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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

29.09.25

Os pontapés nas pedras que ...


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Ainda há verão nas aldeias da minha terra, com as manhãs frias, sem inquietarem muito as pessoas. Os próximos dias vão ser fogosos no período da tarde, embora a impetuosidade solar perca rapidamente a robustez com a diminuição dos dias. Na aldeia do Souto o dia ainda jovem, parece distraído, ou não quer crescer, está delicado. Debaixo do céu azul sem confusões, a biblioteca ambulante sem esperança no surgimento de leitores em ambos os princípios da rua, onde permanece. Outros afazeres chamam-nos, tiram proveito da manhã agradável para os trabalhos agrícolas na horta. Adaptando a rega à realidade dos dias que aí vêm, as últimas colheitas do verão, preparar a terra para o cultivo de inverno. Ajustar parcelas, semeando favas, ervilhas e cenouras, por exemplo. A mercearia situada no centro da aldeia, na rua que leva os fiéis à igreja, e os aldeões às festas no coreto fechou. Na porta um número de telefone, invocando uma conversa para comprar ou alugar o espaço, onde outrora as paredes estavam forradas de fruta, legumes e diversos géneros alimentícios. O quotidiano da aldeia é assim, cheio de caminhos inseguros, não é fácil obter estabilidade, na sinuosidade destes. Os pontapés nas pedras que se atravessam durante a caminhada são muitos, há calçado que não resiste a tanta pancada. Na rua a sombra da parte superior da ramagem da árvore mexe-se como um boneco animado numa tela improvisada. A mulher sem saber por momentos foi figurante neste filme curto. Como surgiu, desapareceu do meu olhar, a cena seguinte não é nova, ouve-se o sussurrar das folhas secas no chão, o ruído do silêncio.

26.09.25

A leitura fica mais ...


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A copa das árvores estão agitadas, o calor faz-se sentir quando atinge quem se expõe aos raios certeiros. A tarde convive com as pessoas, sentadas na esplanada do café, caminhando na rua,  rumando em direcções diferentes. O outono está brincalhão, percorre o dia alegre, seduz-nos com o brilho do sol. A biblioteca ambulante está enamorada pelo outono, abriu as portas, escancarou-as, mostra a sua intimidade. Despiu-se, tem à vista as histórias, prazenteira, permite aos transeuntes espreitarem as palavras grossas. Os mais curiosos entram para bisbilhotarem as palavras delgadas, desimpedindo as entranhas, lendo as palavras com atenção. Nem todos são leitores habituais, foi o outono que os empurrou para a rua. Depois a biblioteca ambulante faz o resto. O vento sopra mais forte, brinca com as emoções das personagens das histórias. Agarram-se a linhas imaginárias para não voarem. As folhas menos resistentes nas árvores, deixam-se levar pelo vento, sem saberem onde vão pousar. A duração dos dias vai diminuir, mantendo-se sempre menores que as noites. A leitura fica mais vigilante, qualquer pessoa alheia à biblioteca ambulante, é capturada pelas histórias. A rede de palavras não as deixa libertarem-se do enredado de narrativas ficcionais, verdadeiras aos leitores mais atentos. As mensagens chegam  seja qualquer for a criatividade de quem desliza o aparo  nas folhas que o vento não consegue levar. Prendem-se na memória, nas árvores que morrem de pé.

23.09.25

Um movimento imaginário na ...


