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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

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Um gato afastou-se rapidamente, quando avistou a biblioteca ambulante a entrar no espaço do estacionamento habitual em Casais de Revelhos. Fiquei desapontado por o ver tão apressado a deixar o sítio onde as histórias terminam a primeira viagem da tarde. Não quero acreditar que o  gato saiu disparado para avisar os leitores da presença das histórias na aldeia. Não lhe comprei botas, nem sequer um saco, só faltava agora o gato pôr-se por aí a caçar coelhos para ir aliciar os leitores. Parece que estou a vê-lo a bater à porta das pessoas da aldeia, a oferecer os coelhos apanhados nos buracos, na floresta. Qual será a expressão nos rostos destes ao verem o gato com as botas calçadas e um saco pendurado ao ombro,  tal possibilidade só acontece nas histórias. Animais que falam, se vestem e calçam como os humanos, torna-se realidade na criatividade daqueles que arriscam a portabilidade das palavras a caminho dos lugares desconhecidos, inimagináveis para alguns mas assíduos a vaguearem na mente destes. Assim como a chegada à biblioteca  ambulante de um grupo de aves curiosas, ou será imaginação do viajante das viagens e andanças a estender-se numa planície de papel?

 

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Parece-me que a chuva arrumou a trouxa e foi de vez para outras paragens. A névoa, presente, impede a observação do rio adormecido no amanhecer, no leito, há muito que desapareceram vestígios da sua navegabilidade. Nem uma âncora de memórias, visível, há para relembrar um passado rico em navegação e comércio. As passagens frequentes da biblioteca ambulante sobre este, na ponte que une as duas margens, permite ao viajante das viagens e andanças, avistar antigas indústrias sustentadas pelo curso de água ibérico durante anos. Felizmente há documentos, e textos publicados que mostram a importância do rio no passado e nas pessoas de então. Há bibliotecas que os preservam, os levam às pessoas, ao bairro mais afastado, pelas ruas emaranhadas, ladeadas por prédios altos. Torres de vigilância a vibrarem de curiosidade, sempre que a biblioteca ambulante faz dele ancoradouro. Aqui não há lavadeiras curvadas a lavarem roupa, a branquearem-na ao sol, nas margens, poderá haver roupa suja, intrigas, mas, isso há em todo o lado. Há histórias, âncoras às quais as pessoas que espreitam pelas seteiras das torres, disparando olhares inquietos, ou circundando a biblioteca ambulante, podiam agarrar-se. Não se afundariam no lodo do rio, andariam acordadas ao encontro de novos horizontes.

Farinha sem fermento (2Kg), azeite (1l), mel (500ml), açucar amarelo (1Kg), nozes (200g), erva doce e canela. Esta e outras fórmulas de ingredientes para fazer histórias doces trazidas do passado através da oralidade, escritas em papel, à pressa, para não se perder pitada. Tesouros açucarados a espreitarem a luz do dia sempre que há celebrações, é o caso das broas com a aproximação do dia de Todos os Santos. As substâncias são amassadas energicamente por mãos experientes, misturadas com palavras e histórias de outros tempos.  A infância, a família, os queixumes, são as lembranças e lamentações que se escapam entre os dedos cheios de massa. Todas as vezes que encaram a maleabilidade desta escrita expõem  sentimentos, escrevem sobre tradições, da sua aldeia, das suas pessoas. O tempo aqui não é demorado, num curto espaço, redigem-se, amontoam-se páginas de vida. O odor da erva doce invadindo ambos os espaços, de fazer inveja a um perfumista, aviva impressões sensoriais. Tal e qual, quando ficamos em alerta, ao que irá decorrer no capítulo seguinte de uma história. Não é fantasia, é real o que as histórias têm conseguido, a habituação à leitura, e a cumplicidade. Trouxe broas, pequenas histórias feitas com as mãos, a gratidão ainda é um reconhecimento na simplicidade das pessoas das aldeias da minha terra. 

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Não há armistício, a chuva cai ininterruptamente em Martinchel, as histórias nas estantes estão quietas e mudas. Como eu, não arranjam palavras para tanta água, e leitores que as leiam. A estrada transformou-se num longo ribeiro, a biblioteca ambulante, numa jangada de histórias. Neste pequeno curso de palavras não temo um naufrágio nas páginas do oceano, no qual irão desaguar as histórias desta armação feita de criatividade. Deslizo numa embarcação construída por pedaços de improvisação,  de alegrias, de tristezas, de paixões, de morte, das guerras, do passado, do presente, e do futuro. Quem quiser salvar-se é bem vindo a bordo, não se afogarão na actualidade em que vivemos, a embarcação é resistente, não possui limites, é um junco de consistência milenar. 

