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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

28.01.26

As pessoas não se entregaram de novo ...


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O vento forte e prolongado que assomou  na madrugada de hoje nas aldeias da minha terra, não foi clemente para algumas árvores. Abatidas pela força do vento, não morreram de pé, com dignidade como acontece com  muitas árvores. Nas aldeias o gigante, igual ao que apareceu no Cabo das Tormentas, e afundou naus, revoltou-se sob a forma de uma tempestade, muita chuva e trovejando. Assustando as gentes das aldeias, com o seu bramido de cólera. Houve quem acordasse, no meio da escuridão tentado encontrar a pequena lanterna portátil, a vela, para averiguar possíveis estragos na habitação, nos espaços adjacentes à mesma. Paredes erguidas por pedras e areia, também não resistiram à fúria do gigante. As pessoas não se entregaram de novo ao sono, a água da chuva, infiltrava-se, ultrapassado barreiras, surgindo de pontos indeterminados. A luz nalgumas aldeias ainda não deu sinal, as ribeiras não conseguem suster mais água. Há estradas a ficarem intransitáveis, dão lugar a rios improváveis, nascendo no limite da capacidade do leito das ribeiras, de ampararem as águas revoltas. A biblioteca ambulante, adaptada a deslocar-se tanto na terra como na água, não deixa os leitores sem leituras. As viagens e andanças continuam, superando atalhos e passagens, entrelinhando os espaços submersos, indo ao encontro dos leitores, das pessoas nas aldeias, árvores que merecem morrer de pé.

27.01.26

Ficam as mensagens, ...


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O rio beija ambas as margens de semblante carregado, na incerteza, quanto ao que poderá acontecer nas próximas horas. Os seus afluentes há muito que transbordaram, inundando algumas áreas cultiváveis. Por enquanto, não é nada demais relacionado com as recentes pressões dos lábios do rio sobre os terrenos que o ladeiam. Um desejo de invadir, de possuir o que lhe retiraram quando o impediram de correr livremente até ao oceano. Ou talvez um gesto de afirmação, estou aqui, sou o maior rio ibérico, não acabaram comigo ainda. Na ponte rodoviária quando o transpunha, na biblioteca ambulante, o seu caudal metia respeito, a água escura corria desembaraçada, levando à sua frente ramos robustos. A velocidade que levava, é igual a que escritor impõe à sua caneta quando as palavras saem em forma de corrente por entre as margens das folhas brancas. Não há barreiras que as obstruam, na tinta as letras transformam-se nas palavras que o escritor envia. Ficam as mensagens, os sedimentos no leito como adubo para fortalecer as raízes, dos leitores, dos aventureiros. As memórias dos que partiram das suas margens, trocando produtos por dinheiro, a saudade por conquista.  

23.01.26

Atrevida, com faculdade de agir ...


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Ao início da manhã o céu azul contrariava os constantes avisos meteorológicos colocados a circular na véspera. Um bom começo no último dia das viagens e andanças, tal não aconteceu, pois, no trajecto para a primeira aldeia do dia abateu-se sobre a biblioteca ambulante uma chuva abundante. Parecia um crepúsculo precoce, a manhã repentinamente escureceu, os faróis  acesos dos automóveis, as nuvens colaborando, manchas de uma coloração igual ao tecido subcutâneo quando sofre traumatismos. Na aldeia da Amoreira os homens estão de olhos colados na televisão, enfiados na penumbra, vendo as notícias, sobre a neve cobrindo algumas regiões do norte do país. Com o preço da electricidade elevado, o proprietário do café mantém o ambiente na obscuridade, os clientes não consomem o suficiente para a despesa luz. Mais branda, a chuva continua a cair na aldeia, não impediu o regresso dos leitores à biblioteca ambulante. Entram de rompante, sacudindo os pingos do vestuário, com necessidade de falarem da Ingrid. Ingrid é a protagonista destes dois últimos dias, nas aldeias da minha terra. Atrevida, com faculdade de agir ou mover-se rapidamente, determinada a infligir mau estar às pessoas, nas aldeias da minha terra. Ingrid causaria uma corrida às livrarias ou bibliotecas se fosse a estrela de uma história. Não consigo imaginar as inúmeras palavras que um escrevedor teria de passar a escrito no papel. A tinta necessária para encher o pequeno tinteiro da caneta, as horas a caminhar devagar com a Ingrid nas folhas de papel.

22.01.26

Não tardará, todas as outras ...


