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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

A mulher velha caminha pela rua, o vento sopra no que resta dos ornamentos da festa de verão, criando a única sonoridade na aldeia. É evidente que não se dirige na direcção da biblioteca ambulante, escapa-se por outra rua, com as histórias na sua frente, não tem curiosidade de as conhecer, ou não as viu. A horta, puxa-lhe os pensamentos para o que resta dos frutos presos nos tomateiros, os cachos das uvas por colher, ou a perda de alguns destes frutos, derivado da chuva intensa (...)
Os automóveis ocupam os lugares destinados ao parqueamento no centro da aldeia, a biblioteca ambulante não teve outra solução do que improvisar um espaço para permanecer no Souto. Em pleno mês de Agosto, os filhos da terra regressaram para gozarem alguns dias das férias. Bronzeados pelo sol das praias onde se mantiveram nas primeiras semanas, passeiam-se na rua mais importante da aldeia.  Os gigantes chapéus na esplanada do café,  protegem-nos do sol atrevido enquanto (...)
  Outra vez no largo do coreto na aldeia do Souto, o café está fechado, na porta, um letreiro informa os clientes da abertura somente às 15h30m. Quando entrei na aldeia via-me a beber um café após estacionar a biblioteca ambulante, não aconteceu, fiquei desapontado sem saber como recuar a sonolência a torturar-me. No dia mundial da população esperava ver mais pessoas no largo, na esplanada do estabelecimento Mourisco Café. O período é propício para aumentar a densidade (...)
O coreto na aldeia do Souto  enfeita o pequeno largo, relembra aos insensíveis, a importância que tiveram estas estruturas nas povoações do interior do país. Ao seu redor, escutavam e bailavam debaixo do som das bandas filarmónicas, dos acordeonistas a tocarem sem pararem música tradicional. Festas simples para gentes sem complicações, trabalhadores rurais descarregando emoções, e canseiras de meses de trabalho do nascer ao pôr do sol. Aqui as pessoas tiram vantagem da (...)
  Indiferente ao silêncio, ao chilrear das aves, há ausência, observo as pequenas parcelas de terrenos colados às casas, as primeiras batatas vêem a luz dia. Os conjuntos de tubérculos amontoam-se, ocupando o espaço próximo da biblioteca ambulante. A enxada manuseada por quem sabe escrever e ler a terra retirou-as do subsolo. Estas palavras são imprimidas com violência, com esforço, ultrapassando muitas vezes o necessário. Já não há muitos escritores assim, a saga a (...)
Os estudiosos da meteorologia prevêem precipitação para amanhã e sábado, observando o céu não vejo qualquer sinal disso. As crenças populares transmitidas oralmente fazem-nos acreditar na possibilidade de acontecer pluviosidade. Os sintomas corporais, uma dor nas costas, na perna, ou uma porta da nossa casa, sem mais nem menos começa a ranger ou a fechar com dificuldade, tenho o exemplo do som do apito do comboio. Bastante afastado, da minha habitação,  percorrendo a linha (...)
A nebulosidade acompanhada de alguns chuviscos não promete que possa acontecer a leitura da história com as pessoas da aldeia do Souto. O palco está pronto a ser usado para quem quiser aproximar-se da biblioteca ambulante e ouvir, Obrigado, uma história de vizinhos,escrita por Rocio Bonilla.  Somente os pássaros se ouvem na primavera adormecida, o cheiro libertado pelas flores silvestres também chega empurrado pela amena aragem, faltam as pessoas para ficar tudo perfeito. De um (...)
  Na aldeia do Souto o frio e a chuva propagados ainda não chegaram, o sol  envolve a aldeia, o azul  do céu é uma auto-estrada a perder de vista. A primavera continua a manifestar-se nos pequenos pormenores. Os leitores ausentes pela força maior de manterem as hortas perfeitas, sem ervas invasivas, canteiros alinhados, geometrias desenhadas com o apoio das alfaias agrícolas rudimentares. Arquitectos primitivos desenhando mentalmente e construindo estruturas onde as plantas se (...)
A buzina da carrinha do padeiro chamou as mulheres que surgiram do nada. Não sei se foi magia, mas a presença destas segurando os sacos nos quais o padeiro mete o pão fresco estavam mesmo à minha frente no largo, onde a biblioteca ambulante permanece e o padeiro espera pelas clientes. São os trilhos do pão, este alimento apareceu há muitos anos atrás, antes da escrita acontecer, das cidades se erguerem. Depois vieram os caminhos do pão  moldados por mercadores, por guerreiros, (...)
17 Jan, 2023

Deixou saudades ...

As rajadas do vento sacodem a biblioteca ambulante, na Atalaia, aldeia altaneira onde a vista se estende até mergulhar nas águas do rio Zêzere na albufeira do Castelo do Bode. Só com abundantes roupas a cobrir o corpo se consegue percorrer as poucas ruas da povoação, é o que usam as pessoas na aldeia da cabeça aos pés. O sopro do vento dobra as árvores de tal maneira que as copas não desistem de tocar no chão, estão assim de um lado para o outro sem conseguirem enfrentar o (...)