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A fina neblina permanece estável em toda a planície, após a ponte das Areias o extenso vale que acolhe a aldeia da Bemposta, parece saído de uma história. Os traços do sol espalham-se na planície, nos panos verdes, babetes gigantes a rodearem as oliveiras, impedindo o fruto  perder-se no meio das ervas. Há mais gente com paus a baterem na ramagem das oliveiras, agachados no chão, separando as pequenas letras pretas com as quais se escreve a palavra azeitona das folhas, há sacos cheios desta, aguardando a viagem para o lagar, não me lembro a última vez que os vi assim cheios de entusiasmo, neste trabalho. Talvez seja o valor do azeite, apelidado de ouro verde, oito euros por litro, ou mais, corresponda a uma expectativa de confiança aos orçamentos familiares. A biblioteca ambulante está parada na aldeia do Brunheirinho, dividida por terrenos cultiváveis, de pequenas pastagens, um Éden. Os leitores por aqui são escassos, rareiam, uma vez ou outra, alguém perde a cabeça atrevendo-se a levar uma história. Aprenderam cedo a lerem a terra, não querem outra coisa, ousam falarem com os animais que os acompanham, ou sustentam, ajudando na economia caseira, na alimentação, parcerias impossíveis na cidade. A tarde puxou a nebulosidade para o espaço mais amplo na estrada do Cabrito, há agitação rodoviária, pessoas abeirando-se dos cafés no largo, para bebericarem apressadamente cafés e fumarem cigarros. Com o horizonte de histórias estampado nos rostos, voltam as costas, não arriscam empreenderam viagens nas capas abertas. Montados, nas coberturas das páginas escritas pelo tempo, ou à boleia das nuvens, navegadoras, com acesso rápido aos recursos disponibilizados pelos automatismos. A chuva, amedrontada, começou a cair na sinuosidade das ruas do Rossio ao Sul do Tejo, o casario decadente não tem estruturas capazes de a tolerar, invade os espaços esventrados pala falta de manutenção, de pessoas, só as paredes com histórias aguentam a passagem da biblioteca ambulante.

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A estrada continua a levar a biblioteca ambulante às aldeias da minha terra, o dia resignou-se aos momentos da chuva.  À vontade de molhar tudo, puxando as pessoas para locais onde não se deixam ver. Ousam andarem na rua debaixo dos guarda-chuva, ou correndo para minimizarem a molhadela, não arriscam entrarem no espaço das histórias. Os automóveis passam pela biblioteca ambulante estacionada, a velocidade excessiva para uma rua na aldeia das Bicas, sacode as páginas das histórias, abrindo estas de par em par. Soltam-se as paixões, os amores impossíveis, os períodos de tempo, marcados pelas acções do homem, a imaginação de quem escreve. Transpondo a porta grande da biblioteca ambulante, acontecem situações que chamam a atenção ao bibliotecário. Histórias seleccionadas pelo tamanho das letras, ou pelas capas apelativas, a espessura da lombada. Pela libertinagem das palavras, do ardor, de pouca densidade, pela narração aos ouvidos de quem não sabe ler. Há quem as leve e não devolva (ainda), desconfio de quem as procure e não as leia. Depois são as confidências de uns e outros, algumas podiam ser crónicas de maldizer, relatos ao redor das maneiras de viverem, ou sobreviverem. Gostam de ler, de falarem da sua terra, posso mencionar que são felizes. Na rua o tempo é um capítulo de uma história pardacenta, só de galochas calçadas conseguimos ultrapassa-lo.

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A chuva voltou a desabar, os tambores do céu ouvem-se a ribombar ao longe, a festa celestial desfaz-se em lágrimas. Alegria no céu e na terra, nas planícies e na charneca, pelas aldeias da minha terra, as ervas a despontarem, os ribeiros a engordarem, são as letras a preencherem uma folha em branco, há muito desabituada da tinta a escorrer pela ponta do aparo. Ambas alimentarão os animais, os leitores, satisfação nas viagens e andanças. O sol volta a brilhar, no alpendre, no acesso à entrada do Café Areias há quem aproveite o calor, sentado  com as pernas expostas aos raios solares. A temperatura desceu, a tarde agradável não dura sempre, daqui a duas horas o dia ficará desanimado. Com a noite, os primeiros pedaços de lenha serão lançados ao fogo, com eles abrem-se páginas de histórias, ao som do estalido das chamas a dançarem, avançarão aventuras. Façanhas que enfrentarão assombramentos, contas, impostos disto e daquilo, valores a pagar pela alimentação..., leituras que ninguém quer ler. Recatados em casa, ao ritmo da chuva a cair, das chamas na lareira a cantarem, esquecem o quotidiano, são heróis nas histórias que lêem.

