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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

29 Abr, 2022

Talvez o cheiro...

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O que poderia ser um dia grandioso de primavera não o é, o causador é o vento desagradável que sopra na charneca. Não fosse o odor perfumado das flores das laranjeiras chegar à biblioteca ambulante, e sem permissão penetrar nas narinas do viajante das viagens e andanças, o resto do dia seria péssimo. Talvez o cheiro cative os leitores e não leitores, que os puxe às histórias, assim possuídos pelo perfume, possam mudar os comportamentos que têm para com a literatura, e a sua leitura e começam a devorar as letras e as palavras das histórias. Vou acolher a fragrância só para mim, na estrada, nas aldeias, nas ruas e largos, dispenso o cheiro da flor de laranjeira. Todos que o pressentirem virão certamente ao encontro das histórias, olharão para a biblioteca ambulante à sua passagem com a ambição de lerem as histórias que transporta. Nunca mais terei manhãs e tardes com ausências, todos andarão à roda das histórias, esclarecerão uns com os outros as histórias que lêem, incentivarão quem não tenha ainda desconfiado o quão de bom é ler.

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A chuva tarda em efectuar um intervalo para que os leitores possam sair das suas casas para optarem das várias histórias na biblioteca ambulante. O som permanente da água a despedaçar-se no tejadilho é ensurdecedor neste dia mundial da Terra, um pacto como tentamos fazer com o planeta seria bom neste momento com a chuva. É importante que os leitores, as pessoas da aldeia venham à biblioteca ambulante, a troca de informação oral, a leitura dos jornais e revistas, notícias novas, esclarecimentos que só os lendo se percebe e conhece os acontecimentos. A chuva é que não está de acordo, zangada, continua a bater sem se cansar.  Os leitores não querem arriscar, saio de passo apressado na direcção do café. A Beatriz admirada com a minha entrada de rompante no seu estabelecimento, diz que não terminou de ler as histórias que possui. Menciono que não há problema, saio, com passo acelerado, aguardo um pouco, não surja outro leitor, arriscando o seu bem estar na sua casa. Como não acontece nada de novo a não ser a chuva persistente, rodo a chave da ignição, acelero em direcção a um destino impreciso.

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A transparência da manhã está a terminar com a chegada do manto cinzento a cobrir a totalidade daquele que seria um dia brilhante. Na rua, duas mulheres conversam junto do mercadinho da Ilda, outra que por aqui passou, próximo da biblioteca ambulante, meteu conversa, os casos de covid, a guerra da Ucrânia apoquentavam-na, ambos estão a estragar o resto dos anos que lhe faltam. As pessoas andam atentas, vêm e ouvem notícias, perderam a desconfiança, entram na biblioteca, escolhem e levam histórias. Um longo percurso pelas estradas, nas aldeias da minha terra, longe de terminar, que vai frutificando perante a teimosia e a resistência de quem leva e quem está. A biblioteca ambulante já faz parte do quotidiano das pessoas das aldeias, preocupados, indiferentes, desprendidos, todos eles olham para a biblioteca ambulante como algo normal nas suas terras. 

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A saga do vento continua nas viagens e andanças com letras, as meninas e os meninos vêm da escola perfilados, de mãos dadas, como elos para não voarem. É sempre assim todas as vezes que a biblioteca ambulante estaciona junto da escola, não perdem uma visita com a professora que os acompanha sempre. Trazem histórias para devolver, levam outras para que lhes as leiam na escola, são como as nuvens que sobrevoam a biblioteca ambulante. Empurradas pelo vento vêem e vão, chegam gordas, cheias de água, abalam inundadas com histórias, anunciando pelas aldeias por onde voam, a boa nova. Lá do alto, as histórias desprendem-se das nuvens, esvoaçando como os pássaros, batendo as folhas em partes iguais, rasam o chão, dão piruetas como os estorninhos, tudo isto à boleia do vento, a escrever no céu. Com os braços estendidos os leitores tentam agarra-las com as mãos, sabendo que são desejadas não se intimidam perante a agitação. Pousam apertando com força as folhas umas nas outras, abrigando as palavras para serem lidas, são transitórias, não estão muito tempo no mesmo lugar, são nuvens de letras.

 

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O vento não trás nada de novo, só frio que nos faz vestir agasalhos novamente. Há uma indecisão no andamento no curso natural das coisas, andamos aqui um pouco aos papéis ouvindo comentários de uns e outros, mas não passa disso mesmo. Encontro refúgio nas histórias, lugares onde encontramos conhecimento, deparamos com realidades que nos fazem parecer muitas vezes personagens das histórias que lemos. Nelas são-nos transmitidas ocorrências,  problemas e resoluções no passado da humanidade, contemporaneidades, ao percorrermos muitas delas ficamos descansados por terem sucedido noutro tempo, continuamos a ler com prazer, sem parar. Enredos, onde personagens reais ou a fingir alimentam paixões, ódios, sofrimento e felicidade, curiosidade para não os deixarmos de seguir. Um rasto que a biblioteca ambulante consente nas suas viagens, muitos não o largam, seguindo-o encontram as histórias numa qualquer aldeia. Há quem não lhe dê importância, mas a pista está sempre ali, como se fosse uma sombra, os olhares não conseguem mudar de direcção. Quando necessitarem de abrigo as portas estão sempre abertas a todos. O vento continua com o sopro enraivecido, no campo as ervas assemelham-se a ondas do mar, o que será que nos trará ainda mais, as histórias do tempo que vivemos não são optimistas, volto a abrir as páginas de outrora. Continuo a ler com prazer e sem parar.

