Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

24.02.26

Actualmente são memórias ....


historiasabeirario

IMG_20260224_152114.jpg

Na aldeia do Pego, no largo onde a escola continua a segurar as crianças, o lugar habitual da biblioteca ambulante, está ruidoso. São vários os veículos a desembocarem no largo, numa manhã em que o sol só agora dá sinais de vitalidade. O rio revela o leito dramático, com rochas compostas por arestas afiadas. No passado, o conhecimento profundo, e domínio na navegação, os arrais transpunham estas armadilhas naturais, levando a bom porto as mercadorias. Actualmente são memórias navegando nos rios do céu. Sem obstáculos opondo-se  à viagem escrita, a biblioteca ambulante avança, deixando histórias pelas aldeias da minha terra. Marcando o território, as pessoas, movimentando-se em percursos estabelecidos com objectivos sociais. Contribuindo na formação dos indivíduos, preparando-os para o exercício da cidadania, através da leitura. A primavera estabeleceu-se, inaugurando um espaço de tempo, no qual voltamos a ser felizes. As esplanadas defronte dos cafés nas aldeias da minha terra, mostram a felicidade nos rostos das pessoas. Estão comunicativas, e despachadas nos actos. A parte mais interior destas não consigo ver, calculo que uns estão melhores que outros. Disfarçam, os dias arrebatados dão-lhes cobertura, puxam-nos para seguirem em frente, não há tempo para desânimos. Frequentem a biblioteca ambulante, viagem nas páginas das histórias, ganhando conhecimento. Com perícia saberão sair do lodo com que a vida às vezes os surpreende.

23.02.26

Contagiam as pessoas ...


historiasabeirario

2026_0223_11384000.jpg

O calor que se faz sentir nas aldeias da minha terra, convida as pessoas, os leitores da biblioteca ambulante, a saírem de suas casas. O jornal é lido de uma ponta à outra, sem pressas, enquanto as histórias se demoram na aldeia. Distraindo quem gosta de ler, ficando estes sem saberem o caminho a seguir quando acham linhas cheias de palavras, deslizando umas atrás das outras, sobre as páginas. São quilómetros inumeráveis nas estantes da biblioteca ambulante, de mensagem, de opinião,  de discurso, de afirmação. Na paixão, nas aventuras, na fantasia, envolvidos nos géneros literários. Há vibração em todo o lado, os pássaros não se cansam de chilrear, o rosto das pessoas está diferente, anunciam um tempo novo. São reedições, nos modos de proceder habitualmente, oriundas de práticas antigas. Quando o tempo deixa para trás os dias intempestivos, os campos sorriem, estão alegres, com flores silvestres em todo o lado. Contagiam as pessoas, disponibilizando as entranhas para desenvolver a semeadura e a plantação. 

 

 

20.02.26

A sonhar com a lampreia e ...


historiasabeirario

2026_0209_18113000.jpg

Outro dia com céu azul nas viagens e andanças. Um gato refastelado no parapeito, numa das muitas varandas de um prédio, dum bairro periférico da cidade, tira proveito dos raios do sol, aquecendo o pêlo comprido, matando saudades dos dias primaveris. No bairro, não há ninguém por perto, só os automóveis transitam apressados. Com os condutores atentos na estrada rumando a vários destinos. A biblioteca ambulante apesar da porta grande aberta, não demove as pessoas, saírem de casa, mesmo aquelas que espreitam pelas frestas das janelas, ou debruçadas nas varandas, a espiarem as histórias. Não quero pensar nas palavras que nunca hão-de ler, o mais importante é saberem sobre as vidas alheias, observando, escutando, às ocultas. Na badana dos dias, independentemente da capa cinzenta ou azul. A biblioteca ambulante segue no tabuleiro da ponte rumo às aldeias fundadas além-Tejo, por homens e mulheres. Sustentadas nas palavras transmitidas aos seus filhos, continuam em pé, embora perdendo raízes. Da ponte rodoviária, vejo a outra, onde os comboios ultrapassam o rio, impedidos de a passar, desde o desmoronamento de terras. O acidente ocorreu lá mais par cima em terras da Beira Baixa, deixando assim em terra por tempo indeterminado alguns que se deslocam frequentemente para garantir a sobrevivência. Enquanto no outro lado, a construção avança na nova estrada de ferro, que vai ligar num abrir e fechar de olhos as principais cidades do país, levam tudo à frente.  Ainda pior que o recente vendaval que assolou o centro do continente, para o comboio de alta velocidade poder deslocar-se sobre os carris. Tenho saudades de ouvir o comboio a dizer: pouca terra, pouca terra, pouca terra. Não é novidade nenhuma, sabemos no interior, nas aldeias da minha terra, que o progresso não tem pernas para andar. As águas do rio e das ribeiras estão de regresso aos cursos, dos quais se desviaram e prepararam um cocktail, deixando atordoados os campos. Os raios do sol batem-me nas costas, enquanto na esplanada do café O Farias II, junto à estrada, na aldeia da Casa Branca, há quem esteja a ferrar o galho. A sonhar com a lampreia e o peixe graúdo que o rio deixou ficar, desculpando-se assim do prejuízo causado.

