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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

30.07.25

As histórias do momento são ...


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O dia rompeu com o sol de uma cor laranja forte, dando pistas nada favoráveis para as próximas horas. Aliás a temperatura quando a amanhã abria os olhos, estava aprazível, mais, do que as madrugadas anteriores. Nas aldeias onde a biblioteca ambulante assoma, as pessoas queixam-se da elevada inquietação do sol, da sua falta de discernimento por aqueles que o estimam. No inverno, quando está presente, libertando calor aos aldeões, nos dias em que a geada aprisiona tudo.  Sentados no limiar da porta das suas casas, apanhando o brilho no rosto, aquecendo ao mesmo tempo o corpo minguado pela passagem dos anos. O que se desconfiava nos sinais da aurora, confirmou-se ao ao início da tarde, o calor excessivo não trás nada de bom, não há leitores, só os mais corajosos se deslocam a pé na rua. Os automóveis transitam com os vidros fechados, dando destaque ao ar artificial, a refrescar os ocupantes. Na biblioteca ambulante as portas abertas deixam entrar o pouco ar fresco que consegue atravessar o interior desta. As histórias tombadas umas sobre as outras, mostram o desânimo pela ausência de leitores. As praias, o mar e o rio, as piscinas, são neste momento os lugares mais apetecíveis para se estar, com livros, ou sem eles. Nas aldeias, os tanques, reservatórios de água para regar as hortas, são óptimas escolhas, para meter debaixo de água os corpos ressequidos, pelo calor, deprimidos pelo excesso de silêncio. A água fria, motiva, põe em funcionamento, outra vez os organismos humanos, cansados de demasiada resiliência. As histórias do momento são estas, debaixo do sol ardente, perscrutando o horizonte, esperançoso, no avistamento de um leitor, de um super-homem, de uma super-mulher. Surgidos de um qualquer lugar em direcção à biblioteca ambulante.

29.07.25

Guardiões dos lugares, ...


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Na aldeia do Souto ultimam-se os preparativos no espaço onde se realizará a Festa do Futuro, no próximo fim-de-semana. Um evento onde a biblioteca ambulante irá estar presente, colocando ao dispor dos forasteiros, das pessoas da aldeia, histórias. Há gente nova na aldeia, são aqueles que estão presentes no verão, chegam à boleia das férias. Procuram novidades, saber como estão os que nunca se afastam da povoação. Guardiões dos lugares, das memórias, da intimidade de cada um. Sombras, dos ruídos, sombras, dos silêncios, sombras, das histórias da aldeia, capazes de reagirem às contrariedades, de lidarem com condições adversas. Nestes dias do estio, de cabeça erguida na direcção do horizonte, implorando silenciosamente, para não avistarem colunas de fumo no interior dos limites da sua aldeia. Desviam os olhares excepcionalmente, na direcção da biblioteca ambulante, na sua passagem, do lugar onde está estacionada. Continua ainda a causar surpresa, curiosidade, nas aldeias onde permanece efémera. Sobretudo naqueles que estão presentes nas férias. Aproximam-se surpreendidos por existir uma biblioteca ambulante na aldeia, trazendo sempre a memória de frequentarem a outra, no tempo em que foram crianças. Apresentam o serviço  realizado, aos netos, a observarem pela primeira um veículo, com o seu âmago forrado de histórias. Acessíveis a qualquer um, gratuitamente, com a devida responsabilidade de as estimar e devolver, no regresso seguinte. Lá em baixo o rio chama por nós, para mergulharmos nas águas, atingirmos uma ligação forte no seio deste. Idêntica à união entre leitores e as histórias, um laço de amizade, um vínculo para a vida.

11.07.25

Escrever uma história não é ...


