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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Leria em voz alta...

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A pastora grita com as ovelhas que não lhe obedecem, impropérios ecoam pelo vale adiante, esbarrando na charneca. O gado encontrou pouco depois de ter transposto a estrada a erva tenra, estacando logo aí, em vez de continuar a correria para o pasto. Berrando alto e a bom som, manejando o cajado numa das mãos de um lado para o outro, a pastora só conseguia fazer-se ouvir pelo viajante das viagens e andanças, que no princípio se assustou com tamanha ofensa aos animais. Estes não lhe ligavam nenhuma, os cães, também eles sem se livrarem de uma reprimenda, colocados a trabalhar, reunindo assim o gado, e direccionando-o no caminho correcto, às ordens da pastora que não parava de gritar. As histórias que encontraram sempre aqui momentos de prazenteio com a natureza que as envolve, não estavam à espera desta agitação grosseira, que veio desvirtuar a beleza do lugar. Agora posso mencionar que voltou tudo à normalidade, cada ovelha no seu lugar, arrancando e mastigando a erva sem levantarem as cabeças do terreno, os cães por perto, deitados, mas sempre vigilantes em relação ao gado. A pastora calou-se ou sumiu de vez, poderia ser uma potencial leitora, ao mesmo tempo que apascentava o gado lia uma história, o tempo não seria entediante. Leria em voz alta, sossegando de vez as ovelhas, reprovando as atitudes dos homens ou a sua, foi assim que fez Santo António aos peixes no seu sermão, escrito pelo Padre António Vieira.

A necessidade do pão...

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O açoite do vento não é violento como o que ocorreu ontem, embora tenha momentos em que perde a calma puxando o ar frio novamente. Só a paragem da padeira tirou as pessoas de casa, a biblioteca ambulante, estacionada no Largo de S. João de Brito na aldeia do Tubaral, onde tudo acontece, não tinha sequer visto um gato. A buzina estridente alertou as pessoas, apressadas, tremendo de frio, chegaram junto da carrinha da padeira e das histórias. A necessidade do pão, trouxe o apetite pela leitura nalguns, não foram de mãos a abanar, levaram histórias e pão. Inevitavelmente promovendo-nos uns aos outros, os que andamos na estrada, pelas aldeias, calcorreando a charneca, negociando, a dar, o pão, o peixe, a fruta, os legumes, as massas, a carne e a roupa, as histórias. Há dias em que permanecemos juntos, numa rua, num largo, nos locais onde sabemos que é ali que eles estão, onde procuram e recebem as novidades do carteiro, uns dos outros, da comunidade.

O dia está enrolado...

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O assobio do vento não encanta, dançam as árvores, cabelos despenteados, estão os das mulheres que entram de rompante na biblioteca ambulante.  Caminham mais depressa,  empurradas pelo vento que não deixa descansar a roupa nos estendais. Rapidamente compõem os cabelos como podem, passam uma mão pela cabeça, depois a outra pressionando mais, esmagando o pelo que encobre a cabeça. As histórias vêm encostadas ao peito, apertadas pelo braço, são preciosas não podem ser levadas pelo vento, há mais leitores que as querem ler. O dia está enrolado no vento que não consegue desembaraçar as horas, os minutos e os segundos, ficou encalhado de tal maneira que não consegue ficar livre deste ar maligno. Venham mais leitores com o vento, que os traga a todos enrolados nas letras, misturando as palavras, as frases, a pontuação, a criar tempestades de histórias.

Que estivessem sempre...

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A pouco e pouco a primavera instala-se, a charneca expõe a sua paleta de cores, modificando a paisagem. As viagens e andanças com letras, têm agora outra impressão, existe mais ilustração, as histórias acontecem com novas essências, com um estímulo mais sarapintado. As flores silvestres mostram-se vaidosas à biblioteca ambulante, ladeiam as estradas estreitas que levam as histórias e as pessoas às aldeias e lugares da minha terra. Dão esperança aos que habitam por aqui, estamos num tempo de renascimento espiritual, de um novo recomeço na natureza. Nas árvores, escondidos nas ramagens os berços construidos com pequenos galhos, folhas, um pouco de tudo que tenha utilidade para reforçar o começo, estão com ovos. Atarefadas as pequenas aves não param, voando de um lado para o outro, os sons que libertam são os mais variados possíveis, assim fossem sempre os leitores das histórias da biblioteca ambulante. Que estivessem sempre atulhados pelas letras, fossem mais assíduos, que não cessassem de principiar histórias. Não fico magoado por não serem contínuos com estas, mas à semelhança das aves, andarão sobrecarregados com as raízes que se fixam na terra, com as plantas que se erguem, com as flores que brotam das árvores, também elas camas de frutos que estão por vir.

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