 

19.02.26

Finalmente o céu surgiu ...


historiasabeirario

IMG_20260219_160149.jpg

As flores amarelas, mais conhecidas por azedas estão em todo o lado. Na beira da estrada guiando a biblioteca ambulante nas viagens e andanças, nos prados enfeitando o pasto dos animais, aos pés das oliveiras aquecendo-lhes as raízes. Finalmente o céu surgiu azul, com o sol a ver-se no horizonte, enquanto iniciava a subida. Não me lembro do último dia em que vi a claridade que precede o nascer do dia. Nunca o sumo de laranja me soube tão bem ao pequeno-almoço, partir para outras viagens com letras pelas aldeias da minha terra. Encontrar pessoas no lusco-fusco da idade, com vontade de se manterem acesas, como as velas ateadas ao vento. Levar histórias, com maneiras diferentes de ler, com outros arranjos na informação. Uma manhã desigual, equilibrando vidas apeadas, esperando o último comboio.

18.02.26

Os leitores não têm qualquer ...


historiasabeirario

2026_0218_15283000.jpg

Os campos que seguem junto da biblioteca ambulante nas viagens e andanças converteram-se num brejo. Estão alagadiços, estarão incultos durante os próximos tempos, projectando muita incerteza nos agricultores que os exploram. Não vai ser fácil daqui para a frente, até nós, consumidores, iremos ter saudades de uma alface fresca, de um tomate, numa salada, de boas batatas a guarnecer um prato de peixe ou carne. Os leitores não têm qualquer obstáculo, a biblioteca ambulante percorre assiduamente as aldeias incluídas na itinerância. Nas estantes, a vegetação rasteira são palavras inundando conhecimento num território pobre em leitura e ledores. As histórias deixam correr para fora as palavras, causando cascatas nas prateleiras, nas quais os leitores se socorrem, durante o afastamento do contacto com os outros. Da condição do lugar remoto onde se encontram, com poucas pessoas e locais onde possam relacionar-se. As histórias, ou caminhos de água, onde abundam as melhores palavras, nestes dias de regresso à normalidade são bem vindas aos que gostam de ler, molharem os pés, na página alagada de lágrimas escondidas, nas aldeias da minha terra.

16.02.26

Voam de um lado para o outro ...


historiasabeirario

2026_0216_14372700(2).jpg

Preenchidos com os últimos acontecimentos, não conseguimos, simplesmente observar a primavera a instalar-se. Nas aldeias da minha terra, olhando atentamente, consigo ver alguns haveres que trouxe, necessários para a longa estadia da estação. O mais visível são a cor, das flores das acácias, de algumas plantas silvestres, no trajecto, atravessando a charneca em direcção às aldeias. Os recentes episódios naturais transformaram as pessoas em andorinhas. Voam de um lado para o outro procurando equilíbrio emocional, debaixo desta mortalha cinzenta impedindo o sol declarar-se à primavera. A ausência de árvores robustas ao longo da soleira da porta que separa o litoral do interior, deixam abandonadas as regiões deste último. Com árvores vigorosas, firmando longos ramos, protegendo as clareiras, intermediando ambos os lados da porta, as pessoas da parte interior, toleravam melhor o que lhes aconteceu. Árvores nas quais pudessem apoiar-se, aguentarem a velocidade da corrente do rio, o ódio do vento. Estamos a tempo de plantarmos árvores destas, organizadas, com fins sociais, económicos e políticos. Estabelecendo as próprias normas nas várias parcelas do território nacional, onde a biblioteca ambulante encontrasse histórias de esperança.