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O outono chegou com manhãs azedas e tardes amadurecidas. Os dias já não são novos, caminham prudentemente para o declínio. O júbilo manifestado até aqui esmorece com o avanço do movimento de translação em torno do sol. Processo natural, irreversível ao homem, avançando nas viagens e andanças pelas aldeias da minha terra. A deslocação da biblioteca ambulante em direcção às pessoas, amadurece os relacionamentos com a  leitura das histórias. Travando amizades com palavras, personagens e autores, aumentando a importância da ligação entre uns e outros. Arrepios, suores, fraquezas, entusiasmos, reflexão, num intervalo de tempo determinado pela leitura de uma história. Um movimento imaginário na caixa giratória das palavras. Nunca pensaram na força que as palavras têm, puxando-os para a biblioteca ambulante, empurrando-dos de volta, determinados a recolherem a suas casas cheios de vontade de girarem nas histórias. A história das estações do ano são diferentes, suportáveis nuns períodos, insuportáveis noutros, consoante o movimento da nau que nos transporta. Adaptam-nos, na maneira de vestirmos, captam-nos, nas informações ambientais. Como,  olhamos as cores das flores, a queda das folhas, ouvimos as melodias dos pássaros, o silêncio. Mexemos, na terra, plantamos e atiramos sementes, cheiramos, terra molhada, o perfume das flores. Saboreamos os frutos, comemos os legumes, a carne e o peixe. Histórias de sobrevivência, precisamos delas, usamos, desconsiderando-as cada vez mais. Como lemos os personagens destas histórias, pondo em causa a sua extinção. Na biblioteca ambulante as histórias são partilhadas pelos leitores, respeitando a manutenção destas, nas aldeias da minha terra.

19.09.25

Há vozes que morreram ...


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O largo está vivo, vozes proferidas ao mesmo tempo geram uma confusão de palavras audíveis no lugar onde está a biblioteca ambulante. O ar abafado, as histórias desapertam as folhas, evitando asfixiar as personagens, têm de sobreviver, há leitores que não leram as suas peripécias. As palavras, aflitas não querem escorrer em linhas de tinta, só por matar a sede. As emoções nas folhas têm de se manter na ordem determinada, não deve haver qualquer alvoroço, fora das circunstâncias determinadas pelos escrevedores. Se assim sucedesse seria o caos, emoções agradáveis e desagradáveis, colocando os leitores fora de si. Emoções à flor da pele, sente o viajante das viagens e andanças, debaixo desta, lençóis freáticos libertam pequenos cursos de água, deixando-o desconfortável. O largo fechado por nuvens ameaçadoras, de poeiras, de água, do que não sabemos, uma caixa cinzenta, contribuem para o mau estar das histórias no largo. Há vozes que morreram nas gargantas, outras galgaram-nas e ouvem-se agora. Entre pessoas, ao telemóvel, na esplanada do café, à beira dos automóveis parados sem desligarem os motores. Tudo apressado, no espaço, onde o tempo passa sem se ver. A biblioteca ambulante é invisível, ou não a querem ver. Cegaram, a mulher sentada, olha para a biblioteca ambulante, envolvida nas próprias emoções, distraída na vida de quem atravessa o largo. Não confia nas histórias, prefere andar às apalpadelas sem saber por onde.

17.09.25

A maldição é uma ...


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O período que antecede eleições autárquicas é mágico, num abrir e fechar de olhos as ruas e estradas surgem alcatroadas aos pneumáticos da biblioteca ambulante. J. K. Rowling não foi tão célere a escrever os possíveis 2.500 caracteres na primeira página das aventuras de Harry Potter. Numa história onde abundam palavras mágicas, estas não fazem sequências mágicas na elaboração da obra literária, como vejo na arte da ilusão autárquica. Feitiços articulados com encantamentos ditos por palavras proferidas ao acaso, da boca para fora, consoante os momentos. Gestos manuais demonstrando certezas, rigor no que se diz, desarmando dúvidas, ameaçando potenciais mágicos rivais. A maldição é uma magia, pessoalmente sou vítima de uma, a temperatura elevada continua presente nas aldeias da minha terra. A varinha mágica podia transfigurar esta, amansando-a, estar agradável nas viagens e andanças. E não fazer dela um elemento impossível de contrariar nas intenções maléficas aos leitores. Depondo a vontade, de saírem das suas casas para se dirigirem à biblioteca ambulante, pesquisarem poções, aprenderem magia com as palavras. Aplica-las melhor no quotidiano, no crescimento intelectual.

 

16.09.25

Venha a aldeia toda ...


