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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

24 Jul, 2019

Mas venham

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Os deuses que superintendem o universo escutaram-me, a manhã surpreendeu-me com um magnífico céu azul, uma alvorada como há muito não surgia. Bom dia para as viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, (qualquer dia é bom) hoje pelo norte do concelho de Abrantes. O calor vai restringindo quem se movimenta no exterior, acho piada a quem todos os dias no fresco artificial das estações de rádio, alertam no sentido ao bom tempo, sem chuva, irem às praias, esquecendo-se que no interior do país, com poucos aglomerados habitacionais, com terrenos cultivados,  de pastagens, sentem a seca há muitos meses, e que é muito importante que chova e não haja esta temperatura tão elevada. Pouca importa isso, assim como o desbaste exagerado de árvores e plantas silvestres que se pratica actualmente em Portugal, relacionados com a protecção das florestas, nós precisamos da flora para que o ciclo a água se renove, enquanto isso, continuam os grandes incêndios. Os lobbys continuam imparáveis nos seus objectivos, de cada vez mais terem lucros, colocando gente de fato e gravata influenciáveis nos destinos do país. Cheguei a Martinchel com a temperatura nos 40º, as tílias no pequeno adro fomentam que o ar seja mais fresco, na biblioteca ambulante o viajante das viagens e andanças agradece. Ao lado na estrada o trânsito não se cansa, de leitores até agora não há novidades. As histórias no banco desejam que se sentem na sombra das árvores, agarrem nelas, abram as suas folhas e usufruam dos enredos, das narrativas, viagem por aí adiante, encontrando palavras simples, difíceis. Frases verdadeiras, de fazer rir, de percorrer sítios, de provocar, até de fingir. Mas venham!

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Adormeci, ainda vislumbrei os clarões, o som arrastado do trovejar ainda longe impeliu-me para um sono profundo, interrompido noite dentro pelas rajadas do vento, a chuva não parava, ainda atordoado deixei-me estar. Desliguei-me outra vez, talvez alguém accionasse um interruptor e me apagasse, fez-me bem. De manhã cedo as nuvens cinzentas pairavam perto da janela, quase lhes tocava, há muito tempo que não acordo com o céu totalmente azul, tenho saudades de ver o sol a espreguiçar-se. O dia não deverá ser muito diferente do anterior, mais calor a marcar presença nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, logo nas aldeias do Brunheirinho e Vale das Mós. O vento no Vale das Mós está mais atrevido, atravessei a aldeia até ao local onde os leitores se cruzam com a biblioteca ambulante, um velho, dois velhos, sentados na sombra da  esplanada de um café, o asfalto reflecte um brilho intenso que fere quem o observa, são dias difíceis para o viajente das viagens e andanças, só os leitores o tirarão das muitas vezes do estado de dormência no interior da biblioteca ambulante, num ambiente abafado, libertando água em demasia no corpo. As histórias tantas vezes me animam, me desviam da insistência de pensamentos teimosos, os artigos dos periódicos passam por mim rapidamente, alguns fixam-se para mais tarde analisa-los com outros que como eu não perdem pitada das crónicas diárias e escritas ocasionais ao sabor das acções dos intervenientes políticos, sociais, desportivos e doutros que sem quererem são motivo de muitas letras impressas. Informação não falta na biblioteca ambulante, diáriamente está disponível aos aldeões socorridos por este modo de levar e dar, de fazer acontecer, em locais onde quase sempre não há nada de novo.

 

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Volto a escrever numa manhã em que me embaraço ao avistar os panoramas para além do rio, o sol erguido não se deixa ver, tal não é a densidade do fumo espalhado na extensão dos ares. Os incêndios de Vila de Rei e Mação, concelhos colados ao território das viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, continuam a libertar partículas que se soltam da combustão da madeira. Logo mais, á tarde na aldeia das Bicas, mais afastada o ar talvez seja mais leve e respirável. Durante a viagem com a temperatura a tocar os 40º, estreitando o viajante das viagens e andanças, a biblioteca ambulante rolou numa velocidade moderada, sem pressa, tal e qual como a tarde, lentamente até ao pôr do sol. Os leitores demoraram-se mais na conversa do que a eleger histórias, assim o período estacionado decorre mais apressado, é só um palpite. O movimento de uma silhueta, fez-me deixar de estar atento ao que lia, nem tive tempo de esquadrinhar, já alguém penetrava na biblioteca ambulante, uma leitora afastada das histórias, a última presença foi há trés anos atrás, mas voltou com um sorriso e pelas histórias. As moscas não param quietas, fremem, poisam, andam doidas, nem dão sinais de cansaço. No largo do costume em São Miguel do Rio Torto as árvores começaram num bailado contínuo, são protagonistas numa tarde em que não se vê ninguém só as mesas ocupadas na esplanada do café do Vicente, por jogadores de cartas, reformados que se entretêm, ao mesmo tempo que desvendam notícias da terra. Dois novos incluídos como leitores da biblioteca ambulante salvaram a tarde na aldeia, o Centro Social e Paroquial e a Vera, que as histórias os façam sempre voltar.

