Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

IMG_20240327_163239.jpg

A chuva abundante enche a manhã de água, a depressão Nelson, também nome do herói na batalha de Trafalgar, na qual foi mortalmente atingido por um atirador francês, tem o comportamento de uma armada vitoriosa. Conquista tudo à sua frente, não permite o alívio necessário para voltarmos a uma situação de normalidade. Os leitores deslocarem-se ao encontro da biblioteca ambulante no largo S. João de Brito, na aldeia do Tubaral, as mulheres aguardarem a chegada do padeiro, os operários da construção civil, continuarem os trabalhos na recuperação da casa no largo. A intensidade da pluviosidade aumenta acompanhando a evolução da manhã. Não se vê vivalma, não há atrevimento para saírem de casa, no interior da biblioteca ambulante, sou um privilegiado, sem me molhar, observo a depressão Nelson a fustigar a aldeia, um combate desigual, a aldeia não se defende, as pessoas protegem-se em casa, abrigadas do ataque sem misericórdia deste esgotamento meteorológico nas nuvens. De repente as ribeiras ganham arcaboiço, ocasionam correntes mais velozes nos canais escavados pelas águas nas planícies, pelas sinuosidades dos escoamentos. As linhas de tinta a fluir para as folhas brancas, a sobreviverem, serem legíveis para sempre, nos cadernos, e nos livros. O início da tarde trouxe um apaziguamento na depressão, embora, lá em cima, o céu continua pardacento e ameaçador. Na rua mais movimentada da aldeia do Monte Galego, as copas das oliveiras, oscilam num movimento alternado. Os pingos da chuva voltam a ocupar o vidro grande da biblioteca ambulante. Não é bom sinal, de manhã não houve leitores, o mesmo irá acontecer no segundo período do dia se continuar a chover. Em Alvega, o coreto situado no centro do largo, é um livro em branco, vazio, de pautas esvoaçando na aragem de um final de tarde. De música vibrante tocada por elementos de uma banda, de pessoas ao redor deste, a ouvirem as palavras a ocuparem o pequeno lugar, e a bailarem impelidas pelo som das melodias.

 

IMG_20240326_161318.jpg

A manhã está fria, o sol vai e vem, num jogo de escondidas com as nuvens. Nesta brincadeira de crianças, a chuva é uma concorrente cada vez mais forte e tem possibilidade de ganhar. A água é gelada ao atingir o meu rosto e as mãos, como é possível, uns dias atrás usarmos roupa de verão, e hoje trajarmos agasalhados.  Está tudo virado ao avesso, ou andamos a ler a história ao contrário. Neste tempo intranquilo, não há melhor do que visitar as aldeias da minha terra, não se passa nada, as mesmas pessoas, nos mesmos lugares, a realizarem as mesmas tarefas. O pastor a guardar as ovelhas na pastagem, a mulher no café a vender os primeiros copos de vinho, o café, ao viajante das viagens e andanças. A Mariana a devolver as histórias, a levar as novidades. É sempre assim nesta e nas outras aldeias, o tempo andando devagar, as palavras continuam apertadas, aceitam pacientemente a falta de diversidade. A biblioteca ambulante também é uma rajada de vento a trazer, a deixar algo diferente. Uma história, um diálogo, um rosto conhecido que vem e vai. Em Alferrarede, o sol, no jogo das escondidas foi apanhado, agora são as nuvens, a chuva a alcançar a vantagem. Três crianças balouçam, como as jovens flores presas nos ramos das árvores ao sabor do vento, no parque infantil, enfrentam a intempérie, deixando a água fria ensopar até aos ossos frágeis. Ao contrário do habitual, fechadas em casa, de olhos postos nos monitores dos computadores, estas mantêm a liberdade no exterior, para brincarem apesar do mau tempo. As viagens e andanças estão finalmente no último lugar do dia. Um bairro multicultural, nem por isso a biblioteca ambulante tem mais leitores, com visibilidade, espera pelo dia em que os continentes se unam, leiam as mesmas palavras, aceitando as diferenças.

