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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

29.08.25

As enormes nuvens despedaçam-se ...


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E não é que o verão baixou as suas defesas, o inverno, esteja lá onde estiver, conseguiu colocar um padrão. Marcando a posse, do tempo, que irá acontecer dentro de alguns meses, de vestirmos camisolas de malha, calças, como estou a usar hoje de manhã. A anexação pela madrugada dentro, apanhou desprevenido o verão, só agora, observando o céu, está a repelir a sombra que tem pairado nas aldeias da minha terra. A meio da manhã, o vale abre os olhos, no rádio a voz da Lola Young, na música do momento, mantém atento o viajante das viagens e andanças, na condução da biblioteca ambulante. As enormes nuvens despedaçam-se, misturando-se na massa azul, infinitamente doce. Na aldeia, as mulheres trazem os sacos da mercearia cheios, o fim de semana à porta, vale mais estarem prevenidas, não vão os filhos, as noras, e netos, aparecerem repentinamente. São as surpresas melhores que lhes podem acontecer, após uns dias no silêncio, desbravando a terra ressequida. Arranja-la de forma a ser utilizada na plantação das hortaliças e legumes do inverno. Na aldeia da Barrada a paragem da biblioteca ambulante foi curta, a impossibilidade de estacionar no lugar de sempre, em virtude de umas obras coincidentes nas vésperas de eleições, na requalificação dum espaço de lazer. O número de trabalhadores envolvidos nesta, à vista de quem atravessa a aldeia pela primeira vez, irá incutir nestes, a edificação de um grande empreendimento. Não é o caso, mas urge que a mesma se conclua quanto antes.  Por esse motivo, sem espaço para permanecer durante o horário estabelecido, a biblioteca ambulante estacionou mais cedo na aldeia de S. Facundo após o período do almoço.

28.08.25

Cimentar pessoas, ...


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O vento continua a empurrar as nuvens, em grupos, alternando com o céu azul, chegam como os animais de grande porte, às aldeias da minha terra. Estepes isoladas nas planícies do interior do país. Deixando-se conduzir passivamente ao ritmo do sopro do vento. O verão está a perder o vigor, posso estar enganado, mas haverá verão que irá dar que falar ainda. Tem conquistado a pouco e pouco o tempo ao outono, colocando aqui e ali, no inverno, e na primavera, interesses em parcelas no tempo destes. O verão e as romarias nas aldeia, atraem os filhos destas neste período maduro do ano. Visitar a família, ir a banhos no rio, utilizarem a biblioteca ambulante, lerem, as revistas, os jornais, informarem-se nas notícias do país e do mundo. São estas circunstâncias, por mais pequenas que sejam, que fazem mover a biblioteca ambulante. As pessoas são a força propulsora nas viagens e andanças, nas quais a biblioteca ambulante garante a sua itinerância. Estimuladas na curiosidade, de quererem saber para onde vai o verão, em que lugar está a primavera actualmente, como está a ser o outono na outra metade do globo terrestre. Quem demonstra conhecimento, tem comportamentos diferentes nas relações com o meio ambiente, poderão administrar melhor as estepes. Cimentar pessoas, dar vida às aldeias, fortalecer a floresta com espécies resistentes aos fenómenos climáticos, ao pior de todos, o homem.

27.08.25

O girador de vento defronte ...


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As nuvens, entram impetuosamente para dentro do céu das aldeias da minha terra, estava previsto na meteorologia. A temperatura está de acordo com as viagens e andanças. O vento  levanta os cabelos aos transeuntes que atravessam o largo da igreja, em Rio de Moinhos. Inquieta-os, na circunstância, em que caminham, matutando nos seus botões. Reclamam, falando para o vento, alguns impropérios ecoam no largo, seguem noutras direcções, empurrados pela deslocação do ar. O vento desassossega-os deixando-os fora de si. Vai interferir no quotidiano da manhã, na aldeia. Subtilmente a biblioteca ambulante deixa-se mostrar interiormente a quem passa,  tentando causar sede, de sensações, de emoções, nas pessoas distraídas no destino que tomam. Refúgio possível naqueles que protestam com o vento. Uma nesga na abertura da porta traseira, abre possibilidades de fazerem parte dos acontecimentos guardados perpetuamente nas páginas das histórias. Das palavras que o vento não consegue arrancar, vestígios imaginários, recordações, depositados no papel sacudido pela ventosidade. O girador de vento defronte dos meus olhos, colhe com sofriguedão o ar, desejoso de prender os leitores, agarrar o tempo destes, para se deslocarem à biblioteca ambulante. 

