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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

28.11.25

Tempo para ter importância, ...


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O relógio da torre sineiro, na igreja da aldeia do Souto toca as onze horas, o sol está alto, há pessoas na rua. Amparados pelos muros, conversam umas com as outras, reunindo a vitamina D o mais tempo possível, para gerir a quantidade necessária, enquanto o sol dá a volta e se ausentar outra vez. A leitura é conduzida preventivamente, seguindo as palavras com velocidade reduzida, sem transpor as linhas, os sinais gráficos, nas aldeias da minha terra, é preciso ler com tempo, a tempo da próxima permanência da biblioteca ambulante na aldeia. O tempo nas aldeias, tem tempo para aspirar fortemente, seja o que for. Tempo para mais população, médicos, correios, menos silêncio, mais companhia.Tempo para ter importância, ou tempo para ser um lugar nenhum, com o passar do tempo a explicação possível é o tempo ter parado nas aldeias da minha terra. O sol precipita-se do alto do céu, com tempo para cair, e sumir no horizonte. Nas Fontes, outra aldeia incluída nas viagens e andanças, está revestida de uma camada de ouro. Lá em baixo o rio continua gordo, até a mulher na sua horta, situada na encosta, adianta o olhar para o rio. Admirada por este não ter reduzido o volume de água. Não se privou de encher o leito, ou não o deixam libertar o excesso de água. Um regime alimentar diferente, orientado, evitando o desperdício, pois a Terra continua a girar com futuro incerto. As viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, por hoje, estão a chegar ao fim. Tenho tempo para encontrar o destino, e estou sem tempo para outros leitores.

27.11.25

Sente-se sozinha estando acompanhada ...


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Ouvi-a a lamentar-se na rua, depois foi aproximando-se da biblioteca ambulante, falando em voz alta.- Ohh! Sr, João! Ohh! Sr. João! A minha filha morreu. Fiquei totalmente embaraçado, não esperava a entrada sobressaltada da leitora. Com os olhos lacrimejantes lá foi relantando o sucedido com a sua filha. Sabia desta morte, foi comentada na comunidade, publicada nas redes sociais, não sabia a relação de parentesco com a leitora. O primeiro momento foi de segurar a comoção, até aparecer a oportunidade para abrandar ambas as emoções. Tranquilizando a leitora com palavras motivadoras, sem saber a dor de perder assim um filho. Mais calma, olhou para as histórias, pedindo o que deveria levar para casa. Avançou na direcção das revistas, foi a primeira escolha, aquelas que espiam a vida alheia das figuras públicas. São só para passar a vista por cima, ao deitar-se, disse, adormecer sem pensamentos tristes. Sente-se sózinha estando acompanhada, com notícias, artigos tecendo intrigas. Podia ter sido um romance, ou outro género literário qualquer, não importa, a vida no interior das histórias, permite-nos conhecer, ideias, caminhos, personagens diferentes. Se gostarmos, seguimo-los noutras aventuras, viajamos com eles, damos a volta ao mundo. A biblioteca ambulante também é um lugar onde se guardam sentimentos penosos, não é só boa disposição. Pode ser um refúgio, a gruta para se protegerem, ou tranformarem-se, um sítio especial e mágico.

 

20.11.25

O sol solta-se da névoa rasteira ...


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Na estrada em direcção à aldeia do Vale das Mós o nevoeiro denso tomou conta das viagens e andanças. Não fossem os faróis dos automóveis transitando no sentido contrário, o viajante das viagens  e andanças achava que seguia o rasto das guias brancas isolado, a conduzir a biblioteca ambulante. Mais adiante na planície os primeiros raios de sol despontam, formando pequenas clareiras brilhantes quando tocam no orvalho da manhã. O tractor com as suas garras desperta a terra adormecida debaixo do manto de gotículas de água, perturbando o solo e tudo o que o envolve. A palha na manjedoura está pronta para os animais saciarem o apetite. 0 sol solta-se da névoa rasteira e fechada, ao mesmo tempo que o retomar quotidiano das pessoas , outro dia  nas aldeias da minha terra. Os velhos comportam-se como os lagartos, expõem-se ao sol defronte das suas casas, caiadas de branco. O brilho das paredes sem manchas, sobressai na rua apertada da aldeia, expressa o cuidado que têm  com as suas coisas. Apesar de serem casas exíguas, são limpas de vida fácil, heranças de um passado cinzento, erguidas, à custa de privações e do esforço laboral, do nascer ao pôr do sol. Daqui em diante quem quer pode possuir obras literárias e outras histórias colocadas na biblioteca ambulante, o espaço certo das colecções. Da reunião dos lugares onde sempre sonharam estar, ou das várias maneiras de fazerem algo, aprendendo, viajando à boleia das palavras.