IMG_20240321_215452_808.jpg

IMG_20240321_114850.jpg

IMG_20240325_152145.jpg

IMG_20240325_152314.jpg

IMG_20240325_152530.jpg

O vento intromete-se na rua da aldeia, empurra vigorosamente quem se atreve a caminhar por ela adiante, ao encontro de um destino igual aos dos outros dias. A mim, levou-me, juntamente com a Sílvia, a Coimbra, onde a biblioteca ambulante compareceu na passada quinta feira, no 1º Encontro de Leitura em Trânsito. Em Coimbra, a subir, vistosa, captando olhares curiosos à sua passagem, como Leonor, nos versos do poeta, formosa, e não segura, nos meandros, nas ruas estreitas, um afluente, a desembocar num rio a correr num patamar mais acima. Na Alta coimbrã lá estavam as outras bibliotecas ambulantes, unidas numa fraternidade sem igual. O centro histórico da Universidade de Coimbra foi o lugar escolhido para permanecermos. A Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), foi o local das partilhas, da troca de experiências. De ouvirmos falar sobre António Quadros, da sua vida, do seu pensamento, dos livros que escreveu, do seu trabalho com a comunidade, nas bibliotecas ambulantes, cujo serviço dirigiu na Fundação Calouste Gulbenkian, após a morte de Branquinho da Fonseca. No exterior, próximas da secular Biblioteca Joanina, as bibliotecas ambulantes de portas abertas, recebiam visitas dos estudantes, desafiavam futuros bibliotecários, intrigavam olhares curiosos dos inúmeros turistas, fotografando-as até à exaustão. Nunca a difusão da leitura, das bibliotecas em geral, o trabalho dos viajantes das viagens e andanças, a importância de levarem livros às pessoas nos seus territórios. Tentando atenuarem a solidão, o isolamento nas aldeias, esteve em tão elevada evidência. O trabalho dos curadores do evento, sempre atentos ao conforto daqueles que conduziram os vários acervos bibliográficos. Obrigado aos três mosqueteiros, os personagens actuais nesta história, Alexandre Dumas ficaria orgulhoso. Abrindo, uma a uma, as páginas deste novo livro, as palavras trazem esperança e força, leio, como desembainham muito bem as respectivas armas, a defenderem o conceito original da biblioteca ambulante. No campo, as flores são ondas de cores impelidas pelo vento, o mesmo que despenteia as pessoas, que traz a confiança, as novas oportunidades às aldeias.

IMG_20240316_200054_235.jpg

O perfume das recentes flores invade o lugar onde a biblioteca ambulante aguarda os leitores, em Casais de Revelhos. O chilrear dos pássaros absorve todos os outros sons, os ecossistemas que cercam e coabitam na aldeia estão numa grande exaltação. Capaz de esquecer a pouca distância do casario, a vida animal continua alheia aos aldeões, a manterem diariamente as hortas em condições. Para que os legumes, as hortaliças cresçam sem ervas invasoras a importunar. Ao mesmo tempo, rasga-se a terra, planta-se e semeia-se, as árvores, transformistas, ficam bonitas, mais delicadas e femininas. São autênticas drag, escondendo a sua masculinidade debaixo dos inúmeros saiotes verdes, exageram na maquilhagem, com o floreado sumptuoso. O palco é a charneca, os campos encaixados nos vales, a arte perfomática inicia-se com o vento, a dançarem de um lado para o outro, cheias de vigor, de liberdade. Narram histórias, badaladas, mexericam a vida social nas aldeias, na charneca. Imitam sons, dos pássaros, os murmúrios da solidão, o silêncio das pessoas. Na literatura, muitas foram as palavras relacionadas com personagens travestidos, escritas por vários autores reconhecidos. Virgínia Woolf; Charles Dikens; Alexandre Dumas; entre outros. Na biblioteca ambulante o transformismo chega com os leitores, a imaginarem, a conferirem o aspecto dos personagens, actuando como eles nas histórias que lêem.