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O sol espreita em Alvega, a sua agonia compreende-se sem esforço, o céu apresenta-se cinzento. Só através dos rasgos no tecido composto por gotículas de água, resultantes da condensação do vapor de água na atmosfera, consegue esgueirar-se. No largo do coreto, estão cadeiras vazias ao redor de um conveniente monte de cinzas. Empilhadas em consequência de lenha ininterruptamente a arder nos sucessivos dias da quadra natalícia. Os resíduos e as cadeiras, esperam oportunidade para tornar a ficarem quentes, o mesmo que o homem está a conseguir na aldeia do Tubaral. Atravessando o espaço apertado, onde a biblioteca ambulante está estacionada, da sua casa para as traseiras de outra, assomando sempre com um braçado de lenha. O trajecto de um lado para o outro, é percorrido várias vezes com a lenha nos braços. A depressão Ingrid aproxima-se, traz bastante frio, é urgente reanimar as brasas quentes que sobraram da noite anterior. Não foi preciso muito tempo para a chaminé lançar em abundância fumo. Um dragão a expelir pela boca como os que são descritos nas histórias fantásticas. Não tardará, todas as outras chaminés na aldeia começarem dar a conhecer as emoções dos lares e das famílias. E assim se passa outro dia na aldeia, com a chuva impedindo-os de passar a revista à horta, ou deslocarem-se à biblioteca ambulante. Outro dia na aldeia sem leitores, sem pessoas sentadas nas cadeiras no largo do coreto. As chamas vão perdendo energia, a aldeia os abrigos, ao mesmo termo o relógio da torre sineiro da igreja, continua a estabelecer com precisão o avanço dos dias.

21.01.26

Na aldeia todos se conhecem ...


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Um homem passou à frente da biblioteca ambulante, estacionada, montado numa bicicleta, segurava numa das mãos um envelope. Olhava para os nºs de policia, fixados no topo das portas das casas da aldeia. Uma carta, talvez, dos Serviços Municipalizados, a conta da luz, seja qual for, não foi para a caixa do correio do cliente designado no sobrescrito. Por isso o olhar explorador do homem montado na bicicleta. A observação também recaiu na biblioteca ambulante, a casa das histórias, sem necessidade de identificação numérica, onde todos são livres de entrarem. Continuou pedalando pela rua adiante de cabeça levantada perscrutando a morada certa para entregar a carta. A neblina ameaça esconder as extremidades da rua, aqueles que a percorrem. Acontece o mesmo a quem inicia o trajecto desta, só muito perto dão de caras com a biblioteca ambulante. Uma perturbação repentina cobre-lhes o corpo, não previam o veículo parado, surgido das brumas. Estão numa aldeia, não é Avalon, a ilha, onde o nevoeiro denso esconde totalmente o maciço dos olhares curiosos. Na aldeia, o desejo de saber sobre as suas gentes não acontece, o silêncio é compacto, e a distância da cidade para a aldeia exige esforço para ser entendida. Indefinido é o tempo das mulheres, paradas na rua do coreto, nas traseiras da igreja, falam sem travar as línguas. Certamente algum assunto importante, que pode acarretar consequências trágicas às duas, à aldeia? Não exageremos, são decerto mexericos, da vizinha sempre com a boca suja. Do inverno dotado de extrema severidade, sobre a vida doméstica. Aos pés de ambas está um gato deitado no alcatrão gelado. Juntou-se-lhes um homem, oriundo da mercearia da aldeia, debruçou-se na direcção do gato, passou uma das mãos pelo lombo do felino. De seguida pôs-se de pernas para o ar, confiando na mão que o massajava. Na aldeia todos se conhecem, os animais com as pessoas, as pessoas umas com as outras. O viajante das viagens e andanças, também é considerado por alguns destes seres maravilhosos, as pessoas da aldeia e os gatos, consentem a presença da biblioteca ambulante. A maioria não frequenta a biblioteca ambulante, sempre que a encontram no lugar do costume, saúdam o viajante das viagens e andanças. Os gatos são iguais, uns entram, cheiram as histórias, absorvem os enredos, passam as palavras aos outros gatos da comunidade. Outros deambulam no espaço, por entre as histórias, ficam sentados nos joelhos do viajante das viagens e andanças. Aguardam ouvir as leituras em voz alta, por leitores, segui-los até suas casas na esperança de terem sucesso nalguma comida. As nuvens voltam a alterar o semblante dos aldeões, as probabilidades, do viajante das viagens e andanças.

 

20.01.26

A biblioteca ambulante faz ...


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O frio estabeleceu-se de madrugada nas aldeias da minha terra, gelou os mais distraídos, resultado do acto eleitoral para as presidenciais, no conselho. Da deliberação do inverno, rigoroso, indiferente, à reclamação das pessoas. Ajustam-se perfeitamente a afluência de leitores presentes na biblioteca ambulante, na preferência dos candidatos mais votados nas freguesias rurais. Longe da cidade, a maneira de viver das pessoas foi sempre igual até aqui, não há actividades profissionais relevantes,  nas aldeias onde interromperam o desenvolvimento, não podemos culpar sempre o tempo. O tempo são os momentos onde não houve melhorias nestas aldeias. A leitura nestes lugares não está enraizada, são muito pouco os que gozam os prazeres da leitura. Enganados, revoltam-se, colados nas palavras fáceis, às mãos cheias nas redes sociais, desinformados da realidade, agasalharam-se na mentira. Admitindo como verdadeiro a intenção da ilusão,  uma sedutora que os poupa da tristeza, e da solidão. A biblioteca ambulante faz o melhor que pode, as pequenas bibliotecas, fixas em algumas freguesias foram descontinuadas, assim como as escolas, as crianças passaram a frequentar centros escolares, com bibliotecas. Não se vêm as crianças nas ruas das aldeias, os avôs, os irmãos mais adiantados na idade, deixaram de os levar e trazer. Agora vão de autocarro, táxi, para o centro escolar mais próximo da sua aldeia. A pouco e pouco vão tomando o gosto por outros lugares, a permanência nas aldeias será cada vez mais escassa. O sentimento de sublevação irá manter-se enquanto continuar o desrespeito pelas aldeias e as suas pessoas.

