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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Finalmente os leitores

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O sussurar não é brando, a sua violência desalinha os cabelos dos leitores, trazem nas mãos as histórias bem seguras não vá o diabo tece-las, desprendendo as letras ao seu chamamento. A inquietude da tarde desgasta o viajante, o vento não quer saber disso para nada, ás vezes parece que grita. Ou serão as histórias a clamar pelos leitores, as viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra neste momento demoram-se na aldeia das Mouriscas, o vento continua desalmado, mas nem assim os traz rapidamente para a biblioteca ambulante. O trmpo avança e nada acontece, até a Junta de Freguesia est«a encerrada em virtude dos seus colaboradores terem estado ontem nos trabalhos eleitorais. Os mourisquenses na rua, deixam-se avistar a conta gotas, a pé de automóvel, só que entrar na biblioteca está difícil, o acesso a rede móvel vai e vem, outra contrariedade que nos últimos meses se tornou habitual. Finalmente os leitores!

Não se podem atrasar

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O vento desagradável desta manhã avivou a minha alergia, sem se ter ainda ausentado defenitivamente andava distraída. Incomodado, com a ventania mais impetuosa lá fomos, a biblioteca ambulante rumando nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. Serpenteando, a biblioteca ambulante rola com destreza, a inclinação não muito acentuada, torna-se fácil de ultrapassar, contudo sem se dar por isso, avançamos sempre a subir. A ramagem dos jovens eucaliptos que completam a nova paisagem não para quieta, oscila de um lado para o outro como se as árvores fossem bonecos sempre em pé.A aldeia de Sentieiras ficou para trás, mais um patamar alcançado, aqui a estrada com declives ligeiros, onde a direcção única acontece nalguns trechos, a biblioteca ambulante na boleia do traço direito, acelera um pouco mais, as histórias não se podem atrasar. Olhando em frente, avisto a aldeia do Carvalhal, erguida no planalto. Entro na rua principal que a corta ao meio na direcção da aldeia do Souto, com altos e baixos, não muito acentuados, algumas curvas moderadas, passo a acessibilidade para a aldeia do Carril e antes do Souto, mudo a direcção para a direita, outra aldeia, a Atalaia. Onde no seu limite, a estrada se precipita levando com ela a biblioteca ambulante a ziguezaguear a íngreme descida, lá em baixo a impressão que tenho de que o casario encolheu é notória. Repentinamente o meu coração quase cai no meu colo, um carro a subir no sentido contrário, numa curva tão apertada, nem tempo para travar um pouco, surge do nada. Não há problema, não é a primeira vez, a incógnita nesta descida está sempre presente. Transposto o lugar de Sentieiras do Souto, a estrada acalma, a sensação que tudo terminou, com um braço do rio Zêzere a lamber este lugar, a descontração dura pouco tempo. Enfrento com a biblioteca ambulante outro desafio, o oposto à descida anterior, sempre a subir, com as mudanças de força colocadas ininterruptamente, o volante constantemente direcçionando para a direita e esquerda até ao lugar do Carrapatoso. Finalmente o rio, lá em baixo perdeu as estribeiras, parece um lago, mas não é, devagar apreciando o panorama fluvial e toda a envolvência do espaço, termino a viagem na aldeia da Bairrada onde o destino me trouxe. Neste momento são os leitores que têm uma palavra a dizer!

