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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Aprisionados no interior

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Aprisionados no interior, numa ruralidade de subsistência, na ponta da europa, muitos sem acesso a novas tecnologias, os naturais da aldeia da Lampreia, têm na biblioteca ambulante a liberdade de escolher, ler, ouvir, ver. Conseguem conectar-se nas varias redes de informacão que atravessam o planeta, para isso a biblioteca nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, não se cansa de os lembrar todas as vezes que percorre as aldeias. Estaciona nos largos, nos adros, junto de cafés, nos lugares onde os poucos se tornam numerosos. Incentiva-os mostra-se, para que não se acanhem, avançem pela biblioteca dentro, busquem nas histórias o conhecimento, matem a curiosidade. 

Onde nem todos querem chegar

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O vento está zangado, os seus murmúrios violentos arrastam folhas e ramos das árvores que contornam a estrada que traz a biblioteca ambulante nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra a Martinchel. Lá fora, a chuva miudinha começa a encharcar tudo, na estrada que divide a aldeia o trânsito automóvel não se cansa, sempre de um sentido para o outro. No interior das viaturas as pessoas distraídas nos seus pensamentos nem olham a biblioteca, outras mais atentas ao que vêem em redor, ficam com expressões de surpresa quando avistam a carrinha das histórias. Algumas na infância, quando  jovens usufuiram das histórias que viajam em carrinhas preparadas para o efeito. Alimentam-se vorazmente do asfalto das estradas, de terra e pedras dos caminhos onde nem todos querem chegar, gastam pneumátIcos, consomem combustível, tudo isto para dar histórias. Parece coisas de malucos, mas nao é! É servico público no seu estado puro, é trabalho estoico de quem anda a melhorar a existência desta boa gente muitas vezes esquecida. A preocupação das  autarquias no combate à iliteracia nos seus concelhos levou-as a apostar nestas "máquinas infernais"  (palavras bem postas pelo Nuno Marçal).Terminando, é o melhor ofício que se possa ter.

Alongando o virar das páginas

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No último destino da tarde a biblioeca ambulante atravessa vagarosamente a rua principal, não se avista vivalma apesar de a quantidade de automóveis estacionados ser normal a esta hora. Avanço fitando um lado e outro, nos cafés, no seu interior, homens já velhos em pé encostados ao balcão, entornam copos de vinho pelas gargantas há muito habituadas a este ritual. Os mais novos, a pouco e pouco, perfilam garrafas de cerveja, nas mesas onde se sentam, mais um dia de trabalho se ultrapassou. Muitos deles, abalam ainda a manhã vem longe, para locais distantes, trabalham nas florestas, preparam terras de cultivo onde no verão irão colher o que as mesmas produzirão. Na aldeia do Vale das Mós só ao final da tarde a agitação tem papel de relevância, é gente que não vira as costas ao trabalho. Na biblioteca também ocorre a mesma manifestação, as histórias são consumidas folha a folha, por vezes mais precipitadas consoante o enredo, na curiosidade de saber o final. Noutras a lentidão provocada por vários bocejos, causados por intensos dias de trabalho, dá origem que as mesmas sejam lidas alongando o virar das páginas.

 

Demanda de mais leitores

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A neblusidade adensa-se na aldeia do Brunheirinho, com a chegada das nuvens escuras, não tarda a pluviosidade tomará conta das viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. Nos campos que ladeiam a estrada por onde a bilioteca ambulante se deslocou, o que resta duma seara de milho ainda é aproveitado por quem anda com o corpo curvado, puxando sacos ao restolho. Noutro adiante, as cegonhas com o pescoço esguio enterram os bicos na terra mole procurando algum sapo como alimento. Com este cenário a noite chegará mais depressa, tenho esperança que o temporal que se aproxima não seja impeditivo de os leitores frequentarem a biblioteca. Com frio, chuva,vento e calor a biblioteca ambulante continuará a percorrer na demanda de mais leitores, apelando para não desistirem de aprender e sonhar.