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O coaxar das rãs é o que mais se ouve no lugar curiosamente apelidado de Vale de Rãs nas viagens e andanças com letras de hoje. As roupas frescas sairam dos roupeiros e gavetas para voltarem a trajar as pessoas que não quiseram faltar à chamada da manhã primaveril. Sorridentes, falam em voz alta umas com as outras, olham para a biblioteca ambulante, infelizmente não mostram interesse pelas histórias. Algo que não preocupa o viajante das viagens e andanças, bem os compreendo, não querem perder a oportunidade que a manhã lhes está a oferecer, caminham apressados, investem nos trilhos que os levam a sentir a natureza, ou estão com as mãos na massa preparando os doces tradicionais da época. Os mais devotos examinam as suas próprias experiências profundamente no interior dos templos, mais logo, amanhã e depois desfilarão segurando velas, imagens santificadas nas procissões da festa anual cristã. Não é dia de levarem histórias, são dias de escreverem histórias para memórias futuras da comunidade.

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A primavera  beijou-nos de surpresa, as histórias, a biblioteca ambulante, o viajante das viagens e andanças estão cheios de sorte neste dia percorrido nas aldeias, também elas beijadas pelas águas do rio Zêzere. É pois um dia completo de beijos, juntando a estes os beijos dos leitores quando enfrentam as histórias na biblioteca ambulante. Beijos para aqui, beijos para ali, letras a beijarem-se, palavras a beijarem-se. Ler uma história, não é mais que um longo beijo de quem a escreveu a quem a lê, há beijos que ficam para a vida, há histórias que nuca mais esquecemos, tal não foi o beijo que nos deram. Beijos longos, beijos curtos, beijos doces, beijos amargos, beijos de despedidas de encontros, beijos que nos fazem chorar ou rir. Nunca desistam de beijar, jamais renunciem à leitura, um beijo para todos voçês.

12 Abr, 2022

A vontade de ler...

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Outro dia em que o sol brinca às escondidas nas viagens e andanças com letras, na aldeia do Brunheirinho um cão ladra desde que a biblioteca ambulante estacionou. A carrinha do padeiro passou perto, mais à frente uma mulher aguardava a sua chegada, recebe um saco com pão, ambos desapareceram quando voltei a olhar para o local. Com as histórias não é assim, a vontade de ler não é igual à vontade de comer pão, a biblioteca ambulante não é apressada, aguenta com tranquilidade que as pessoas se façam leitoras, a pouco e pouco acostumam-se à presença regular das histórias nas aldeias. O Neto voltou a estacionar a sua mercearia sobre rodas junto das histórias, sorte a dele, num abrir e fechar de olhos, três mulheres estavam logo ali,  com sacos nas mãos esperando para se servirem da oferta dos produtos que trouxe. Aviadas as mulheres, foi-se embora, mais adiante na rua de certeza que outras mulheres pressentiram o roncar do motor da carrinha e o esperavam às portas das suas casas. O cão continua a ladrar, as histórias são estranhas para ele, mas não desconhecidas na aldeia. É hora de partir, outro percurso com destino a outra aldeia na expectativa de que os leitores vigiam a chegada do viajante das viagens e andanças com as histórias para quem as queira levar.

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A chuva vem e vai, umas vezes afável, noutras brava, interrompe trabalhos realizados ao ar livre, impede as pessoas da aldeia de saírem das suas casas. Do interior da biblioteca ambulante, o som da água a bater no tejadilho dá a ideia de que o mundo está para desabar, possivelmente não andaremos longe disso no estado actual da humanidade, mas no momento é somente chuva torrencial. No intervalo, em que a chuva foi não sei aonde, o Gregório aproximou-se, veio informar que não entrega as histórias que levou da última vez que a biblioteca ambulante permaneceu na aldeia, falamos um pouco, da água que acabou de cair e que voltará outra vez, das pessoas que voltaram a estar contaminadas. Famílias que estão presas nas suas casas, da Páscoa que vai ser para alguns, novamente separada por ausências.  Quando as nuvens permitem, surgem clareiras, que possibilitam ao sol sorrateiramente expandir os raios, atingindo parcelas da aldeia. Tornei a fechar a porta grande da biblioteca ambulante, a chuva regressou mais uma vez, adivinho que o resto do dia vai ser assim, o importante é que no abrir e fechar da porta, nas partidas e voltas da chuva, nas pausas do tempo, os leitores venham descobrir as histórias.

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A leitora não podia sair de sua casa, no seu lugar veio um vizinho informar que a Maria suportava o covid. Através dele questionava se podia entregar as histórias, que as deixava na porta à entrada de casa. Respondi que não havia problema, mas poderia continuar com elas, melhor ainda, se queria mais alguma história para acrescentar aos dias que ficaria isolada. Olhei da biblioteca ambulante, a Maria no interior de casa, aguardando à janela pela reposta,  com uma história na mão e falando alto mostrando o livro, fui perto da janela e indaguei, quer este? A sua cabeça oscilando de cima para baixo consecutivamente, dizia que ficava com a história sugerida pelo viajante das viagens e andanças. Voltei atrás, ainda lhe trouxe um jornal e uma revista, para estar informada das notícias do concelho, dos mexericos dos famosos. O flagelo da doença teima em abandonar-nos, a aceitação é diferente dos primeiros dias em que surgiu, resignadas as pessoas só têm que ficar uns dias privadas de liberdade, e para que o tempo suspenso corra apressadamente, nada melhor do que recorrer às histórias da biblioteca ambulante.

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