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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Compreendem que não estão esquecidos

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Os automóveis a pouco e pouco ficam enfiados, seguidos uns atrá dos outros, a progressão na estrada torna-se vagarosa, lá na frente a cor verde do colete de um polícia não para de se mover na rotunda. Quando chega a vez da biblioteca ambulante, o viajante das viagens e andanças é informado que as luzes de nevoeiro têm de estar obrigatoriamente acesas, como não existem, são as lâmpadas dos médios acesas a continuar nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, sinalizando as histórias na direcção da aldeia da Pucariça. A prevenção das autoridades, não é mais nem menos essencial que as medidas realizadas antecipadamente pela biblioteca ambulante nas aldeias que visita. Com a sua presença com leitores, e sem leitores, evita a falta de informação, sobreavisa os forasteiros que a aldeia está alerta a qualquer anormalidade. A sua demora no adro da igreja, no largo do coreto, junto do café, da escola, do posto de saúde, da casa do João, da fonte, da junta de freguesia, do Centro de Dia, é uma orientação para os que estão e para os que atravessam o território. É uma estabilidade para os aldeões, comprendem que não estão esquecidos!

O galenteio das histórias

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As brumas cercam o território das viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, a cidade não consegue observar o rio, a biblioteca ambulante com mil cuidados ruma para a aldeia do Tubaral. A dúvida do viajante das viagens e andanças, está no acesso, mais ou menos a três quilómetros de distância do Largo S. João de Brito, onde sempre o galenteio das histórias acontece com os leitores e pretendentes. Na última visita da biblioteca ambulante a esta aldeia, teve que tomar uma passagem secundária, um trilho adaptado a estrada, em virtude de obras de manuntenção no troço principal. Desta vez haverá a possibilidade da viagem decorrer com normalidade, sem necessidade de desviar a direcção, e correr o risco do caminho estar tranformado em terra e água pelas recentes chuvas. O sol brilha no Tubaral, as névoas dissipam-se à medida que as histórias vencem a distância debilitada dos quilómetros finais. O jornal de Abrantes é o mais solicitado, além de servir o café do Lola, com exemplares, alguns aldeões abeiram a biblioteca ambulante com esperança de encontrar as notícias locais. No largo as mulheres aquecem os corpos mirrados pela travessia dos anos, um cão não se cansa de ladrar, ainda sou um forasteiro para ele. O tagarelar debaixo da laranjeira aumenta, condutores indiferentes largam as viaturas, apressados entram no estabelecimento, bebem café, beijam um cálice de aguardente, despejam poucas palavras, saem como entraram. Destinos diferentes, trabalhos diversos, sobrevivências difíceis, são felizes, não desistem!

Com vontade de repetir

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Brilhante e cinzenta, são as mudanças da tarde nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. Aparentemente estão ausentes na aldeia da Chaminé, só os cães se ouvem ladrar, um ou outro cacarejar, num qualquer quintal, arquitectado nas traseiras das casas baixas que ladeiam as poucas ruas da povoação. Perfeitos paraísos privados, com água no poço, preenchidos por canteiros de flores, de hortaliças, completados de pequenas capoeiras, que asseguram emergências e sustento doméstico. Quase a terminar a viagem, às portas da aldeia da Água Travessa, ainda se colhe azeitona, espalhadas ao redor das oliveira já varadas, as sacas gordas  estão prontas para serem esmagadas no lagar, aguardam a vez de  serem transportadas por braços fortes e depositadas nas  carrinhas de caixa aberta. Quem não apanha azeitona, recolhe histórias na biblioteca ambulante, espreme as letras, incorpora os sabores das narrativas, ficam de barriga cheia, com vontade de repetir.