26.08.25

Frutas naturais ...


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Na beira da estrada, os jovens marmelos expõem-se sem vergonha, atirando-se para cima da biblioteca ambulante, à sua passagem na aldeia da Concavada. Comportam-se como as crianças, inquietos, não fossem os ramos dos marmeleiros, que os prendem, caíam na estrada. Sujeitos a esborracharem-se debaixo dos pneus dos automóveis, um fim precoce para estes frutos, a iniciarem um período de amadurecimento. Serem colhidos, e transformarem-se em sabores agradáveis, a marmelada , a geleia, assados no forno. Acomodados no interior do pão, estendidos numa fatia do mesmo, à colherada, misturados num molho delicioso. As histórias agarradas às palavras de quem as escreveu, são interpretadas de maneiras diferentes pelos leitores, colhendo-as  da árvore sobre rodas, todos saboreiam estes doces de sabores variáveis. Consumidas em casa, num banco do jardim, na praia. Sem pão, no silêncio das aldeias, com vento ameno, ao ritmo da melodia dos pássaros, ouvindo os murmúrios do mar. Frutas naturais, cultivadas nas ideias dos escritores, amadurecidas no tempo, no crescimento, destes homens e mulheres, plantadores de emoções. 

25.08.25

Há um ambiente diferente ...


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Em algum lugar o outono despertou, as manhãs têm acordado debaixo de neblinas, as noites estão mais frias. Os dias ficam curtos nas aldeias da minha terra, a bravura da temperatura sente-se após o pino do sol. As viagens e andanças estão mais agradáveis, os leitores saem à rua, esperam as histórias com sorrisos nos lábios. Há um ambiente diferente, de mudança, parece estar tudo arrumado, a inquietação, daqueles dias abrasadores desesperando as pessoas, ficou para trás. Talvez sejam falsas premonições, fiquemos todos desenganados um dia destes, quando a temperatura volte a escalar, deixando-nos sem brilho. Estacionada no limite urbano da cidade, a biblioteca ambulante, na sombra da copa de um soberbo plátano, um dos muitos patronos que dão nome ao lugar, em Alferrarede. Donde está a maior concentração destas imponentes árvores, surge uma mulher com andar determinante, na direcção do sítio onde está a biblioteca ambulante. Possivelmente saiu do Cento de Saúde, Não traz cara de doente, a saia esvoaçando, transmite a ilusão de vir a voar, tal não é a sua passada. Os braços desnudados, são telas, preenchidas por perfeitos desenhos. Flores, rostos longos, respeitando a estrutura dos membros superiores, apelam aos olhares por onde passa. São representações, factos, passado, presente, na vida da mulher. Aquela brochura que envolve uma história, revelando um pouco do recheio com  palavras. A história da mulher,  não sei quem é, pode estar interpretada nos desenhos exibidos nos seus braços. Somente aqueles que privam com ela, têm acesso ao interior, à sua história, são parcelas da sua vida. A mulher continuou no seu andamento pedestre, nem para a biblioteca ambulante olhou, o destino seja onde for, espera-a brevemente.

22.08.25

A curiosidade mexeu ....