19.11.25

O livro é uma espada tocando-lhes ...


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Foi muito longo o tempo que o sol demorou a sair da incerteza em que estava mergulhado. As aldeias da minha terra, encantadas, misteriosas, quando as brumas assentam no território onde a biblioteca ambulante é rainha. Uma lutadora incansável, a combater a iliteracia, a solidão, são várias as lutas diárias, onde se ganha e perde. Conquistou leitores, sem desistir, continua, adaptando as histórias ao quotidiano das pessoas das aldeias. Na sua corte todos são bem vindos, ouvir os nobres cavaleiros contando as suas aventuras, sobre as pelejas nos lugares solitários, ao seu redor. É nos sítios remotos que a sua acção se faz sentir mais, uma, duas, três ou mais pessoas, bastam para o compromisso da biblioteca ambulante ser realizado. O livro é uma espada tocando-lhes nos ombros, um fio de palavras rapidamente lhes chega ao coração. Vinculando-os para sempre como cavaleiros na biblioteca ambulante. Um pequeno exército de leitores fiéis à rainha, aumentando o seu número delicadamente, após o final de uma história. Estes fazem chegar a mensagem a outros possíveis leitores nas aldeias. Com sorte, talvez apareçam na corte para conhecerem a biblioteca ambulante, iniciarem outros conhecimentos com a leitura.

18.11.25

A refeição preparada para o ...


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A charneca está brilhante, as gotículas de água estão em todo o lado, beneficiando o viajante das viagens e andanças. Não é o país das maravilhas, mas podia ser, cintilante, com histórias para todos na biblioteca ambulante. As pessoas nas aldeias da minha terra não desistem de colher a azeitona, após a paragem forçada, provocada pela visita da Cláudia, os panos verdes voltaram a rodear as oliveiras. Os homens e as mulheres chicoteando com as varas os ramos, agora, com a azeitona mais grossa, depois de ter resistido há inquietação da Cláudia. A roupa no estendal aproveita o sol da tarde, para deixar correr os segredos da cama, as conversas, o sentimento intenso, os sonhos, de quem acorda e se deita todos os dias na aldeia. Entrar no café Areias é como explorar uma gruta às apalpadelas, com cuidado para saber onde se põe os pés. Está sempre na penumbra, sem ninguém, os jornais ficam colocados em cima da mesa. Como fazemos quando deixamos alimento aos animais que não têm lugar fixo. Se voltar algumas horas depois, os jornais não estão no mesmo sítio, desapareceram, ou estão deslocados sobre as outras mesas. Os dias estão mais pequenos, rapidamente a noite cai sobre a aldeia, quem trabalha afastado, chega a casa com a escuridão instalada. A refeição preparada para o jantar, e com a roupa da cama pronta para outra página de histórias.

16.11.25

Não derrubem bibliotecas ...


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A Cláudia foi uma leitora que entrou repentinamente na biblioteca ambulante, agitando as folhas das histórias sempre que pousava os olhos nas sinopses, no nome destas. Foi mais, trouxe histórias que os leitores das aldeias da minha terra recordarão para sempre. Os que vierem depois deles relembrarão os próximos a vir, e assim sucessivamente. Como tem acontecido com os nossos antepassados até ao presente. A oralidade, foi o primeiro caminho, quando as palavras se conseguiram fixar, com o avanço dos anos, surgiram outras mais. A Cláudia também levou histórias, nos jornais, na televisão, no rádio, leu-se, viu-se e ouviu-se, histórias sobre as aldeias da minha terra. A sua passagem pela biblioteca ambulante foi breve, assim como é a dos outros leitores.Também deixam histórias, gosto de os ouvir a falarem sobre enredos e mexericos das aldeias. Mas, leitores com o perfil da Cláudia são difíceis, não aceitam conselhos sobre leituras, manifestam-se por instinto, são irreflectidos. Esta espontaneidade causa desordem nas histórias, na biblioteca ambulante, nos leitores que hão-de vir. Voltar a colocar tudo no lugar certo, alertar os leitores seguintes, caso algo não esteja bem. Por exemplo, uma história perdida, após ser lida apressadamente, tentando perceber se é a preferível para levar, folhear  colocando em risco ou mesmo danificando as páginas. Felizmente temos as bibliotecas onde é possível estancar e confiar as histórias, a informação, acessíveis a todos aqueles que queiram aprender e a perceber o passado e o futuro. Enquanto estas continuarem a servir as comunidades, e as pessoas em geral, estaremos seguros de conhecer ideias e maneiras de viver diferentes. Não derrubem bibliotecas, leitoras como a Cláudia não fazem falta nenhuma.

