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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Correram para os jornais...

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Correram para os jornais como se não chegassem para todos, a Bola foi a primeira a ser alcançada, talvez fosse a mais disputada. Não era nenhum jogo de futebol, muito menos uma bola de rolar no pelado, cujas balizas não têm rede e estão um pouco ferrugentas por não haver jogadores na aldeia. Habitantes também já houve mais, alguns reúnem no café da associação e demonstraram que estão em forma para ler os jornais e revistas que são colocados e distribuídos numa mesa e por quem está bebendo o seu café depois do almoço. Este episódio foi uma demonstração de que a teimosia da biblioteca ambulante estacionar na aldeia, próxima do que ainda resta do campo de futebol da associação, está a gerar curiosidade e força no estímulo à leitura. É curta, mas não deixa de ser uma grande história a perpetuar nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra.

Meia dúzia de passos...

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A chuva é fugaz esta manhã, miudinha como alfinetes a chocarem no para-brisas da biblioteca ambulante. O café quente do termo é um conforto para o viajante das viagens e andanças, proporciona-lhe determinação para o resto do dia que aí vem. Persistir face à possibilidade de insuficiência de leitores, os indícios não estão animadores perante a cara do dia. Não está doente, mas está choramingas, as pessoas assim não saem de suas casas. No conforto das lareiras e dos agasalhos, estão enjeitadas para as histórias, a não ser quando a buzina da carrinha do padeiro soar, haja a possibilidade de se chegarem junto da biblioteca ambulante. Meia dúzia de passos e estão com as histórias defronte dos olhos, podem voltar a viajar, cavalgando as páginas, muitas delas imaculadas. Estarão à sua espera mistérios, crimes por desvendar, intrigas por solucionar, paixões amarradas, cidades para explorar, histórias por contar.

Onde a oralidade recruta histórias...

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A névoa rasteira não permite descuidos na estrada de curvas seguidas, a conduzir a biblioteca ambulante nas viagens e andanças, em direcção ao Tramagal. Acrescentando a temperatura baixa, os cinco graus  celcius que se colam no corpo de quem arrisca andar desprotegido, ou sem agarrar uma história nas mãos por exemplo, ainda a privação de leitores que sobe nos lugares do costume, dos encontros verdadeiros e deslumbrantes ao mesmo tempo. Onde a oralidade recruta histórias abandonadas, ou talvez não, pois continuam a ser transmitidas muitas vezes por gente que não sabe ler e escrever, histórias que valiam estar impressas nas folhas do papel de qualquer brochura. Este enfraquecimento de quem lê para si mesmo tem muito a ver com os alarmes, perante o agravamento da pandemia. A propagação é uma barreira, e o sentido da responsabilidade, o confinamento nalguns casos, prendem-nos nas suas casas. Ficamos todos a perder outra vez, as histórias na biblioteca ambulante vão continuar a viajar nas estradas tenham elas curvas ou não.

Uma reunião de folhas...

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Está frio, as histórias encolhidas nas estantes parecem tímidas, mas não, estão ali para quem as queira levar. No interior das brochuras, são tantas as palavras impressas que só as decifrando percebemos, a energia que transmitem. As emoções que provocam, muitas vezes ficamos com pele de galinha, noutras choramos, de vez enquanto aborrecemos-nos, pomo-las de lado, não queremos saber mais nada do que está escrito. Partimos para outra história, entretanto nunca deixamos de olhar para a que ficou para trás, a curiosidade do que permaneceu por ler está constantemente a aliciar-nos a consciência, será que  sobrevivemos sem a terminar, ou voltamos a evoluir na sucessão de acontecimentos que ainda possui. Algumas transferem tanto calor que voltamos a elas novamente para sentirmos como foi da primeira vez. O frio continua, as mãos e os dedos dos pés estão a ficar enregelados, para as primeiras tenho solução, vou trazer sempre e para onde for, uma história aconchegada nas mãos, uma reunião de folhas transformada em acessório de homem e mulher. Para quê as luvas, usemos livros, segurando-os com  paixão, como se fosse a primeira vez, acaloremos a alma, o que sobrar ficará estimulado.

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