15.01.26

Regressar às construções alicerçadas ...


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A quantidade de chuva caída nas aldeias da minha terra devia ser armazenada em depósitos que não deixassem passar a água. Salas, ou cisternas, onde se encontra água para utilizar na rega dos campos, dar de beber a quem tem sede, repositórios de águas pluviais. Bibliotecas com água, ao serviço das populações, dos animais domésticos e selvagens. Quando actualmente o assunto mais corrente é a seca que o planeta atravessa, a escassez de água. Faz sentido aproveitar aquela que ainda cai. Uma dádiva que só as bibliotecas conseguem dar continuidade. A sobrevivência de todos nós está nestes edifícios, guardiões das águas vindas das nuvens, dos trilhos, cheios deste líquido incolor e transparente, que rasgam a charneca. Das nascentes, debaixo da terra, onde rompe cada vez menos. Do pensamento racional da humanidade, oriundo na antiguidade. Regressar às construções alicerçadas na água, como se fez nos primeiros tempos, essenciais para a irrigação e abastecimento urbano. Resistentes à passagem do tempo, demonstrando a importância de recolher e depositar a água e o pensamento.

14.01.26

A estrada é uma distração diária ...


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Finalmente o sol desprendeu-se das correntes que o prendiam, abriu os braços, envolveu as pessoas sentadas na esplanada. A biblioteca ambulante fez o resto, cercou-os com os jornais, deu-lhes a energia das palavras destinadas a informar. Apaziguou as vozes sempre ásperas destes fregueses, habituais no café. Lá dentro há outros, concentrados no jogo de cartas, não perceberam que têm os jornais à disposição, espalhados em cima das mesas. Hoje o grupo de pessoas na esplanada é superior ao frequente, nas tardes em que a biblioteca ambulante  está presente. Vieram dar as boas vindas ao sol, palavrear uns com os outros, diálogos sem sentido, misturando as conversas. Um momento animado  à beira da estrada, com os automóveis a transitarem ininterruptamente nos dois sentidos. A estrada é uma distracção diária para muitos destes, reformados, desempregados, vêm ver a via de comunicação terrestre. Imaginando viagens, irem por aí adiante num automóvel, conhecerem o resto do mundo. Segurando nas mãos uma história, o volante que os guiará na direcção da felicidade. A realidade é outra, a garrafa que seguram na mão, o cigarro na outra, seguem numa estrada perigosa, a única onde conseguem circular agora.

 

 

 

 

 

 

13.01.26

Não manipulo o tempo ...


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Tenho saudades do sol, há vários dias que este não consegue ficar firme e estável nas aldeias da minha terra. A sua ausência tem consequências nas viagens e andanças, são poucos os leitores que vêm à biblioteca ambulante. As histórias correm o risco de ficarem deprimidas, constantemente, sem se mostrarem ao exterior, à privação dos toques carinhosos dos leitores. Quando as seleccionam, abrindo as páginas e deixar sair os ecos da parte mais interior. Depois, passarem para outros lugares, com as palavras a progredirem no conhecimento de quem as lê. Os personagens a darem o seu melhor ao longo das folhas estendidas, flutuando no imaginário dos leitores. Não manipulo o tempo, não tenho capacidade de prever os fenómenos naturais. Controlo as presenças e ausências dos leitores. Sei, se não vierem nos dias cinzentos e chuvosos, virão nos dias de sol, apressados, desculpando-se nas tarefas agrícolas, que os seguram na progressão da leitura. Para estarem presentes sempre que a biblioteca ambulante permanece nas aldeias.

08.01.26

É o fogo que não se vê ...


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Hoje, o dia está cinzento, sem uma réstia de sol não há vivacidade nas aldeias, ficam de parte os leitores da biblioteca ambulante. Os restantes estão em casa, sei disso, o ar é denso, o odor da lenha em combustão impregna os lugares onde a biblioteca ambulante permanece. Originária do sobreiro, arde em todas as lareiras, nas aldeias. As chaminés estão o dia todo a vomitar fumo, sem parar, parecem comboios alimentados a vapor, cujas fornalhas engolem toneladas de lenha para gerar o vapor nas caldeiras. Parece fácil, não é, aproveitar ou abater, partes lenhosas de árvores sucumbidas por fenómenos naturais, aniquiladas pelas ambições desmedidas de riqueza. Transformar em pequenas porções de modo que caibam nos vãos abertos nas paredes para o efeito. Encher até não caber mais, causando o enjoo e o lançamento em abundância do fumo pelo pescoço da chaminé, expulsando-o depois pela cabeça. É o fogo que não se vê,  o amor tímido,  histórias privadas. Escondidas por detrás das paredes brancas, erguendo-se nas planícies, assentes nos vales, cercadas pela charneca.

 

 

 

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