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Prevejo uma tarde de viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra abrasadora em Vale Zebrinho, a primeira paragem será sob a protecção do grande plátano que a biblioteca ambulante fará a sua prestabilidade aos leitores que surjam. Ainda em casa, da minha janela vejo o rio lá baixo, está anafado de tanta água, o açude a estancar a corrente ilude quem olha. Tem dias que submerge o passadiço pedonal, da outra margem as tábuas alinhadas têm de ser de boa qualidade para aguentar demasiada água por tantos dias. Até as folhas descaidas dos salgueiros, aproveitam para se embriagarem no rio, mais logo atravessarei a ponte rodoviária na direcção das aldeias, a segunda será Arreciadas onde o mais assíduo leitor estará sentado num banco na varanda, aguardando pela chegada da biblioteca ambulante. De um lado e outro da estrada a cor amarela domina a charneca, a terra está gretada e seca, erva transformada em palha, os sobreiros são os únicos que aguentam a inexistência de pluviosidade. O plátano abraça a biblioteca ambulante com a sua sombra, os seus ramos rangem ao deslizarem no tejadilho, são a sua voz,  fala com o viajante das viagenas e andanças, lamenta a falta de crianças na aldeia, gostava de os ter á sua roda, muitas histórias lhes contaria. Como há muitos anos os aldeões passavam por ele a pé para os trabalhos no campo, com as alfaias ao ombro, ou de carroça puxadas por burros e bois, sempre olhavam para ele, com o calor paravam um pouco para descansar, para falar e ouvi-lo. Actualmente já não lhe dão importância, a não ser pela sombra, hipocrisias! Já são menos, vão e vêm nos automóveis, as crianças tinha-as ao pé de si, na escola, logo ali em frente, a escola fechou, diminiram as crianças, diminuiu tudo, até os ofícios. Nos dias de hoje, só estão os velhos e vê-os ao longe, lá de cima da sua altura, os velhos não têm força para andar e aproximarem-se dele. É o único da sua espécie, talvez por isso tenham inveja, as outras árvores ficam meio despidas para alimentar os seus proprietários, a sua casca é valiosa, o plátano não produz nada, os seus ouriços libertam uma penugem incomodativa para os alérgicos, não lhe tocam, cada vez maior, mais bonito. Com a biblioteca ambulante no verão a demorar-se na sua sombra todas as vezes que vem á sua aldeia. Em plena rua principal na aldeia de Arreciadas, a biblioteca ambulante completamente escancarada a quem passa, só o João, o tal que a espera ocupando um banco comprido a visitou, lastimou-se das dores nos joelhos, da dietista que lhe retirou o que mais gosta de comer, os diabetes etc. Ainda bem que a sua vista está em óptimas condições, assim continua a ser um dos que lê mais.

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A tarde está quente, no ar paira uma agitação, vozes a soar mais alto do que o habitual, as mulheres desenquietadas, seguram sacos de pão, ao mesmo tempo que caminham apressadas num sentido e noutro. Ouço o som dos motores de helicópteros, chego lá, provavelmente um incêndio irrompe perto da aldeia. Estou nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, na Amoreira. No exterior da biblioteca ambulante,  afastados, um grupo de aldeões, erguem os rostos na esperança de avistarem as máquinas voadoras, o barulho ensurdecedor aproxima-se novamente, até os automóveis param, os seus ocupantes espreitam, interrogando os que estão do que se passa. As histórias aconchegadas nas prateleiras, ausentes do rebuliço, anseiam pelos aflitos, venham procurar, certamente que os bombeiros combatem com firmeza as chamas. Encarnem nos personagens das histórias sejam o que quiserem ser, avancem pelas páginas fora, terminem exaustos nas emoções sentidas durante a travessia das narrativas, dos diálogos impressos em linhas imaginárias.

16 Jul, 2019

Trajando de negro

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Outro dia em que o sol se espreguiçou tardiamente, de manhã a chuva mais parecia um jacto de aerossol que modificou rotinas nos abrantinos que não esperavam por tal fenómeno. As viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, estão debaixo de um sol ainda frouxo, não está muito quente, sabe bem, até aptece escrever sem parar. Na aldeia do Monte Galego, a biblioteca ambulante e o viajante das viagens e andanças receberam as histórias de um leitor que não mais voltará, finou-se precepitadamente na semana passada, leitor desde o primeiro dia nesta aldeia, deixa saudades. Tem momentos em que o vento sopra mais forte, levantando o pó, a aldeia mantêm-se sossegada, espaçadamente um aldeão aproxima-se da biblioteca ambulante, olha na sua direcção, nada acontece,  segue o seu destino, só o José trajando de negro pela morte do cunhado, entrou e levou histórias. Em Alvega a biblioteca ambulante faz primeiro a paragem defronte do Centro de Dia, no exterior, um espaço verde com uma enorme árvore protege quem se senta nos bancos que ladeiam o pequeno largo. Na próxima vez a biblioteca tem de comparecer mais cedo, quem levou histórias da última vez já regressou a casa, desejo que a leitora volte, uma inadvertência por mais pequena que seja pode ser fatal, neste caso um leitor perdido. Será a primeira a levar livros no regresso da biblioteca a Alvega. O largo do Coreto está movimentado, automóveis não faltam a transitar, na esplanada do café as cadeira estão ocupadas, nas mesas as fileiras de minis semelhantes ao esquema  de um exército num campo de batalha não dão descanso ás gargantas dos comandantes. A sofreguidão da tarde leva-a para o crepúsculo, mais logo a lua ficará parcialmente escondida pela sombra da Terra, quando esta juntamente com o sol e o nosso planeta estejam alinhados. Os leitores não abundam no largo, as histórias não fazem parte dos quotidianos, esta oportunidade é incompreendida pelo viajante das viagens e andanças, onde vai esta gente procurar sabedoria, aprendizagem, e sonhar não quererão?