IMG_20240312_101229.jpg

FB_IMG_1710852501582.jpg

Subitamente, dou comigo a olhar as histórias mais recentes na biblioteca ambulante, destacadas, numa posição vertical, debruçadas nas estantes para o pátio das brincadeiras. Como elas, fixo o meu olhar para o mesmo sítio, a sujidade acumulada, vestígios de terra, minúsculos grãos de areias, espalhados no recinto, despertam-me, tenho que deixar a biblioteca ambulante no final do dia, nas instalações onde se limpam e lavam os veículos. O colega responsável pelo serviço irá acarinhar a carroçaria, colocar shampoo, e massagear a estrutura, pesarosa pelas intermináveis viagens e andanças.  Tem de ficar impecável, dentro de dois dias vai estar presente em Coimbra no 1º Encontro Leitura em Trânsito: António Quadros, da Academia à Comunidade, na FLUC. Já pensaram, na possibilidade dos resíduos dispersos pelo chão, trazidos nas botas, nos sapatos, das pessoas, dos leitores. Segredos, colados nas solas, escondidos dos olhares curiosos. Uma investigação minuciosa realizada por indivíduos trajando aqueles fatos brancos, com máscaras colocadas no rosto, e luvas nas mãos. Manuseando instrumentos, explorando os quatro cantos das histórias. Poderia descobrir a origem dos pequenos grãos, da camada mais superficial da crosta terrestre, arrastados pelo calçado dos leitores, dos curiosos, dos desertores da solidão, nem que seja por breves momentos. Descobrir quais as aldeias de onde são oriundos os leitores. As que estão mais afastadas da cidade, os lugares situados no interior do limite urbano. As impressões digitais de cada um, os comportamentos. O odor pairante, o sabor levemente salgado, de quem utiliza a biblioteca ambulante, praticantes de agricultura de subsistência, reformados, da gente que perdeu a esperança. Do esforço do viajante das viagens e andanças, diariamente a colocar em evidência, a visibilidade do serviço das histórias, às pessoas das aldeias da minha terra. A dificuldade de as puxar para cavarem nas páginas das histórias, do gosto de as ouvir, a falarem, desmanchando a timidez por aí abaixo. Mostrarem os sentimentos, seduzirem, relatando histórias sobre as aldeias, ou mexericos de uns e outros. Da responsabilidade de levar e trazer todos os dias a biblioteca ambulante a bom porto. De tarde a melodia do campo foi interrompida com a visita inesperada, na aldeia da Lampreia, um aldeão. Aqui raramente alguém visita a biblioteca ambulante, fiquei surpreendido com a presença do José. Reside na aldeia há pouco tempo, gosta do campo, disse, que aguardava o transporte público ocasional, para se dirigir à cidade, ao supermercado. Neste intervalo do seu tempo, descreveu a recente experiência de ver raposas a levarem o galo e umas fracas da capoeira, ou dos javalis serem visitas constantes no quintal da casa. Gostei de o conhecer, no futuro, quem sabe, não será leitor na biblioteca ambulante.

IMG_20240318_145242.jpg

Há uns dias atrás em conversa com um leitor a propósito dos tempos que testemunhamos actualmente, sobressaiu o acontecimento do 25 de Abril de 1974. Perguntei, o que fazia nesse dia, que mudou o paradigma político e social até então. Respondeu que estava a trabalhar, na fundição do Rossio ao Sul do Tejo. Soube da notícia, da queda do governo de Marcelo Caetano, nesse dia, até de madrugada não tirou os ouvidos da telefonia. Na fábrica o dia de trabalho decorreu normalmente. O melhor estava para vir ao mencionar, uns dias antes do golpe de estado, os operários tinham realizado uma greve ao trabalho, foram doze horas, a reclamarem um dinheiro que lhes deviam, que pagaram depois, e melhores vencimentos. O bastante para surgirem imediatamente polícias da PIDE, a desordem teve início na metalomecânica, um torneiro e um ferrador, foram os cabecilhas, incluiu-se também como um dos que liderou o protesto. A polícia política, segundo ele, andou por lá a investigar, a tentar saber quem foram os mentores da iniciativa. Um dos patrões desconfiou que o leitor, fosse um dos activistas, ao que o outro, contrapôs com veemência, qualquer impossibilidade de ele ser um dos mentores de tal atrevimento. Uns dias após estes acontecimentos deixou a fundição para ir tentar melhor salário na Líbia. Mais tarde regressou outra vez à mesma fundição, o patrão que suspeitou de uma eventual acção da sua parte no tal dia da greve, perguntou-lhe, se vinha com as mesmas ideias, ou se trazia outras. Afinal, segundo ele, esse patrão, nunca descartou a hipótese de ter sido ele, um dos agitadores, naquele dia na fundição. O som da água, a sair da bica e a precipitar-se no tanque, em Martinchel, convence-me que tudo está bem. A estabilidade climatérica, com as temperaturas a manifestarem-se nos períodos correctos, a democracia a prevalecer em todos os países dos cinco continentes. Sem conflitos, todos a favor de um mundo melhor. O aliciamento depressa termina, o som, do motor da biblioteca ambulante, a preparar-se para se pôr em marcha para outra aldeia, fechou a água que sai da bica. A tarde está escondida numa fina cortina, sem tecido suficiente para impedir os raios solares atingirem o viajante das viagens em andanças. A temperatura elevada, retira das gavetas e roupeiros, roupa adequada a suportar os 30º ao sol. A primavera, não tem obstáculos para a deter no seu processo de imigração, ainda bem, traz vida nova. Seria bom que o recomeço trouxesse leitores novos, refugiados a deixarem a solidão e o isolamento, atravessando o mar do conhecimento na barca das histórias.