13.02.26

Criar mudanças urgentemente, ...


historiasabeirario

2026_0213_16081800.jpg

Abateu-se nas aldeias da minha terra um enxame de palavras, protestando sob a forma de chuva minuciosa. Todos os pormenores caem sobre as nossas cabeças, os que não damos importância, continuamos a praticar inconscientemente, os que sabemos que terão consequências, mas acontecem aos outros. A admoestação do planeta não tem limites, desta vez, fomos nós a receber a manifestação negativa, quando continuamos a tratar mal a nossa Terra. A crise climática entrou-nos pela casa adentro. A alteração repentina da meteorologia nas aldeias da minha terra, trouxe inundações, derrocadas contínuas nos caminhos das viagens e andanças. É necessário repensar projectos, alterar a ordem destes, dar prioridades. Criar mudanças urgentemente, de direcção na principal via urbana, saturada há demasiado tempo, no período máximo do fluxo automóvel. Deixarmos, e trazermos os filhos, das escolas secundárias, no mesmo horário, no único acesso possível, oriundos das vias a sul e norte destas, requer uma grande capacidade de suportar contrariedades. Com a única variante circundante da cidade, sistematicamente interrompida por camadas de torrões de terra, deslizando da íngreme encosta do castelo. O trânsito tem de fluir pela principal via, correndo por aí em ambos os sentidos. Aumentando o movimento automóvel já saturado, com agravante de cruzarmos com camiões, camiões-cisterna, camiões-reboque. Tantos outros desorientados no caos urbano. Noutro rumo, a biblioteca ambulante permanece no largo do café Areias, na aldeia da Barrada, longe do alvoroço, da passagem urbana de um lado para o outro. No lugar onde não se passa nada, mas sempre que aqui se demora, faz a diferença. Colocando à disposição jornais no café, aos poucos que gostam de ler, histórias para ultrapassarem a contestação do planeta.

06.02.26

O homem é imaginável...


historiasabeirario

2026_0205_12351900(2).jpg

2026_0205_17454900.jpg

As águas do rio continuam a correr impacientes, fogem da presilha de betão que as seguram constantemente. Não gostam de ficar aprisionadas, amarradas nas depressões de terrenos, cercadas por encostas muito íngremes. A jusante espera-as a liberdade, levando com elas as memórias destruidoras, das vivências, das famílias, das gentes das aldeias da minha terra. A situação difícil da qual parece não haver saída possível, mantêm-se. Há uma interrupção no tempo, nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. Um silêncio, imposto pela incerteza do que poderá vir ainda. Um capítulo por escrever, pensamentos arriscados de mostrar. Nenhum mata-borrão conseguirá absorver totalmente o líquido incolor e transparente que se abateu nas páginas das aldeias da minha terra. Ficará para sempre uma mancha, lembrança tranquilizadora, o pior já passou. Foi assim no passado, continuará nos dias vindouros. A natureza é imprevisível, o homem é imaginável.

04.02.26

As histórias mergulham ...


historiasabeirario

2026_0204_15414700.jpg

Nas aldeias da minha terra a chuva não desiste facilmente, reduz as possibilidades dos leitores de recorrerem com regularidade à biblioteca ambulante. As histórias mergulham numa solidão inferior há dos leitores, as palavras não conseguem estar à tona, na corrente de águas pluviais. Salve-se quem puder, dizem as letras umas para as outras, separando-se das palavras, nadando na direcção das margens. As páginas brancas não dão leitura nenhuma, instala-se nas aldeias da minha terra um despovoamento. Insatisfeito, não sei quando terei outra vez as histórias cheias de recheio, com as palavras certas na sucessão de acontecimentos nos enredos. A precipitação não quer renunciar, o céu que cobre as aldeias da minha terra, é um mar de cor cinzenta, aberto, sem espaços limpos que perturbem a pluviosidade. No itinerário entre as aldeias, acompanhando a biblioteca ambulante, o campo, é o lugar onde as enormes árvores tombadas em consequência da robustez do inverno que estamos a viver, encontraram a tranquilidade para se misturarem no solo. Fertilizando-o,  como as palavras descontraidamente fazem quando se envolvem nas folhas brancas. Há intimidade entre o leitor e a história.

.