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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

08 Jun, 2021

São dias onde...

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Mais um pouco e o sol ascende ao seu lugar mais alto, na aldeia do Vale do Açor, o Gregório compareceu na biblioteca ambulante, nunca falta, as suas histórias preferidas são relacionadas com  o período da guerra colonial. Combateu em África, um conflito armado que ainda o persegue, gosta de estar informado com as histórias dos que como ele viveram esse tempo imperfeito da nossa história. A tarde está lançada, embalada pelo vento fresco que tem momentos ásperos. A biblioteca ambulante de portas escancaradas na aldeia de Bicas recebeu uma leitora, aguardava sentada, escondida na sombra da tília. A corrente de ar que percorre o interior da biblioteca ambulante impede o viajante das viagens e andanças de cerrar os olhos, está calor, não é nada ainda, o pior está para vir, quando a temperatura se aproximar dos 40°, ou mesmo ultrapassar este valor. São dias onde os leitores demovem o esmorecimento causado pela intensidade do calor, alertam que o melhor está para vir quando levam as histórias. 

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Na aldeia de São Facundo a manhã desenvolve-se ao som das melodias da passarada, escondida na enorme tília, no adro da Igreja. É a primeira vez que a biblioteca ambulante permanece junto do templo, a sombra e o perfume das flores da árvore convidaram o viajante das viagens e andanças a deter a marcha. Não sei se haverá apoio, novos leitores, subitamente uma mulher surge segurando um balde numa das mãos,  despeja a água suja da lavagem do chão da entrada da sua casa. Anda por ali de balde na mão, atravessa a estrada, fala com alguém. Uma vizinha, defronte, veio espreitar, um carro enorme, cheio de letras e tiras coloridas, coladas na carroçaria, não é usual na sua aldeia. E logo ali naquele lugar, onde nunca esteve, na próxima visita quero que se aproximem mais, entrem, apreciem as histórias. 

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" Vou-te levar nas palavras, a máquina não para ", são letras de uma composição musical, que vestem na perfeição a biblioteca ambulante. Nesta errância por estradas que atravessam aldeias e lugares, é o que trago e levo diariamente das pessoas distantes do aglomerado populacional, que é a cidade e o seu limite urbano. Palavras resignadas, de alegrias, de tristezas, do cansaço de uma vida a trabalhar no campo. Para mim são esperança, ouvindo-os, sei que eles continuam a existir nas aldeias, numa capacidade de adaptação às inconsequências. A máquina é aquela que leva histórias sobre rodas, é a estrutura que permite organizar o acontecimento, de considerar, provocar, e facultar as palavras dos outros. Somos nós quando nos lembramos dos que permanecem.

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