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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

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Metida no vale a planície verde expressa liberdade, limpa a angústia da incapacidade de fugir a um mundo cada vez mais desventuroso. Ao virar da curva a estrada desemboca num espaço sem fim, luminoso, o tecido que o cobre é recente, a cooperação entre a terra e as primeiras orvalhadas teceram uma obra prima. A vontade é ficar aqui para sempre dentro desta ilusão, no país das maravilhas, correr com os coelhos e as lebres, mandriar ao sol com as lagartas, permanecer em segredo com os ratos, beber da água da ribeira, colher os marmelos esgueirados  sem pudor na estrada. Largo o personagem, na aldeia aproxima-se a Leonor amparando as histórias nos braços, igual a quem prende uma criança de tenra idade. Ao contrário da Rainha de Copas é de uma simplicidade inigualável, a sua maneira moderada é evidenciada pelas  histórias que leva e traz.

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Rostos apreensivos, a chuva quase a chegar, uns minutos para além da hora prevista, considerei imediatamente, calma, a biblioteca ambulante não atinge a velocidade do comboio anunciado ontem com grande aparato. Longe das terras junto ao mar, no fim do mundo, de apeadeiros desocupados, há veículos transformados em bibliotecas com rodas que levam livros às pessoas. Querem melhor, o tal comboio não é nada, comparado com o respeito e apoio prestado às pessoas das aldeias do interior na promoção da leitura. Finalmente estacionada a biblioteca ambulante abriu portas, entraram de rompante, de rostos tranquilos e sorridentes, para não se molharem com os primeiros pingos, o espaço encolheu. Abraçam as histórias, por aqui a saudade anda devagar, não se esgota de um momento para o outro, a biblioteca ambulante demora-se para receber pessoas, dar dedicação, elas gostam de sentir, de permanecer, de ler. 

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As nuvens capturam a manhã como quem esfrega um olho, mais difícil é conquistar leitores, os meios desenvolvidos para o sucesso são quase sempre rituais de namoro. Paragens ardilosas, abordar as histórias tal e qual o comandante de um navio amarra a sua embarcação a outra, para alcançar o futuro leitor. Com os pés assentes onde é possível consultar, ler e levar emprestado, o provável leitor envolve-se num turbilhão de palavras. Submergindo num embaraço de fios onde se prendem letras, pelas quais  se  orienta e progride no emaranhado condutor de histórias. Puxando-o para o meio, as palavras seguidas umas atrás das outras asfixiam-no de mistério, de amores e desamores, de fantasias. Um mundo desconhecido, vinte mil léguas a perder de vista, muito para explorar, para aprender, basta seguir um fio, a história termina na orla de uma terra de todos que partilham a sucessão contínua de palavras. A vida por um fio, a condição de quem lê e não lê.

 

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A cor dourada da manhã não estimula os leitores saírem de suas casas, talvez o bafo frio do vento os retenha. Enganei-me, a carrinha da padeira a buzinar ruidosamente, ainda não tinha alcançado as primeiras casas da aldeia, retirou imediatamente alguns de casa. Outra vez traído pela vontade da presença de amantes da leitura, logo estes não se prendem às histórias para manterem a estabilidade emocional. Com os sacos presos nas mãos, não vá a aragem endiabrada levá-los, cercam a padeira esticando o braço cuja mão prende o saco agitado fortemente em diversos sentidos. O bloqueio à padeira desvanece consoante os cobiçosos por pão são despachados um a um com os sacos cheios de pão. O largo arrefeceu novamente após a partida da padeira, pela rua acima com a buzina a zangar-se outra vez, avisando os mais distraídos que os quer na rua de sacos na mão para comprarem o pão. 

 

 

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Chegaram ao último patamar da biblioteca, ou da vida, degrau a degrau, cada dia que passou foram páginas de um livro. A história não terminou ainda, na biblioteca ambulante olhares perscrutam palavras que os possam alimentar para continuarem no espaço livre que lhes resta, a serem melhores. Incansáveis, aqueles olhos decifram lombadas de uma ponta à outra, ambicionando encontrar o instrumento certo para os levar a ter confiança de algo bom lhes acontecerá. O local certo é a biblioteca, todos que atravessaram nesta rua, cheia de vizinhos à janela, em baixo e em cima, espreitando, metendo sempre conversa, sejam famosos ou forasteiros, voltam sempre. Sabem de tudo, não é por acaso que é conhecida pela rua da sabedoria, há quem no primeiro encontro faça amizade e os convoque para sua casa. Esta estima e dedicação alastra aos outros da mesma rua, ao ponto deste carinho se transmitir a quem não reside na rua, ouviram falar deles, querem experimentar.

