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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

É agora uma fortificação...

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As copas das enormes árvores sobressaem com a cor das suas folhas douradas no cinzento, um cinzento mais escuro nas nuvens paira no horizonte ameaçador em Vale Zebrinho. Não muito distante do local onde a biblioteca ambulante permanece, o som de uma moto-serra a separar pequenos ramos amontoados, sobras da colheita da azeitona. Não há ninguém próximo, de vez enquanto surge uma viatura interrompendo a tranquilidade do lugar. A chuva veio alterar esta pausa no tempo, o viajante das viagens e andanças enclausurou-se, protegendo-se da água que cai sem parar. A biblioteca ambulante é agora uma fortificação, as histórias continuam atentas, não vá querer invadir o espaço algum cavaleiro que as queira arrebatar das estantes. Escapar, levando-as para as usar nas noites frias na charneca, lendo as suas páginas junto da lareira, consumido-se nas palavras intermináveis das histórias. 

O último afecto...

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Os ramos da oliveira agitam-se de um lado para o outro rapidamente, não é o sopro do vento. No meio da ramagem, um braço esticado onde as mãos seguram um pau curto que bate violentamente na folhagem. As azeitonas soltam-se desencadeando uma saraivada na direcção dos panos ao redor da árvore. As mulheres não se atrevem a subir pela árvore acima, em baixo ripam a azeitona que está nos ramos que são cortados inteiros para favorecer o crescimento da árvore. Nem se apercebem da demasiada frescura da manhã ao contrário do viajante das viagens e andanças, não param enquanto a oliveira não ficar totalmente despida de azeitonas. No chão, em cima dos panos separam as folhas das azeitonas, depois é coloca-las em sacas e transporta-las para o lagar. Nas próximas semanas será este o cenário nas viagens e andanças, grupos de pessoas ao redor das oliveiras apetrechados de varas, panos, baldes, serrotes, trajando roupa já muito usada, remendada de tantos anos a equipar estas pessoas inquietas no trabalho que realizam. As histórias ficam para segundo plano nestes dias de azáfama, não se fala de outra coisa, não há tempo para mais nada, um intervalo para enganar o estômago, e logo a seguir abraçam as oliveiras como se fosse o último afecto das suas vidas.

As palavras são...

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De volta à estrada, às aldeias da minha terra, longe da ribalta regresso às pessoas, à escrita onde as palavras se soltam mais facilmente. Na aldeia do Tubaral, no largo onde tudo acontece, enquanto a padeira não chega, os diálogos giram em torno da azeitona, alguma não está madura, está assim na charneca, está assado... A chuva anunciada para o final da semana, está a apoquentar quem ainda não iníciou a colheita e tinha planeado o período de descanso mais longo que aí vem para a colher. São poucos na aldeia, mas continuam a manter os valores da ruralidade, não deixam fugir as oportunidades que as divisões do ano lhes proporcionam. As histórias não são implacáveis,  retornam aos lugares onde são necessárias. A biblioteca ambulante é e será sempre o alicerce que possibilita as pontes para cada leitor transpôr e partir à sua vida, as palavras são como as azeitonas, espremidas temperam as pessoas.

A informar que há tempo para ler...

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Foram cinco minutos  de notoriedade as histórias, a biblioteca ambulante, atrás a magia acontecia, espontaneamente as crianças alheadas do que as rodeava, escutavam as histórias escolhidas por elas, lidas pela Sílvia e a Celeste. As palavras foram preparadas mil vezes , alinhadas aguardavam, nunca mais, a delonga aumentou a desinquietação, de repente, cinco, quatro, três, dois, um, e agora. As palavras arrumadas começaram a desorganizarem-se, queriam passar à frente uma das outras, sem sentido, não, pensou o viajante das viagens e andanças. A estrada é esta, devagar e assertivas sairam às questões da Joana, a mensagem estava no ar. Os cinco minutos pareciam cinquenta, nunca mais terminavam, não via mais ninguém, só eu e a Joana numa campânula para me proteger. No fim o alívio, mas também a incerteza se tudo tinha acontecido bem, não foi preciso muito tempo, as saudações de quem se aproximava demonstraram que afinal não foi mau como eu desconfiava. A biblioteca ambulante, as histórias e as suas  pessoas, demonstraram que é necessário continuar a viajar com as letras, a informar que há tempo para ler.

