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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Árvore que colecciona histórias

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Andavam por perto, gargalhadas, gritos estridentes, a brincadeira estava no auge. Acenei com as histórias. Não sou muito de ler, diz um deles. Convidei a entrarem,  para conhecerem a biblioteca ambulante. Demoraram, finalmente surgiram, rostos escarlates, pequenss linhas de suor escorriam na fronte de todos eles, o primeiro gesto foi logo agarrar nas histórias. Tem o Diário de um banana? Questiona o que não é muito de ler, sucessivamente os outros seguiram-no determinados a seleccionar as histórias preferidas. O viajante das viagens e andanças agindo de modo mexeriqueiro, foi informado que estavam de férias, são de Lisboa, primos, estão de visita aos avôs. Gostam de permanecer na aldeia, as brincadeiras no campo são diferentes  da cidade, têm liberdade, são como os pássaros, saltitam, voam de galho em galho até que pousaram na árvore que colecciona histórias.

O mesmo propósito

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Numa estufa, com o céu pontilhado por nuvens e fundo de um azul desfalecido, a biblioteca ambulante com as histórias ruma no sentido da aldeia da Água Travessa nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. Com palavras refrescantes na dianteira, interrompo extemporâneamente a viagem, o "Carvoeiro" vagaroso rasga a EN2 com destino a Sines, diáriamente pouca terra para cá, pouca terra para lá. É assim desde os meados dos anos oitenta, abstecendo a Central Termoeléctrica do Pego com o carvão a gerar energia. No início do planalto, pouco antes de penetrar na aldeia de Bemposta (sede de freguesia), a cor vermelha dos pimentos anuncia que está para breve a colheita dos mesmos, ainda é uma extensão considerável. Mais à frente é alcançado o território onde sobreiros e carvalhos são dominantes, aqui sinto-me confortável, é uma terra mais rude, mas espaçosa e plana, as pessoas são as mesmas como as dos outros lugares visitados pelas histórias, mas há outras diferenças, os seus rostos têm sulcos,  semelhantes á terra que pisam. Trabalham a terra ainda o sol dorme, chegam aos lares com a tarde abrigada entre o vermelho e o amarelo, extenuados carregando as mochilas onde repousam marmitas esvaziadas. As caras ainda encarnadas,  da exposição directa sob acção dos raios flamejantes do sol mostram que não é fácil, alguns aliviam a garganta com uma cerveja fresca no café logo ali, combinam horários, nem sempre o trabalho é o mesmo. A terra é que manda, hoje pimentos, amanhã a courgete, depois a cortiça, assim andam durante o ano, alternando culturas e patrões. As histórias, ora uma aldeia ora um lugar, tendo leitores com as suas desigualdades mas o mesmo propósito, a leitura.

Ser diferente na sua terra

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O raiar do dia envia cores fantásticas e ao mesmo tempo anunciadoras do calor que se irá instalar mais logo no decorrer das viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. O alarmismo desencadiado nas rádios e televisões são o exemplo que no interior o diabo anda á solta, como se quem ocupa este e outros territórios semelhantes não estejam familiarizados com este fenómeno. Estamos no verão é normal assim acontecer esta fúria dos elementos naturais. Seria tão bom que informassem das viagens e andanças, desta e outras bibliotecas ambulantes, que não olham ás condições atmosféricas para fazer acontecer com as histórias nos lugares e aldeias distantes de tudo e todos. Que dão sonhos e conhecimento a pessoas  teimosas e resistentes, que amam os sítios onde nasceram, onde são felizes, apesar da falta de atenção de sucessivos governos. Que informassem que no interior brotam indústrias e outros serviços que empregam jovens, dando garantias para a sua continuidade nestes locais. Isto não é só incêndios, onde jornalistas se deliciam em arrastar longamente, muitas vezes sem conhecimento a sua escrita e comentários das tragédias fomentadas na época estival. Há património humano, natural, histórico. imaterial e gastronómico que necessita de ser apoiado com mais inteligência da parte de quem comanda os nossos destinos, porquê assobiar sempre para o ar consecutivamente? Na aldeia do Souto os 38º equivocaram a histeria radiofónica e televisiva, para quem suporta temperaturas superiores. Deixem o conforto do litoral e das grandes cidades, venham para o bem estar do interior, visitem as praias fluviais rodeadas de vegetação luxuriante, puxem pela oralidade destas gentes que tem muitas histórias para contar, certamente irão cruzar com bibliotecas com rodas onde poderão partilhar histórias, as vossas e as nossas. A aldeia das Fontes tem uma agitação anormal na sua regularidade quotidiana, veículos  deslocando-se a demorarem-se na Tasquinha da Aldeia, a estreia recente da praia fluvial, trouxe forasteiros a esta freguesia, um exemplo de instalação que gera empregabilidade e mais comércio. Aditando os que se mudam voluntariamente para outros estados europeus, e que regressam nas férias, promove o aumento de população e comércio. A biblioteca ambulante traz maneiras de aprender, conhecimento, de ser diferente na sua terra.