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Olhares exploradores em busca de histórias desconhecidas, ou talvez reler novelas abandonadas nas tábuas da memória. Os anos passam, a leitura, onde vai ela, nunca mais pegaram numa brochura,  mãos desabituadas em acolher fantasias, dedos debilitados pela privação de dedilharem páginas de um oceano de palavras. O receio de enfrentarem as ondas de letras que pularam na criancice na escola que abandonaram precocemente. O vaivém das ondas continuou, nunca mais foram à praia, molhar os pés na tinta que lambe a areia, deixando à vista histórias disto e daquilo. Ouvirem o que o búzio tem para contar, imaginarem o que há onde começa o mar, numa viagem de ir e voltar. Foi assim, repentinamente, uma luz vibrante como a de um farol guiou-as. A praia não era como a outra, não havia ondulação, estavam num porto de abrigo, também havia palavras, aqui as histórias equilibravam-se umas nas outras, ainda assim uma ou outra mais lunática, usual neste lugar de inconstâncias. 

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A manhã quase a chegar ao termo do crescimento e nós metidos onde todos os dias se negoceia a escolta  do peixe, e da carne nos pratos das refeições. Com espaço ainda para café e bebidas frescas, sempre guiadas com boas conversas, foi o que viemos estimular. Uns estão sempre, cada vez que a biblioteca ambulante aqui permanece, apareceram outros para ouvir a leitura da história. Devagar, como se adicionassem pequenas moedas para pagar o pão, os ouvidos interiorizam as palavras, o curso das frases inicia o sentido, os intervalos dos goles que matam a sede prolongam-se. A história avança, o silêncio instala-se, quem entra de rompante, o hábito de ir na direcção das prateleiras onde está o acompanhamento, ou das arcas frigoríficas, onde sabia bem estar, ter com o peixe e a carne, esbarra com tamanha concentração. A voz não se cala, continua a libertar saber, emoção, aqueles rostos transmitem satisfação pelo que estão a ouvir. No final foi a vez deles de intervirem, têm conhecimento de alguém assim, a memória ainda é a mesma, vêm à tona lembranças de quando eram pequenos... Não foi muito tempo, mas o necessário para os tirar do quotidiano, pô-los a reflectir de um problema que todos nós não estaremos livres de o ter. A história lida foi " O avô tem uma borracha na cabeça ", escrita pelo Rui Zink. A biblioteca ambulante ao contrário da borracha é uma caneta incansável a escrever a sua passagem nas aldeias da minha terra, a cimentar histórias.

19 Set, 2022

A água é vida...

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O resguardo que a manhã trouxe com as nuvens favorece a temperatura delicada que se faz sentir. Assim estão os leitores na relação com a biblioteca ambulante, da presença destes à ausência, uma linha  frágil os separa das histórias. Os pingos da chuva mais grossos, asseguram a veracidade do que acabei de escrever, é complicado não ter leitores, as histórias ficam abandonadas. Não há agitação, diálogos, ficamos vazios, ignorantes no vínculo que construimos, com sede da oralidade, das palavras que aprendemos. Noutra acepção, a água libertada das nuvens está a matar a sede das nascentes, assegurando a comunicação desta pelo escoamento nos rios e fontes.  No exterior o odor a terra molhada aproxima-nos do Outono, a água é vida, a leitura ensina a saber viver.

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O estranho acontecimento do gafanhoto que gostava de ler livros do Stephen King, teria tudo para ser um título de  uma história divertida. O personagem principal, quem se lembraria de um insecto saltador, leitor assíduo de histórias de um romancista norte-americano. Na história lerá saltando de linha em linha, de uma página para a outra, transporá demasiadas páginas de uma só vez, para voltar atrás noutro salto e recomeçar. Aqueles olhos esbugalhados, conseguirão envolver as palavras e as frases de uma só vez. O escritor que adora, como reagiria ao ter conhecimento de um leitor incansável na leitura dos seus romances, ser um gafanhoto. Melhor, como escreveria Stephen King uma história assim. Bom fim de semana!  

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O apego obstinado da chuva, traz poucos leitores, em contrapartida a charneca, os solos, recompensarão a capacidade de armazenar e conduzir águas subterrâneas para os poços, minas e nascentes. A vida volta a desenvolver-se no campo, é importante repor a normalidade nas gentes que têm na terra o seu sustento. A biblioteca ambulante testemunha os lamentos da falta que tem feito a chuva, a perversidade do sol queimando frutos e legumes, a ausência da água secando raízes, sequelas terminais na subsistência das pessoas. Sem conseguirem opor-se, foi nas histórias que alguns conseguiram a tábua de salvação. A leitura afastou a preocupação, aprenderam a contemporizar esta situação menos boa, voltarão com novidades. As couves que atulharão as travessas a par do bacalhau no Natal, estão hirtas, com os pés bem assentes na terra. Alegria estampada nos rostos sulcados pelas rugas de uma vida passada debaixo do sol, ao frio, a remediar a terra.

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