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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

  O pequeno campo de melancias, onde algumas sobressaem pelo tamanho não passa despercebido ao viajante das viagens e andanças. É cobiçado pelo seu olhar sedento, pela vontade de uma fatia fresca do fruto, imóvel no meio das plantas. Nas aldeias alternando a continuidade das estruturas em alvenaria,  deparo sempre com pequenas parcelas de terra cultivada a envolver, defronte a áreas habitacionais, hortas improvisadas. Com o tempo ganharam definitivamente os espaços ocupados por (...)
  Curvado para baixo olhando o futuro sem perspectivas, sabendo se corrigir a postura verá o lugar onde o tempo que está por vir tem respostas. Não é exemplo único há muitos mais  nas aldeias da minha terra, embaciados pela bebida não querem saber de mais nada. A caixa não traz mensagens novas do tempo, só a sua sombra sobressai quando está sol, depois fica tudo cinzento novamente, não acontece nada. A biblioteca ambulante e as histórias não os conseguem remover da (...)
Plantam-se cebolas na horta, seduz-se na biblioteca ambulante as pessoas a estabelecerem-se como leitoras. Numa e noutra dão-se esperanças, alimentos que trazem vigor e aberturas num horizonte desconhecido. Escreve-se na terra as palavras manteúdas, lêem-se na biblioteca ambulante outras pelas quais nos viciamos. Ambas promovem a evolução, o recomeço, a paisagem de um lado e outro da estrada está cheia de uma nova vida a despontar. As crias recém nascidas nos rebanhos não (...)
Nos confins do território das viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, a roçar o norte alentejano, na berma da estrada, a biblioteca ambulante reencontra os pastores apoiando-se no cajado a observar os seus rebanhos. Junto a estes os cães vigiando o movimento dos animais, a abundante erva trava-os de se desviarem dos locais escolhidos para permanecerem. O floreado silvestre vai conquistando a pouco e pouco o tapete verde, fico curioso por saber quem ganhará a (...)
As nuvens estão a aprisionar a tarde na cidade que acolhe a biblioteca ambulante. De manhã os ares campestres trouxeram leitores, a proximidade com as áreas de comércio de grandes dimensões, de restaurantes com refeições preparadas e servidas rapidamente não traz mais leitores. Infelizmente abordam com mais frequência o Centro de Saúde e a Clínica Médica, ambas coladas ao local espaçoso onde as histórias habitualmente estão acomodadas. Não sabem elas e eles que as (...)
As cegonhas perfilam-se nos postes destinados a sustentar os fios das telecomunicações ao longo da rua principal da aldeia, aos pares, nos ninhos, batem as mandíbulas rapidamente. Um sinal de alerta, um aviso da presença da biblioteca ambulante à população, presumo, seria bom se assim fosse. Habituadas à  passagem das histórias, lentamente de uma ponta à outra da rua, na qual estaciona defronte do mini-mercado ligado ao único café da aldeia. Os homens encostados ao balcão (...)
O dia não trouxe nada de novo, nem o vento com os murmúrios  mais acesos consegue agitar a parda manhã. O café na única rua da aldeia é o local de reunião das pessoas que desafiam a chuva, quem  surge vem com passo apressado e molhado, a inutilidade do guarda-chuva é visível, apesar de o trazerem. Inicio de semana com despedidas e aspirações de um bom Natal e um Novo Ano cheio de tudo de bom. Os sorrisos estiveram presentes, as lágrimas surgiram sem esperar, de quem perdeu (...)
As cegonhas regressaram, é impressionante observa-las equilibrando-se nos ninhos situados no cimo dos paus que ajudam a passar os fios da electricidade, das comunicações, cravados no solo. Nas chaminés, nas torres sineiros das igrejas, à beira da estrada, no campo juntamente com os animais procurando comida, chegam de África, atravessam o Sahara a desejar que os ventos no estreito de Gibraltar estejam de feição para o transporem até às aldeias da minha terra. São viajantes do (...)
Foi a mandriar que o sol se levantou, o rio lançava vapores confundindo os mais distraídos que o atravessavam na ponte para além Tejo. No campo, sob as oliveiras os panos verdes recebem azeitonas expulsas pela violência das varas a bater na ramagem, homens e mulheres, corcovados, apanham  os bagos pretos. Segundo estes sábios, não está a ser um ano de muita azeitona, a pouca que resistiu a um ano difícil desenvolveu-se com as últimas chuvas, subitamente ficaram mais volumosas. (...)
A estrada me leva e me traz, não cálculo os quilómetros percorridos com sol e chuva, toldado nas névoas matinais, fatigado no crepúsculo. Uma estrada fabulosa, cujo início em Trás-os-Montes se prolonga até ao Algarve. Nos dois sentidos gente ousada, determinada a transpor a distância.  Nas motas, nos automóveis em bicicletas, a pé, estes exploradores, talvez um dia criadores de histórias de viagens, encontram, e conhecem outras tantas nos lugares, aldeias e cidades (...)