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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

29.12.25

As palavras caem ...


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O rádio emite música, o céu está maioritariamente azul, isto porque, no horizonte se avistam algumas nuvens aparentemente inocentes. Viajamos para o final do ano sem muitos leitores à vista. Só alguns, ocasionais, os que gostam de ler jornais, quanto mais não seja, lerem as palavras em destaque. Foi o que aconteceu hoje de manhã, onde os jornais que coloquei sobre a mesa da esplanada, no Mercadinho da Fonte, não conseguiram aquecer o lugar. Foram alvo da atenção geral, passaram por diversas mãos, são folheados de trás para a frente e vice-versa. Parecem o ramalhar nas árvores quando os ramos ficam estimulados pelo sopro do vento. A agitação é brusca consoante se discorda ou não com o que se lê. As palavras caem como frutos desprendendo-se dos ramos. A notícia, do conhecimento de todos, é exposta a todos os olhares, ao redor de quem prende com ambas as mãos o jornal. Cada um defende a sua opinião. Por entre os diversos artigos impressos nos diferentes jornais, a manhã  passou. Sem se aperceberem do intrometimento da manhã, da luz brilhante do sol, devolveram os jornais. Estão saciados com o que ficaram a saber, têm assuntos para debaterem no resto do dia, em casa, ao almoço com a família, com amigos. Vão ser o centro das atenções, dos que não leram, dos que não lêem. Transposta a primeira parte do dia, a tarde não trouxe alterações assinaláveis, excepto a total ausência de leitores, os jornais instalados no escaparate, não são apetecíveis aos olhares dos transeuntes. As histórias não puxam os leitores, os curiosos a explorarem os caminhos, onde as palavras os possam levar. A perceber que a falta de leitura no quotidiano é prejudicial à saúde mental. É nocivo à definição do pensamento da humanidade.

 

 

 

 

09.12.25

Extinguindo o fogo, suprimindo ...


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A chuva não para de cair, alimentando as ribeiras, tornando visível pequenos charcos nos terrenos que acompanham a biblioteca ambulante pelas aldeias da minha terra. No interior do café Areias, no meio da obscuridade jogam às cartas dois homens. Enfiados no fundo da sala, só muito perto da mesa onde estão sentados se deixam ver. Admiro a audácia destes dois, disputando um jogo de bisca, onde os naipes parecem silhuetas presas nas mãos. Mas, não é bem assim, pois as cartas são atiradas para cima da mesa com rapidez. Recolhidas instantaneamente pelo jogador que atingiu a vitória na jogada. Na entrada do estabelecimento dois homens fumam, enquanto dão goles pelo gargalo das respectivas cervejas. Ambos estão sintonizados nos movimentos de levar o cigarro à boca, inspirarem o fumo, expulsa-lo, após um momento de reflexão. De seguida na outra mão, impulsionada pelo braço, abocanham a parte superior estreita da garrafa, sorvendo o líquido dourado. Extinguindo o fogo, suprimindo alguma preocupação. Estão nisto, ao mesmo tempo, entre dentes soltam palavras imperccebíveis. Quando me aproximo, resguardando os jornais de baixo do braço, protegendo-os da chuva, viram o olhar, na tentativa de advinharem as letras mais gordas dos cabeçalhos. Passo por eles apressado para evitar molhar-me o menos possível, têm de vir para o interior, para conseguirem ler melhor as notícias. Aqui, na aldeia, a Vasp não chega, nunca chegou, para compreenderem o mundo, ou escolherem a viagem, lendo histórias, têm a biblioteca ambulante. Substituindo o quiosque, a livraria, é um espaço de discussão onde cada um pode expressar-se em liberdade e igualdade. 

 

 

05.12.25

A leitura espalhada nos quiosques ...


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As folhas no chão são as únicas fiéis no adro da igreja, protegidas debaixo do véu que cobre a manhã. O horizonte está um pouco denso, na estrada, ao longe, os pequenos círculos amarelos aproximam-se rapidamente da biblioteca ambulante, deixando atrás de si um rasto de água pulverizado. Não é a mesma pegada da biblioteca sobre rodas, ou da carrinha da distribuição dos jornais. Os primeiros afastam-se, secam pouco depois, perante a indiferença dos que continuam a passar na estrada. Os seguintes deixam sinais de que alguma coisa aconteceu. São notícias, são histórias, companhia diária para quem  não tem oportunidade de outras distracções. Para os fiéis da leitura, dos jornais e das revistas, estes não estão no chão como as folhas no terreiro à volta da igreja. Mas, podem perder o rasto à informação diária. Inviabilizar tal serviço é  estrangular ainda mais o interior do país, é como retirar as rodas da biblioteca ambulante. As bibliotecas são espaços necessários, alicerçadas nas cidades e vilas, na estrada, em movimento pelas aldeias. Não derrubem as bibliotecas, inovem com informação, as histórias ajudam a criar oportunidades, e não os espaços sem livros. Há colecções, fundos antigos para se retirar informação necessária ao nosso crescimento na sociedade. Nas bibliotecas, empreendedores de sucesso são todos aqueles que lêem assiduamente, empregam o tempo livre adquirindo conhecimento nas folhas impressas, por ideias, por criatividade.  A leitura espalhada nos quiosques, nos cafés, pode ser muitas vezes ocasional, mas deixa vestígios na memória de quem a lê, diagonalmente, habitualmente, as páginas dos jornais, e das revistas. Sejam fiéis continuem arrastando a informação pelas aldeias, a repartir a menos popular, nas bibliotecas.

03.12.25

A biblioteca ambulante não é uma ...


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Em Alvega, o largo do coreto pôs em condições o monte de lenha, que irá ser consumida lentamente, durante os próximos dias, ultrapassando mesmo o final do corrente ano. Por aqui irão passar as gentes da aldeia, os forasteiros oriundos dos lugares próximos. O calor libertado em virtude da incandescência, a temperatura elevada, são favoráveis a ajuntamentos, de pessoas, de conversas, de muitas histórias. A enorme fogueira será a atracção da aldeia, ao redor desta, quando a noite cai em cima da aldeia, os rostos vermelhos, do calor, da bebida, de alegria, farão da aldeia um conjunto de acontecimentos sociais. A enorme fogueira afugentará o silêncio, enxotará o isolamento, irá ser a companhia dos aldeões. Também há outras maneiras de conforto, ao longo de uma leitura, a qualquer momento, o calor das palavras surgirá, nas emoções vividas durante a passagem das páginas de um livro. As histórias por entre as folhas cheias de criatividade, acontecem, iluminam o rosto dos leitores. Embriagados pela palavras, manifestam alegria, a acção decorrente das histórias que lêem não os deixam sozinhos, há demasiado ruído nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra.  A biblioteca ambulante não é uma fogueira como as outras, é um amor que arde sem se ver.