nele se construiu o monumento (recentemente requalificado), em homenagem ao Condestável Dom Nuno Álvares Pereira a sua inauguração pelo presidente da República Américo Tomás foi em 1968 a 14 de Novembro, a autoria do escultor Lagoa Henriques. Mas significativo é neste sítio terem ocorrido realidades de vital importância para  serem lembradas, após uma grande e tumultuosa agitação política, social e militar o país, mergulhado no absentismo de um rei, que permitia que os títulos nobiliárquicos permanecessem em castelhanos exilados, este e outros despropositos  levaram a que o povo e alguma nobreza após a morte do rei D. Duarte, colocassem no trono o infante D. João, filho de D. Pedro e Inês de Castro. Com a derrota dos castelhanos em Aljubarrota, e com algumas vitórias em outras batalhas de menor dimensão, o reinado de D. João I trouxe ao país outros horizontes, o repovoamento do território nalgumas regiões, restituiu a solidez social e política, localmente a nobreza instalou-se, a Casa dos Almeidas é um exemplo. Mais tarde os filhos do rei conquistaram territórios em África daí aos descobrimentos foi um passo. Abrantes geograficamente foi importante no contexto nacional, ibérico e no mundo, visitem o Outeiro, dali o panorama é indiscrítivel, o rio Tejo, as primeiras lezírias o vasto território para além do rio, e o ser capaz de perceber que ali se fez história.

Bibliografia: Abrantes medieval, séculos XIV - XV, Herminia Vasconcelos Vilar / A batalha de Aljubarrota, uma explicação geográfica; José António Rodrigues do Carmo / História Militar de Portugal; direção de Manuel Themudo Barata e Nuno Severiano Teixeira /  Intervenção inglesa na península Ibérica durante a guerra dos cem anos, Peter E. Russel /  Jornal Público nº 10.422 de 02-11.2018 / Toponímia abrantina, Eduardo Campos.

 

 

A sua indiferença

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O brilho está a ser ameaçado pela deslocação apressada de espessas nuvens, não tarda a precipitação capturará as viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, na aldeia de Martinchel. Na última viagem a esta aldeia, a chuva também limitou a presença de visitantes na biblioteca ambulante, hoje será a comparência dos leitores que revelará a sua indiferença perante a intimidação da mesma.

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