IMG_20240315_111946.jpg

IMG_20240315_105502.jpg

Os pequenos leitores olham as páginas do futuro, o largo, onde o inverno se despede chorando sem parar. Sonham com os ovos da Páscoa, com o Dia do Pai. Descrevem a prenda feita na escola, arrumadas numa sala, aguardando o dia para surpreenderem o pai. A brincadeira ocupava-os a manhã toda, a chegada da biblioteca ambulante retirou-lhes o divertimento. Trouxe-lhes as histórias, desafiou o grupo a ouvirem a Sílvia a ler «Às vezes um abraço não chega». O ruído não gostou muito que o silêncio se impusesse na sala, bastou a Sílvia começar a proferir as primeiras palavras para não se lembrarem mais dos rumores das brincadeiras. Atentos ao início da história, à ilustração, aos personagens ganhando vida pela voz da Sílvia. No final dos abraços, foram os beijos da Sílvia a espevitarem as memórias ainda breves, a puxarem pelas respostas dos pequenos leitores. Uns gostavam de abraços, outros nem por isso, o importante é o tamanho, enorme, abraço à biblioteca ambulante do grupo dos pequenos leitores, sempre que está presente na escola. A chuva a cair miudinha está a ensopar a tarde, os leitores vespertinos não arriscarão sair de casa, mas, há sempre os que acreditam nas histórias. Aqueles que não se desviam das linhas onde as palavras seguem atrás umas das outras até ao último ponto final. O despenhadeiro é bastante elevado, o pânico surge do abismo, é um elevador onde não querem entrar. Não pressionam o botão para abrirem a porta, deixam-no andar, para baixo e para cima, levando e trazendo o tempo desocupado. A mobilidade da biblioteca, é a outra ponte onde encontram a acessibilidade para continuarem a sonhar, a acreditarem nas possibilidades que irão encontrar nos caminhos das histórias. Assim como os pequenos leitores, continuam a olharem as páginas do futuro.

IMG_20240311_192129_263.jpg

A súbita, subida da temperatura, esmoreceu o viajante das viagens e andanças. Na biblioteca ambulante, sonha com a praia, a ler numa espreguiçadeira, a refrescar-se nas águas do rio. As portas abertas permitem a circulação do ar fresco, a agilidade dos raios solares penetrarem para beijarem as histórias. Trazerem esperança há presença de mais leitores, de curiosos a espreitarem as novidades nas primeiras páginas dos jornais diários. A propósito das próximas celebrações dos 50 anos do 25 de Abril, questionei uma leitora, onde estava nesse dia há cinquenta anos atrás. Respondeu que vivia em Alverca, em casa de uma tia. Tinha 16 anos e trabalhava num supermercado. Soube pela rádio do acontecimento. Umas horas depois os géneros alimentícios do estabelecimento esgotaram-se. As pessoas com medo, recorreram deste modo, suspeitando de algo terrível, lhes poderia acontecer. Afinal tudo terminou da melhor maneira, uns dias após a queda do regime fascista, engrossou um enorme conjunto de manifestantes pela liberdade, a percorrerem a distância entre Alverca e Vila Franca de Xira. Não se esquece de um marinheiro, agarrou-lhe o braço levantado, e disse-lhe em voz alta, para se manter o que tinham alcançado tinham de continuar a trabalhar muito. As bibliotecas ambulantes, já transitavam há cinquenta anos passados, nas poucas estradas alcatroadas com acessos às aldeias, as acessibilidades não davam facilidades. Muitos caminhos eram em terra, até as ruas das aldeias, não davam confiança às mecânicas das carrinhas a transportarem histórias. A leitura nas bibliotecas ambulantes de então, foi importante para os homens do presente, não se podia ler tudo o que se queria. Quantas leituras foram realizadas, sonegadas, na escuridão das noites, à luz de um candeeiro amedrontado. O tempo avançou, as bibliotecas ambulantes acompanharam-no, com menos intensidade nas populações. Perderam o impacto, outros suportes na informação substituíram os livros,  as portas da instituição que patrocinava as bibliotecas ambulantes nas viagens e andanças com letras, fecharam-se na altura. Muitos ficaram presos nas aldeias, outros fugiram. Apagaram-se os sonhos, as aldeias perderam densidade populacional, as viagens nas páginas das histórias ficaram pelo caminho, e nas estradas que levavam às aldeias. Felizmente houve municípios a manterem as bibliotecas ambulantes, e as histórias nas suas aldeias. Cinquenta anos depois a liberdade na leitura não tem fronteiras, as portas estão abertas a todas as pessoas, e aos credos. São espaços estreitos, mas enormes a darem possibilidades a quem os preenche. Vivam as bibliotecas, vivam as bibliotecas ambulantes.