Entre ventos e fumos

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Entre ventos e fumos, o título do livro editado pela Bertrand Editora, que hoje é novidade na biblioteca itinerante, estacionada no declive onde assenta a aldeia do Carril. Escrito por Nuno Diniz, cozinheiro e gastrónomo, tem na sua introdução conformidades, com as quais me identifico nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. Com outras florestas, outros caminhos, estradas largas e estreitas, distâncias longas e curtas. Sou obrigado e não a esquecer, as redes móveis, cada vez mais difíceis de acessar neste bocado do Portugal profundo, e o quanto são necessárias para este trabalho. Até, a música na rádio, não passo sem ela. Os sons e os espaços sem vivalma, acontece tanta vez, são sonoridades do interior, são as melodias, os gritos do silêncio que eles não querem ouvir e conhecer. É um livro de memórias, um acto da escrita, da sustentação, da aprendizagem, de perpetuar estas obras primas, artesanais da nossa gastronomia. Um livro que descreve e visualiza conhecimentos ancestrais aprendidos na oralidade dos que partiram e na continuidade dos seguidores que exercem este ofício de Norte a Sul do país. É um hino ao povo esquecido e afastado de tudo e todos, uma mensagem de gente simples, com o saber de partilhar o melhor das suas regiões. Quando se leva a boca estas carnes e se libertam os odores, paladares, da terra onde são elaborados, onde desponta a identidade de um povo aventureiro que conquistou territórios longínquos, através das especiarias que muitos deles (fumeiros) incorporam e o amor. O amor é o sentimento colocado pelas mãos que misturam e moldam o que os distingue dos lugares de onde se esgueiram. Com fotografias de Marta Teixeira, um texto muito bem escrito, desafio aqueles que estão instalados nas aldeias e lugares visitados pela biblioteca ambulante a aproveitar a sua presença para se aproximarem e conhecerem este livro. Arrisco, tragam os vossos enchidos acabados, provaremos deles e leremos esta e outras histórias. Aos que me lêem, ao entrarem numa livraria, não percam a oportunidade de o explorar, os olhos também comem!

A desunhar-se por leitores

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É perceptível a coragem da primavera nesta manhã, nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. Na aldeia do Vale de Horta, onde a biblioteca ambulante se acomodou com o viajante das viagens e andanças a desunhar-se por leitores, o que gravita na sequência de tamanha ostentação primaveril, quase a tocar levemente no verão, anda impaciente. Os pássaros envolvem-se uns com os outros em bailados de fazer invenja, voando aos pares, rodopiando entre si, aparentam querer realizar tudo esta manhã, de uma vez por todas,  como se não houvesse outra igual. A rama das batatas plantadas nas hortas que limitam áreas de terreno e casas juntas a uma ribeira que ainda corre, exibem-se viçosas e firmes na terra. Uma cegonha distraída debica no solo, procura a sorte de caçar algum alimento. Não se vê ninguém, mas ouço um martelo a bater com vigor, o som duma rebarbadora também é audível a separar chapa. Eles estão cá, andam ocupados, não têm tempo, não querem aproximar-se, não sabem que as histórias esperam por eles. Não estão alinhadas nas prateleiras, muitas delas encostadas umas ás outras, fatigadas, por não saírem do mesmo sítio, querem que as levem, que as interpretem.

Biblioteca de tesouros

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Percorria sem rumo, na enorme superfície de uma loja, habituada à minha presença regular, de venda a retalho de produtos culturais. Não andava perdido, não sabia o que queria, avancei, os livros atravessavam-se perante o meu olhar atento. Um título, um autor, cativam a minha atenção, havia outros como eu, parando, folheando devagar, até  sorriam para as páginas, notava-se empatia entre os leitores e os textos impressos. Progredia na tentativa de encontrar, não sei bem o quê, quando uma funcionária, possivelmente com olhar experiente, se dirigiu na minha direcção, mostrando um largo sorriso, questionando-me se precisava de ajuda. Fiz o meu melhor com os lábios distendidos para os lados, apresentando a minha simpatia pela sua iniciativa, respondendo negativamente. Virando o olhar noutro sentido, despertou-me atenção um escaparate cheio de histórias. Não perdi mais tempo a vaguear, com uma passada decidida cheguei junto delas, uma colecção de vários autores, na qual se destacava a Guerra dos Mundos do autor H. G. Wells (1866-1946), inglês de nascimento com várias obras publicadas. A ficção sobejamente conhecida de outras edições remotas, destaca-se pela ilustração e pela sua capa dura. Henrique Alvim Corrêa, foi pintor, desenhista, gravador e ilustrador. Nasceu no Rio de Janeiro, tendo falecido em 1910 na Bélgica mais propriamente na cidade de Bruxelas. Com tradução do inglês por João Bernardo Paiva Boléo, Biblioteca de tesouros é o título da colecção, é mesmo verdade, são relíquias da literatura mundial as histórias que a construíram. Roubei algumas frases na leitura de páginas, que não se cansavam do toque dos meus dedos e me convidavam a não parar. Com a chegada dos Marcianos, em pânico, a fugir..., esqueci-me completamente há quanto tempo permanecia de pé com o livro nas mãos, o pescoço descaído para o livro. Ergui a cabeça, em redor continuava tudo na mesma, com outros intrometidos a manusear folhas repletas de enredos.