14.11.25

O rasto das memórias, ...


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A cor branca das casas sobressai na tarde cinzenta na aldeia de Rio de Moinhos, das nuvens a água desaba sem piedade sobre a biblioteca ambulante. O largo está transformado num  lençol de água retratando os leitores ausentes, o outono desapaixonado. O rasto das memórias, nas ruas da aldeia, afluem na direcção da biblioteca ambulante, atravessam o largo na corrente rápida e estreita, afogando-se mais à frente no rio. Umas perdem-se para sempre por entre os calhaus e areias no leito, outras conseguem agarrar-se nas histórias, são recursos que permitem a sobrevivência, do passado, das pessoas que gostam de ler. Das aldeias no futuro, para que não se cometam os mesmos erros do presente. 

12.11.25

Na obscuridade do interior, ...


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A chuva estabeleceu-se de forma duradoura nas aldeias da minha terra, há pedaços de tempo onde cai sem piedade, noutros tomba delicadamente sobre o largo, deserto. O céu cinzento parece abater-se sobre a biblioteca ambulante, não é a noite a cair, ainda é cedo para tal acontecer. É a antevisão de uma tarde sem leitores, não fosse a erva vivaz escapando-se por entre as pedras do largo,  sobressaindo a cor verde, a tarde estaria a meia-luz. Não há vento, os majestosos plátanos assemelham-se a sentinelas, guardando a urbanização com o mesmo nome, em Alferrarede. A chuva cai mais vigorosa no espaço aberto, sobre as histórias. Na obscuridade do interior, na biblioteca ambulante, a música sai pelos altifalantes, traindo os personagens clausulados nas brochuras. Lá fora, os bancos do largo estão vazios, de palavras, de troca de ideias, a mesa está cheia de coisa nenhuma, os plátanos dão nas vistas, são os guarda-costas do outono.

 

10.11.25

A Maria Castanha sacode ...


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A tarde abriu as páginas, deixando para trás o rosto cinzento da manhã, o princípio desta, as horas e minutos do tempo do período matinal, mostra agora palavras talentosas. Atingem os leitores, alertando-os da presença do sol na vila. Instiga-os a dirigirem-se à biblioteca ambulante, ao assador de castanhas, libertando fumo. O odor das castanhas assadas impregna o ar, entrando sorrateiro no espaço das histórias. À espreita, fazendo esforços para fugir da história, a Maria Castanha desdobra-se, para tentar agarrar as castanhas quentes a saírem do assador para os cartuchos de papel, improvisados, por folhas de jornal. Notícias, pequenas histórias, crónicas, aquecendo as mãos dos leitores extemporâneos. Alertados pelo cheiro irrompendo pelos ruas adentro, os vizinhos, nas ruas próximas, olham curiosos para o sítio onde o homem agita o ar com o abano para que as brasas não percam vigor. Vejo-os passarem defronte da biblioteca ambulante com os sacos de papel rechonchudos de castanhas. A Maria Castanha sacode os dois braços esperançada que a vejam apoiada na palavra corrimão, para conseguir alguma castanha oferecida. Infelizmente, não teve sorte, distraídos, lendo, as histórias nas folhas enroladas dos jornais, nem para a biblioteca ambulante olham. Foi assim que a tarde se perdeu no texto, até a noite cair nas aldeias da minha terra.

07.11.25

São livros por abrir ...


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O céu mostra ares de ter força para mudar o rumo da tarde nas viagens e andanças, com a claridade a dar um ar da sua graça. Parou de chover, embora as nuvens continuem por cima da aldeia, mas a luz que promove a tranquilidade dá possibilidade há especulação. O tempo vai melhorar de certeza, pelo menos nas próximas horas, virão leitores à biblioteca ambulante. Um rasgo azul abriu-se agora, uma porta para poderem sair de casa, até ao café, renovar as leituras, espreitar as culturas agrícolas, tudo pode acontecer. São como as as histórias nos livros, escondidos, no meio das páginas, depois de criados no pensamento daqueles que escrevem. Personagens nos livros, reais aos meus olhos, têm vidas simples no meio rural, com segredos ocultos nas entrelinhas da vida. São livros por abrir, surpresas para quem só conhece a face anterior. O desconhecido facilmente se conhece ou aprende com as histórias na biblioteca ambulante, da vida. Cresce-se a ler.

 

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