IMG_20240312_114703_248.jpg

A neblina dissipou-se, deu o lugar ao sol no pano azul preparado para a pintura do dia. Em Alferrarede Velha, as bancadas dos vendedores ambulantes estão a abarrotar de roupa para vender. A roupa anda de mão em mão, colocam-na defronte das ancas, tiram a medida a olho, não serve, atiram-na para cima do que está exposto. Estão o tempo todo nisto, até acertarem na saia, nas calças, ou camisola, para estrearem ou oferecerem aos afilhados na Páscoa. Os mesmos gestos repetem-se na biblioteca ambulante, com as histórias, retiram das estantes, ensaiam leituras, experimentam o tamanho das letras, são seduzidos pela cor das brochuras, ou do volume da história. Tudo isto tem importância para os leitores, nas aldeias. Há os que só lêem o jornal oferecido, ao dispor, enquanto a biblioteca ambulante permanece na aldeia. Durante a sua presença nas aldeias, estes leitores gostam de ser levados na boleia dos jornais da biblioteca ambulante. Um início para se aventurarem a examinarem as histórias, na melhor das hipóteses, levar para suas casas. É o objectivo do bibliotecário, ajudar a estabelecer cada vez mais leitores no território das aldeias da minha terra. O vale cheira a primavera, é uma história aberta de par em par, a pedir o comparecimento dos leitores a lerem a paisagem, a ouvirem o canto das aves, aprendendo a estimarem o património natural. A cor azul do pano é um vestígio do início do dia, das primeiras pinceladas, o painel ficou tingido de pessoas, de leitores, aldeias e panoramas.

IMG_20240311_151703.jpg

Os espaços na rua, possíveis para o estacionamento da biblioteca ambulante na aldeia da Amoreira, estavam ocupados. Quando assim é, a solução é seguir em frente, na direcção de um espaço amplo, rodeado por amoreiras. No verão geram uma sombra agradável, onde as histórias se acalmam da inclemência do sol abrasador. Hoje não há sol, não está frio, a temperatura delicada resiste, aos comentários, vários, dos leitores, das pessoas, relacionados com as eleições do dia de ontem. O território também foi conquistado pela «nouvelle vague» da política portuguesa, no entanto não conseguiu destronar o vencedor do costume. Na origem, a semelhança com o canhão da Nazaré, onde os surfistas deslizam nas enormes ondas, batendo consequentemente na areia, desmanchando os castelos e as armas defensivas, com os quais conquistamos a independência e a liberdade. Com a crosta partidária a triplicar derivado ao sismo social. Na aldeia de Rio de Moinhos a tarde decorre devagar, próxima do adro da igreja, a biblioteca ambulante vê passar os automóveis, provocando olhares de curiosidade a quem os conduz ou é passageiro. É um outdoor, a publicitar a leitura, as bibliotecas, nem tudo está perdido, quando não há leitores. As imagens estampadas na carroçaria, chamam, obrigam os rostos a virarem-se na sua direcção, a estimularem as mentes que sofrem de paralisia digital. Recapitular leituras antigas naquele instante em que vêm as histórias de perto. Fazer voltar à memória que sabem ler, instigando-os, porque não o fazem?

Pág. 1/2