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Manhã inerte, sem reclamações meteorológicas, no Parque Urbano de São Lourenço. As crianças orientadas por elementos da Associação de Pais, do Centro Escolar Maria Lucília Moita, quando passamos por elas, seguiam para o lugar onde a biblioteca ambulante se dirigia. Depois de um café, lá fomos, eu e a Sílvia, ao encontro do grupo de crianças, expectantes, das histórias que iriam encontrar, das leituras que podiam prende-los para sempre aos livros. É sempre o objectivo destas performances literárias para os mais pequenos, cativar leitores para o futuro, ao contrário do actual governo, terminar com o Plano de Leitura Nacional, nas escolas. Foi um sucesso, a leitura, a experiência com as histórias, a visita ao interior da biblioteca ambulante.  A curiosidade mexeu com quem passeava no Parque Urbano, aproximaram-se, experimentaram a biblioteca sobre rodas. Ficou prometido repetir outra leituras.

21.08.25

Sem desviarem o rosto ...


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Hoje, a tarde pode servir de modelo a todas as outras no verão, o que não acontece infelizmente pela alteração climática. Está agradável, o vento é delicado, o calor suportável, a esplanada do café, abastada de pessoas. As vozes ouvem-se na biblioteca ambulante, não muito longe do lugar, dos chapéus de sol, gigantes, para proteger os clientes. Na rua, transitam de bicicleta, de trotineta, a caminhar, vejo-os a circular na mecha, com os olhos fixos na rua. Sem desviarem o rosto para a biblioteca ambulante, seguem destinos diferentes, procuram histórias, excepto, as histórias da biblioteca ambulante. São parte das Histórias à Beira Rio, sem o saberem, personagens anónimos, gente da minha terra. Combustão para escritas, alicerces de palavras, inspiradores de narrativas nas aldeias da minha terra. A esplanada, a pouco e pouco deixa fugir os frequentadores, como a água se esgota num tanque, quando esta é necessária para regar a horta. O sol inclina-se no sentido ocidental, estranho, não apareceu até agora um leitor. Na vila não costuma acontecer ausências de leitores. Ainda por cima a tarde tão amável com as pessoas. O espaço no interior da biblioteca ambulante está convidativo para entrarem, abraçarem as histórias.

20.08.25

Os dedos das suas mãos ...


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Os raios solares despertam as histórias, dando vida aos personagens no interior dos livros, tocando no rosto do velho, adormecido na sua cama. Dentro do feixe de luz, pairam partículas de pó movidas pela força propulsora do ar, que entra na pequena abertura da janela do quarto. A biblioteca ambulante está na aldeia, defronte da escola, vazia, as férias escolares afastaram os gritos das crianças, quando brincam no recreio correndo atrás umas das outras. Do fontanário, onde o velho molha a boca na bica, repousa, depois de encostar a bicicleta em segurança. Senta-se, observando o largo, a biblioteca ambulante. Nunca teve curiosidade de se aproximar, entrar no lugar onde estão as histórias. Os dedos das suas mãos são grossos, habituadas desde muito cedo a segurarem alfaias agrícolas, quando escreve na terra, porventura, a raiva sentida, por ser inibido face a alguma hesitação, por não saber ler. Ou a felicidade de viver na aldeia, ter vizinhos que se preocupam quando está doente, por conhecer os nomes das pessoas da aldeia. Não é assim tão mau residir na aldeia, apesar da inexistência  de serviços imprescindíveis, comércio em abundância, é feliz no lugar onde está. O sol escalou mais um pouco, obrigando o velho a colocar-se em cima da sua bicicleta. Nas primeiras pedaladas, as pernas  esforçaram-se para impelirem os pés a pressionarem os pedais com vigor, passou pela biblioteca ambulante olhando de soslaio. Vi-o desaparecer da porta traseira, aberta, para deixar entrar a corrente de ar,  leitores, despertar o interesse de quem passa.

 

19.08.25

Fugiu pelas linhas acima ...