 

Ainda me lembro de ouvir...

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Os homens ao sol assemelham-se aos lagartos, apesar de manterem a temperatura independentemente do meio, ao contrário dos lagartos, incapazes de aquecerem os seus corpos sozinhos. A conversa desenrola-se entre eles sem obstáculos, as palavras saem em catadupa. Uma mulher aproxima-se, traz uma vara comprida numa das mãos, na outra um balde cheio de panos. Revela que andou a colher azeitonas nos terrenos declivosos que por aqui existem. Ainda me lembro de ouvir falarem do frio, dos dedos das mãos cheias de frieiras por andarem a colher a azeitona que caia na terra coberta de geada. Agora pouco falta para o sol atingir o seu lugar mais alto, com a temperatura a atingir os 30°. Alguns leitores andarão empoleirados nos ramos mais grossos das oliveiras, como procedem os trapezistas, a ripar a azeitona, onde as varas não conseguem alcançar os pequenos frutos de cor meio verde, meio preta. Ficam as histórias para trás, na próxima visita à aldeia virão com vontade de ler ainda mais. 

Não acredito em excesso...

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O vento traz o cheiro de sardinhas a serem assadas, apesar de já ter almoçado não deixa de ser uma sensação boa. Alguém em Martinchel está preparando a refeição atrasada, com o verão fora de horas, ainda há quem proceda de acordo com a estação mais quente do ano. As sardinhas podem ser degustadas em qualquer dia do ano, mas sabem melhor quando o tempo corre devagar, entremeando o resto do dia com uma sesta, dando descanso ao corpo devastado de tanto manjar. Só não se alimentam das histórias que permanecem periodicamente na aldeia, não acredito em excesso de repugnância na leitura, nestas pessoas, a biblioteca ambulante está bem visível, não há melhor sítio para se dar tramas. Recentemente defronte do pequeno espaço onde estão as fontes, da água e conhecimento, abriu uma barbearia, ando cheio de curiosidade para entender se há mais fregueses a cortar o cabelo ou a ler. O cabelo está sempre a crescer, a leitura tendencialmente esbate na vontade.

A levar a boa nova...

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Uma névoa suave produzida pela cortiça a ser mergulhada em água a ferver, ocupa a extensa planície que acompanha a estrada que leva a biblioteca ao destino. O gado indiferente procura a erva fresca que começa a despontar junto dos sobreiros e carvalhos. As histórias não param na viagem que as conduz à aldeia do Vale das Mós, debaixo de um sol que hoje ainda estará inclemente ao viajante das viagens e andanças. A pequenada da não quis de ter a posse das histórias nas suas mãos, exploram as coloridas páginas, bichos, árvores e bonecos mantêm-nos atentos. Além disso os graúdos marcam presença, folheando, lendo apressadamente conteúdos que ajudarão a resolver o que levar. A manhã não terminou, a biblioteca ambulante, não tarda a partir para outras aldeias, tentando alcançar novos leitores, a levar a boa nova, as histórias estão de volta. 

Continuam a ser essenciais...

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Olho ao redor da biblioteca ambulante na aldeia do Vale do Açor, persigo um assunto que me empurre a escrever o post de hoje. Aos ouvidos chega-me o som de uma serra separando partes lenhosas de árvores, são para serem queimadas nas lareiras e fogões. O frio está atrasado mas não inviabiliza a realização deste trabalho árduo. Três ciclistas aproximam-se, vêm bastante extenuados, rostos cheios de água, após concluírem a íngreme subida, logo atrás do local onde permanece a biblioteca ambulante. As minhas narinas captam o cheiro do pão a ser cozido num forno a lenha, vejo o fumo a subir e a dançar ao mesmo tempo. A vida acontece nesta aldeia, leitores só há um, os outros ocupam-se noutras tarefas, não param durante o dia. Deitam-se cedo, levantam-se com o sol adormecido, a leitura para eles nunca foi importante, mas continuam a ser essenciais como futuros leitores. 

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