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A manhã está como descascamos uma fruta, a qual julgamos doce. Quando a trincamos, a primeira dentada vem logo com sabor desigual aquele que esperávamos. Foi assim hoje, o primeiro olhar aparentou uma manhã amena, depois, nas viagens e andanças, o frio causando arrepios. O sol, presente não tem força suficiente, mais logo estará diferente, quente e brilhante. O café está fechado, há poucas pessoas a passarem no lugar onde a biblioteca ambulante permanece. Se correr bem, virão aqui os leitores com livros para devolverem, os passos seguintes, seleccionar, leitura rápida na contracapa, ou se for caso disso, pelas badanas. Quem experimenta um autor novo, continua com o olhar pregado a conhecer o mesmo, na sinopse biográfica. Saem cheios de ânimo, ansiosos por pegarem na história, sonharem de olhos abertos. Ao lado, a mercearia tem a porta encerrada, insinuando o motivo do fechamento de ambos os negócios. É o período das férias do proprietário dos estabelecimentos comerciais, suponho, poderá ser outra origem qualquer. A padeira chega pouco depois de a biblioteca ambulante estacionar na aldeia da Carreira do Mato. A própria leva o saco cheio de pão a casa dos clientes, um casal de idosos, procedimento bastante comum nas aldeias. O Joaquim estaciona o automóvel, hoje a biblioteca ambulante chegou primeiro, o único leitor da aldeia, nunca falta nos dias em que as histórias estão no lugar habitual. O andar lento devido ao volume da barriga, permite-me antecipadamente, abrir o formulário do empréstimo, onde está mencionado a história que vem entregar. O espaço em branco para preencher com elementos descritivos, daquela que levará para sua casa. O calor austero não demove os leitores, chegam em pequenos grupos, como se programassem a vinda à biblioteca ambulante. Sós, acompanhados, são sempre bem-vindos, os crentes, os não crentes na leitura. Venha a aldeia toda, há histórias para todos, as palavras não se gastam, quantos mais vierem, mais palavras se multiplicam. Reproduzem-se nas aldeias da minha terra, mencionam a biblioteca ambulante, as histórias, quem entra, quem sai, as leitoras, os leitores. Todos aqueles que fervilham ao redor das histórias.

15.09.25

Foi ao futuro, ...


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A manhã está com uma energia calorosa, a previsão, diz que os próximos dias serão arrebatadores. Trarão expressividade às viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. Através da temperatura mais elevada, onde andava esta nos últimos dias, adiantou-se no tempo. Foi ao futuro, não gostou, o tempo, ali não é o melhor para poder brilhar. Regressou entusiasmada, bate-me nas costas, avisa-me, para o que aí vem de tarde. A leitora à minha frente, com o saco dos livros preso numa das mãos, fala sem parar. Desvia as minhas ideias no texto que estou escrever, ao mesmo tempo, ouvindo-a, enquanto movo a cabeça, para cima e para baixo, sempre concordando com o que diz. Não está fácil quebrar a sucessão de palavras atrás umas das outras sem parar. Finalmente, a hora de ir preparar o almoço chegou, saiu como entrou, ao encontro do que lhe dá prazer. A tarde chegou, as sombras das árvores, o vento leve, alteraram a intenção da temperatura elevada. O viajante das viagens e andanças pode realizar o trabalho em liberdade. Sem o aperto do calor até os leitores vêm sorridentes, preparados para seleccionarem histórias. Treparam o olhar experiente pelas estantes acima, com ajuda dos braços retiram as histórias eleitas para os acompanharem nos momentos em que não estão ocupados. Em frente da biblioteca ambulante, está uma varanda, onde o riso de crianças é audível, de vez enquanto duas cabecitas espreitam  sobre o parapeito. A direcção dos olhares curiosos são para as histórias, as portas abertas expõem o segredo. A mina onde estão concentradas veias de pensamentos, do interior da biblioteca ambulante, sem ser necessário escavar, as pepitas são palavras de grande valor aos olhos de quem as lê. Uma fonte de benefícios, de conhecimento, de aprendizagem, que os leitores retiram da biblioteca ambulante. 