Nesta longa viagem

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O rigor da tarde obriga a cuidados, água fresca na geleira da biblioteca ambulante, o viajante das viagens e andanças irá escorrer algum líquido, e precaução é boa conselheira, no cais onde têm início as viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra a temperatura na sombra está nos 34º graus. Em plena estrada, onde as trajectórias surgem para a direita e esquerda e assim sucessivamente, reduzo a velocidade, na dianteira segue um casal de ciclistas, ultrapasso e sigo até à recta onde duas marcantes árvores dão sombra a quem transita, estaciono na berma larga que ali existe, aguardo pelos ciclistas.  Primeiro ele, o rosto transmite esforço depois ela, sorriso rasgado, questiono ao primeiro se necessitam de enviar mensagens no portátil, com um ar surpreso respondeu negativamente, continuaram a  viagem pedalando num ritmo vigoroso. Recomeço a viagem com a biblioteca ambulante na companhia das histórias, consciencial de ter realizado uma interrupção no percurso, na acepção de colocar á disposição de outros viajantes meios tecnológicos com os quais poderiam ter tido acesso a qualquer lugar do planeta, nem que fosse um escasso repouso a folhear as páginas dos periódicos obtendo informação actualizada. Na aldeia do Crucifixo, o termómetro informa a falta de vergonha da temperatura, 40º. No Tramagal a pequenada nunca falta ao aceno das histórias, em fila despontaram juntamente com a professora a comandar. Ainda na vila, no largo onde os majestosos plátanos ainda recebem clorofila, dois pequenos leitores já aguardavam as histórias, escrevo leitores, o interesse e conhecimento  demonstrado de algumas histórias indiciavam a iniciação nesta longa viagem e aventura que os acompanhará para o resto das suas existências a leitura. Com as inscrições concretizadas, farão parte do grupo de leitores que constantemente se abeiram da biblioteca nas suas viagens.

Depois do fracasso o sucesso

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As férias terminaram, o dia amanheceu envergonhado com aparência agradável, perfeito para as viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. Mais logo matarei saudades das histórias, será que sentiram a ausência da companhia do viajante das viagens e andanças? Da condução da biblioteca ambulante, algumas vezes ziguezagueante consoante o esboço da via, do tropeçar involuntário menos bom do asfalto? Da marcha lenta ou acelarada que é obrigada para fazer acontecer? Das mãos grossas, das mãos delicadas, das mãos pequenas, que as seguram e exploram? Abri a porta, ali estão elas, alinhadas nas prateleiras, direitas, tal e qual um pelotão na parada de um quartel, disponíveis para combater a ileteracia, ajudar os literatos que nem sempre têm condições sociais e geográficas para alcançar as histórias. Fico feliz por muitas não estarem presentes, estão nos lares distantes do território das viagens e andanças, acompanham-nos nos dias de descanso, saltitam de lugar em lugar, na sala, no quarto, no terraço, na varanda, no campo, não os largam, nestes dias de afastamento são almas gémeas dos que as lêem. Na aldeia da Concavada, os lamentos do vento são cada vez mais agoniantes, ao mesmo tempo que o céu se torna carracundo. No largo os aldeões esgueiraram-se de suas casas para espreitarem um acontecimento, uma ambulância recolhe para o seu interior alguém com necessidade de ser socorrido com urgência. Com as mãos protegendo a vista do escasso brilho do sol, ali estão observando, infelizmente as histórias não são uma ocorrência que os faça tirar de casa, ainda assim nunca os deixarão de visitar, são teimosas. Sem leitores, seguiu-se no itinerário a aldeia do Pego, a tarde perdeu de vez a vivacidade e a biblioteca ambulante ganhou um leitor novo, depois do fracasso o sucesso.