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A chuva colheu de surpresa as aldeias da minha terra, a biblioteca ambulante. As histórias pulam de alegria, o calor sumiu-se, as palavras lêem-se melhor, não ficam fatigantes aos olhos dos leitores. A leitura torna-se agradável e dilui-se facilmente num momento prologando num dia de férias. A chuva bate levemente na biblioteca ambulante para não assustar as histórias, quer entrar, não quer fazer desaparcer as letras. A rua não tem pessoas, transitam os automóveis, transportando-as de um lado para o outro. O céu continua cinzento, as gotas miúdas e espaçadas da chuva abordam a tarde, como um navio o faz, encostando-se ao cais ligeiramente. Na aldeia da Concavada, a esplanada do Café do Largo, está com as mesas ocupadas, as vozes são audíveis, o tilintar do vidro das garrafas a serem removidas das mesas, representa a boa disposição, a fraternização numa tarde com temperatura amena. Longe dos dias muito quentes, o largo tem pessoas, caminhando, conversando, umas com as outras, sem reclamações sobre a meteorologia. O verão podia prosseguir nesta ambiência nas aldeias da minha terra, com mais leitores a frequentar a biblioteca ambulante. Há gente nas aldeias, não há, suficientes, para manter a sobrevivência destes lugares afastados da cidade. É complicado melhorar as habitações inseguras, requalificar para os tempos actuais. Ou mesmo construir nas aldeias da minha terra. Um sistema administrativo lento, afasta muitas vezes as vontades para territórios limítrofes. Escrever uma história não é tão complexo, apesar de ser mais volumosa, e conclui-se em menos tempo, que resolver os papeis relativos à administração. 

10.07.25

Não conseguem desorientar ...


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Reunida num centro, a história agarrou o pequeno leitor, prendeu-o com palavras. Deixou-o imerso no enredo, ao redor, as brincadeiras, a liberdade inocente, os gritos e sorrisos, rasgados das outras crianças. Não conseguem desorientar o leitor, montado nas letras, avança, cada palavra, completando as frases, como quem está habituado a fazer percursos literários. No exterior do receptáculo mágico o tempo não para, os segundos, os minutos continuam aproximando-se da hora. O pequeno leitor está escondido dos que brincam. Os que brincam estão ocultos do pequeno leitor. Sobressai a capacidade de dirigirem a atenção para o que estão a fazer, sem chocarem, um com os outros. As histórias, são uma arte que pretende agir no pensamento, na emoção, de quem lê. Intervém nos poderes, fazendo desaparecer qualquer agitação, sem necessidade de carapaça visível.

09.07.25

Os dias aqui são divertidos ...


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A manhã desenrolou-se debaixo da sombra das árvores, no recinto ameno da instituição "Meninos da floresta", lendo histórias para os que sentem atracção pela leitura em voz alta. Houve quem lesse num recanto, abraçando de um modo íntimo a história. Partilhasse segredos com os personagens, participasse nas mesmas aventuras. Outros deambulavam no espaço, a brincar, a palavra mais importante da escola, diferente de todas as outras, nas viagens e andanças. A pequena horta estava ocupada pelos que colhiam tomates. A salada para o almoço estava a caminho, a galinha abria as asas sempre que me aproximava, os pintos não podiam ser importunados, aprendiam a esgaravatar na terra. Descobriam possibilidades para serem independentes um dia, tal e qual os meninos que frequentam esta floresta imaginária. Sem dependências das novas tecnologias, brincando, aprendem a plantar, a semear. a respeitar os animais. A adoptarem um comportamento socialmente correto. A coelha ainda não tinha nome, alguns decidiam qual o nome que iria ter, não estava fácil. Os dias aqui são divertidos, férias diferentes, livres do enclaustramento digital.

08.07.25

Uma pequena extensão onde ...


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A sombra da tília, o lugar onde brota água, o jornal, a biblioteca ambulante, que não se vê. O espaço público embelezado pelo mural, expressando actividades rurais, ofícios e tradições das gentes da aldeia de Martinchel. Uma pequena extensão onde cabe o mundo, os leitores, felizes, as histórias, felizardas, pelo préstimo às pessoas da aldeia. No lado oposto, a estrada que não dorme, o trânsito automóvel em ambos os sentidos não dá descanso ao silêncio. Necessário para se ler um livro, ouvir melhor os pássaros, invisíveis, na folhagem das árvores do pequeno largo. Mas as histórias têm o poder de absorver o ruído exterior, a sombra transforma-se numa campânula, capaz de proteger leitores, pessoas curiosas. A fonte mata a sede, a biblioteca ambulante mata a ignorância, as árvores no apogeu, dão oxigénio. A água traz a vida, as palavras a sabedoria, nas aldeias da minha terra a esperança não morre.