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O vento e a chuva foram hoje companheiros nas viagens e andanças, parceiros violentos, o primeiro transportando palavras esquecidas, recuou ao passado para as retirar de gavetas embutidas, nos móveis gastos pela poeira do tempo. Fiquei curioso por saber que palavras seriam essas, sumiram-se num abrir e fechar de olhos, tal não era a  sua velocidade. Bem tentou puxar as palavras das histórias da biblioteca ambulante, talvez para as levar ao futuro, encontrarem leitores que hão de vir. Não quis que as páginas das histórias  transportadas na biblioteca ambulante ficassem em branco, o que diriam os meus leitores, deixaram o conforto das suas casas, ainda por cima num dia de temporal. Fiquei surpreendido quando bateram na porta grande da biblioteca ambulante e a espreitarem ao mesmo tempo no vidro lateral, leitores a quererem entrar com histórias para devolverem. Rapidamente se fechou a porta para a chuva não molhar-nos, e o vento não desnudar as milhares de páginas que estavam ali. Ficamos a falar de histórias, o rumo da conversa tomou a direcção a histórias do passado, a Miguel Torga. Não terá sido o vento o responsável, interroguei-me, sem mencionar aos outros a minha falta de certeza referida atrás. A fúria e o ruído da chuva ao mesmo tempo a bater na carroçaria da biblioteca ambulante, obrigava-nos a falarmos alto uns com os outros. Quem passasse por ali e nos ouvisse, levaria no pensamento a alegria evidente gerada ao redor dos livros.  Seria bom da próxima vez, fosse ele a entrar na biblioteca ambulante movido pela vontade de querer saber que magia é esta, das histórias.

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O panorama matinal antevê outro dia de chuva, montanhas de nuvens cercam o céu azul sob as aldeias da minha terra. Na margem sul do rio, um tractor com a sua alfaia a reboque reescreve a terra, narra a história do homem dependente do rio, que a submergiu vezes sem conta. A rebeldia da terra negra, arrasta a máquina agrícola de um lado para o outro, até o caderno estar com as linhas feitas. A escrita vem depois, antigamente atiravam-se com a mão à terra as letras, agora é o mesmo tractor com outra alfaia que as distribui detalhadamente. Depois, noutra estação, mais adiante, conseguimos decifrar o que os escrevedores na terra expuseram, searas ..., histórias que só a terra sabe contar.  Este período não traz muitos leitores à biblioteca ambulante, a colheita da azeitona afasta-os das histórias, a Maria é um deles, veio devolver uma história, não entrou para apanhar outra, como anda a fazer nas oliveiras com as azeitonas. No campo são as árvores, os frutos destas, os legumes, as hortaliças e os animais que comandam as pessoas.


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Entrei no café, a penumbra envolvia o espaço, o preço da luz não está para brincadeiras, ainda por cima, só para iluminar as moscas. Estaquei na entrada, afinal, desta vez estavam uns cinco, sentados, em pé, silenciados pela chuva a cair na rua, olhavam para as garrafas de cerveja vazias. Agitei o momento, colocando jornais numa das mesas, sirvam-se, bebam as letras até ficarem ébrios, pensei eu, enquanto me dirigia ao balcão para pedir um café cheio. Percebi que os olhares me perseguiam, até parece que ouviram as minhas palavras interiores, do outro lado do balcão, a leitora da biblioteca ambulante, imediatamente prendeu o punho do filtro na máquina, pronta para tirar o café quente. A chuva continua a cair fustigada pelo vento forte, corri na direcção das histórias, sentei-me a recompôr-me do jato de água que apanhei, por pouco encharcava-me totalmente. Aguardei pela leitora, deixou o estabelecimento entregue aos fregueses, as vantagens de se conhecerem uns aos outros na aldeia. Trouxe uma história para devolver, ficaram duas por ler em casa, segundo ela o tempo escasseia. Como pode o tempo rarear na aldeia, quando  observo muitos deles a desafiarem o infinito, levou outra há muito pretendida pela sua filha, mas disponível há pouco tempo, depois de ultrapassar muito o período estabelecido nas mãos de outra leitora. A tarde é um espelho da manhã, exceptuando o local, agora numa parte da cidade, no interior da biblioteca ambulante, aguardando por outros leitores, a ouvir os pingos grossos a baterem no tejadilho, avisando-me que não haverá novidades no resto do dia.

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