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O vento deu asas aos leitores, a última vez que foram vistos, misturavam-se nas páginas das histórias. Metendo-se dentro dos enredos, a compartilharem aventuras, sentindo emoções ao mesmo tempo que os personagens, criados pelos escrevedores de histórias. Entretanto, um deles deixou ficar a Saudade, a sua melhor amiga, à qual estava bastante ligado. No entusiasmo de aproveitar as asas que o vento trazia, na curiosidade de fazer parte de uma história, não se lembrou da Saudade. Foi na página 19, a seguir a um ponto final, começava a ser ele o protagonista, no momento em que a Tinta, passou, lhe deu a mão, puxando-o com ímpeto, levando-o a correr página abaixo. Quando, a Saudade lhe bateu forte no peito, como foi possível ter-se esquecido. Na aldeia, onde estava, antes de o vento o desafiar, não tinha a Saudade ao pé de si, raramente estava com ela, apesar de haver breves períodos de tempo, a recordava. Mas não como agora na história, a Tinta não o largava, apesar do esforço que fazia para se soltar da sua mão. No meio da história, numa situação complicada, olhou, umas linhas acima, tinham nuvens escritas, ardilosamente começou a engendrar uma maneira de escapar da história. Deixou que a Tinta o puxasse até ao final de um parágrafo, a seguir, na linha de baixo, não havia motivo para a Tinta o puxar com força, como até ali, onde tinha sido importante a sua participação. Num momento de distracção, largou rapidamente a mão da Tinta, quando esta não esperava tal comportamento. Fugiu pelas linhas acima, saltando por cima das palavras alegres, daquelas que causam lágrimas, impulsionando o corpo para agarrar a nuvem, noutras linhas, no princípio da página. A história continuou pelas páginas seguintes, ele ficou para trás, na nuvem, magoado pela ausência. A Saudade, estava perto, perante a aproximação da nuvem da sua aldeia, a distância, os lugares onde andou, na história, trouxeram-lhe um sentimento que nunca tinha sentido. A Saudade, a sua amiga, a aldeia, estavam ali em baixo, acenado-lhe, não esperou mais, esgueirou-se da nuvem beneficiando da altura de uma chaminé.

 

18.08.25

O sol parece uma laranja ...


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As nuvens actuam como se fossem uma cortina protegendo a biblioteca ambulante da luz opaca do sol. No parque infantil, a criança de chupeta na boca, brinca com a sua mãe, está feliz no balouço, o vento ajuda um pouco, não é forte, traz uma aragem agradável. As mãos da mãe causam o vaivém, fazem sorrir a criança. O vento, também trouxe histórias, lugares, onde viu a morte perto, onde foi feliz  profissionalmente, na guerra no ultramar, norte de Angola, Luanda; pensões Montes e Outeiro, Hotel Turismo, em Abrantes. Memórias que se soltaram de um abrantino, quando caminhava, e encontrou a biblioteca ambulante estacionada. Gostei de o ouvir, aprendi mais um pouco. Levar histórias diariamente traz retornos imprevisíveis, são pedras nas quais tropeço a qualquer momento. Não as pontapeio para longe para não estragar os ténis, apanho-as e guardo-as na minha gaveta das lembranças. O vento está mais forte, a copa das árvores estão iguais ao balouço onde a criança se divertia com a sua mãe de manhã. Enxota o calor daqui para fora, transformando uma tarde quente, numa mais amena. Ao chegar à aldeia da Lampreia, somente um homem ainda novo, numa sombra à beira da estrada, com a cabeça inclinada para o telemóvel que uma das mãos agarrava. Mais ninguém se deixa avistar, saem de automóvel, passando velozmente pela biblioteca ambulante, sem para ela olharem. Na aldeia seguinte entrei no café, coloquei os jornais na mesa para quem quisesse ler. Numa das mesas, onde se joga cartas, as mamas de uma mulher bronzeada, quase saltam do decote pronunciado, à vista de todos. Mais uns dias e vai fazer inveja às patroas no país de acolhimento. Na esplanada, são sempre os mesmos, não largam as minis das mãos, inquieta-me esta maneira de viverem. São novos para serem aposentados, o trabalho ocasional é o que lhes traz algum rendimento. Finalmente surgem dois jovens leitores, irmãos, entregam histórias, palmilham o espaço da biblioteca ambulante, explorando, o grande número de histórias, de palavras, retirando aquelas que os seduziram. Os dias vão ficando reduzidos nas aldeias da minha terra, o sol parece uma laranja, que se despega do céu, a cair noutro dia, num lugar longínquo.

 

 

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