07.07.25

Tentando encontrar o que procuram saber ...


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Dar início ao primeiro dia nas viagens e andanças pelas aldeias da minha terra, desta semana, na biblioteca ambulante, cheia meninos, a começarem os primeiros passos entre as linhas. Palavras gigantes, ilustrações de encher os olhos, exploram os caminhos das letras, tentando desbloquear partes difíceis de transpor. Fantasiando o que vêem nas páginas, descomunais, nas suas pequenas mãos, soletram, empurram com o dedo a história para atingir o final rapidamente. De tarde surgiram outros, mais velhos, deixaram as bicicletas na beira da estrada, beberam água na fonte, molharam-se, entraram frescos na biblioteca ambulante. Andaram aqui um bocado, a ler histórias de soslaio, sussurrando entre eles, depois, o apelo da rua, as bicicletas, a liberdade nas férias. São miúdos com sorte, não estão presos em casa, noutras actividades. Estão livres para correrem, treparem as árvores, seguirem a bola no espaço improvisado. Transpirarem, alegria, vontade de viver, pardais  voando sem asas, tentando encontrar o que procuram saber.

03.07.25

A expressão no rosto das ...


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A nuvem de poeira persegue o tractor a fresar a terra, assim como o passado não deixa para trás as memórias. Partilhadas sempre que uma história é lida em voz alta para uma plateia atenta, seguindo o destino das palavras soletradas. A terra ao redor das aldeias da minha terra, transformou-se num mar de palha, cheio de ondas amarelas, de experiências anteriores, manifestando-se à tona do tempo. A expressão no rosto das mulheres, torna-me dependente, sujeito a biblioteca ambulante a esforçar-se para não deixar-mos para trás as aldeias, as pessoas, os leitores ligados às histórias. Ao passado, para estarem bem no presente, sem culpas. A vida é mesmo assim, de altos e baixos, como as ondas, as histórias ficam para sempre, há que saber ouvir, maneiras diferentes de saber. Tornar menos denso o passado, como faz a alfaia agrícola na terra, desbastar a travessia pelo lugar que habitamos. Com sabedoria, venha de onde vier, dos livros, das leituras, através das vozes da Lina e da Ana. Importante, é continuarmos presentes, desbravando as dificuldades, nas palavras difíceis que ouvimos, da ausência destas para exprimirmos

01.07.25

Rodeado de páginas amarelecendo ...


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A manhã tem o diabo entranhado, talvez tenha caído do céu, ande a castigar almas nos meandros do rio, nas viagens e andanças. Em Rio de Moinhos, há quem arrisque a desafiar o sol abrasador, pena, não serem leitores em direcção à biblioteca ambulante.  Alguns deles vão surgir de um momento para o outro, não será o forasteiro, Lúcifer, que os impedirá de saírem de suas casas. Estão protegidos pelas histórias, armas defensivas, que agarram a malícia, personificada no sol, a incontinência, da onda de calor, a bestialidade, no confronto com os leitores. Na aldeia da Amoreira, a biblioteca ambulante permaneceu como motor a funcionar para manter o ar fresco, enquanto o leitor seleccionava a história que o seduziu. No exterior o diabo veste "Prada", não é fácil viver em comum, quando este teimosamente continua a pôr em brasa as aldeias da minha terra. Há uma disputa pelas sombras, verifico a competição, pois a biblioteca ambulante é uma das envolvidas. Umas vezes consigo estacionar nos espaços, privados da luz directa do sol, noutras, encontro a árvore que pretendia, com a sua sombra ocupada. Quando tal acontece, é como se tivesse no interior de um forno assando lentamente, rodeado de páginas amarelecendo no fogo que se prolonga no tempo.