12.09.25

Faíscas de conhecimentos ...


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A caminho, ao encontro dos leitores, os astros que gravitam ao redor da biblioteca ambulante. Da cor do sol, um corpo celeste cheio de histórias, de calor. Brilhando nas aldeias da minha terra, aquecendo os velhos na sua passagem, a dourar a mente dos aldeões. Aqueles que se expõem aos raios deste sol, que nasce e morre nas mãos dos leitores. Sentimentos à flor da pele, bronzeada por raios de palavras, qual praia, melhor do que esta, de barriga para o ar, com um livro aberto, colhendo a luz emitida. Faíscas de conhecimentos na forma do cheiro a maresia, da espuma das ondas a desfazer-se na areia. Inspiração de quem escreve, saudade que não morre. Não há praia nas aldeias da minha terra, há clarões de poesia, de palavras arranjadas, trovões de silêncio fulminados pelos raios das histórias.

10.09.25

A candeia sempre acesa ...


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Nas oliveiras, a azeitona num par de dias sacode a delicadeza para se tornar madura. A chuva dá-lhe força para se desenvolver rapidamente e transformar-se no óleo que gostamos. Nos pratos, nas saladas, a escrita temperada, o mistério, a aventura, a paixão, a morte. Ao dispôr de qualquer um, na biblioteca ambulante, levar histórias para casa fica mais fácil. Voltar, levar outra vez, pratos de letras, comidas do mundo inteiro, saborear nos lugares preferidos, sós, com companhia. Experimentar os temperos de uns e outros, discutir os sabores, os superiores, os inferiores, encher o cérebro de conhecimento. Uguento, combustível, a leitura distrai, a pomada adequada depois de um dia de trabalho, livra-nos da solidão. A candeia sempre acesa, iluminando caminhos, inquietando curiosidades, afastando o medo. Andam a vindimar, vejo homens com baldes cheios de cachos de uvas, o sumo destas é o sangue que corre nas veias das palavras. Sangue quente, sangue frio. Histórias de amor, que excitam o paladar, histórias frias, gélidas, indiferentes a quem experimenta, comida sem sal.

08.09.25

O tempo volta a ser de festa na escola ...


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A mulher aproxima-se da biblioteca ambulante a saracotear o corpo, mais perto, percebo, que uma das pernas vacila sempre que a empurra para a frente. O saco numa das mãos traiu-me, não é leitora, é uma aldeã a enfiar-se, numa, das duas ruas, a convergirem defronte da escola. Vestida de preto, viúva do passado, enfrenta o resto dos dias, a inquietar-se com o destino. Os raios do sol branqueiam as paredes das casas na aldeia do Pego, a chuva afastou-se, a temperatura acalmou o sentimento de raiva das últimas semanas. Na escola, a manutenção das estruturas exteriores interrompem o ruído do silêncio, o som, mais amedrontado dos pássaros, cantando alegremente. Lavam-se os muros, para lhes dar uma aparência perfeita depois de caiados, a primavera está aí à porta, o regresso das crianças, a gritaria, as corridas, no recreio. Na sala de aula, as folhas dos livros novos a deslocarem-se,  a união das letras, as palavras lidas em voz alta. O tempo volta a ser de festa na escola, no pequeno largo onde a biblioteca ambulante se demora sempre que aqui vem. O vento atreve-se a sacudir as folhas nas árvores, noutro largo, na aldeia da Concavada, o céu azul desgasta-se perante as nuvens a estenderem-se lentamente debaixo deste. Se o céu azul fosse uma folha de papel, a tinta entornada de um tinteiro comportar-se-ia da mesma maneira. Cobrindo a folha inocente, apagando a história do verão sem pressa, deixando à vista arabescos. As memórias do passado, que nunca serão de dor ou perda, mas sim, de exemplos para aprendermos, sem ser penosamente.

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