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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

No pátio da escola os gritos das crianças ecoam no largo e nas ruas confinantes. As palavras são desconhecidas ainda para alguns destes, ali a correrem atrás uns dos outros, aprisionados no tempo, fogem. Só agora começaram a conhecer as letras, quando acordarem das brincadeiras já saberão entrelaçar e a compreender o alfabeto. Da escola alcançarão as palavras coladas na biblioteca ambulante, depois a curiosidade impulsionará a vontade para se acercarem das histórias. As (...)
O espaço no centro da aldeia está a ser cuidadosamente limpo, as ervas daninhas são arrancadas por alfaias mecanizadas, o restante acumulado na rua é afastado violentamente pelo sopro de outra máquina. Substituta de Éolo, o Deus do vento, esta é manobrada por um homem, é possível que seja Zeus, pai dos deuses, só tem de fazer pressão com um dedo num botão, depois os mecanismos recebem a energia e o soprador de folhas ganha vida, os quatro grandes ventos fazem o resto, levando (...)
  O calor afastou os locais do largo da aldeia, protegem-se no interior do café, sob a corrente de ar frio que sai da máquina sem se cansar de o bafejar. Só assim  conseguem enganar a temperatura quente em vésperas de fim de semana. Aproximaram-se três pessoas a espreitar a biblioteca ambulante, a mais velha desses visitantes procedia como uma guia turística, explicando aos mais novos a função do veículo. Nunca a tinha visto, muito menos no interior da biblioteca ambulante a (...)
O fio, a linha na qual transponho distâncias, equilibrando-me diariamente a chegar ao exterior, partiu-se. Fiquei no lado da criação, na folha branca por escrever. Actualmente é complicado perder a engrenagem, habituado à produção súbita dos pensamentos, da instantaneidade de comunicar observações e oralidades dispersas, afogo-me no processo onde aprendi a comunicar. Perdi aquela frouxidão de deixar para depois, há tempo, locais próprios para distender memórias, as ideias (...)
    A tarde quente afasta as pessoas do largo e os leitores da biblioteca ambulante, mesmo a internet não está  pelos ajustes com o viajante das viagens e andanças. O trabalho espontâneo está ameaçado ou melhor, estragado, recorrerei à esferográfica BIC, um objecto a democratizar a escrita desde 1950. Nem as sombras a conquistarem espaço ao largo atraem as pessoas, somente os pássaros a voarem em liberdade e a cantarem a independência absoluta se deixam observar e (...)
Há quem tenha crescido numa família numerosa, e não tivesse oportunidade de aprender a ler. Um tempo cruel, onde se fugia de casa para ir à escola, ser alcançada pelo progenitor e ter de voltar para casa, ser usada como ama de companhia dos irmãos mais novos. Felizmente existem as bibliotecas ambulantes, os planeamentos e pessoas interessadas em minimizar os estragos de uma sociedade descontinuada pela autocracia, fome e guerra. Ainda assim amputadas de saber unir as letras, (...)
  Uma frota de nuvens navega no oceano celeste, impulsionadas pelo vento estas viajantes não esgotam a resistência, atravessando sempre as aldeias da minha terra. Gordas, extensas, pequenas, traçando diversas formas, inquietando a imaginação de quem as observa atentamente. Talvez sejam histórias semelhantes aquelas da biblioteca ambulante, trazendo vida às pessoas nas viagens e andanças. Água e palavras, ambas matam sedes e solidões, diferentes na assimilação, iguais no (...)
A leitura em voz alta não interrompeu o ponto de Cres.ser, o dedal, as agulhas e novelos, a escrita iniciada antes de saberem ler e escrever nos cadernos da escola, a ouvirem e lerem a história. A partida foi o Cão como nósdo autor Manuel Alegre, no tempo presente uma história para ser lida por quem faz leis, por quem tem animais, por todos nós.  O frio matinal ficou na rua, as palavras ecoavam na sala através das falas, ritmos diferentes transmitiam as emoções escritas, os (...)
O frio impôs o uso de mais agasalhos hoje de manhã, todas se lamentavam da temperatura baixa, foi a primeira vez neste inverno que ouvi tais desabafos. Ainda assim a insensiblidade climatérica não foi impeditiva às leitoras de conviverem um pouco com as histórias. Acaloraram as mãos a vasculharem nas lombadas na tentativa de descobrirem um autor preferido, folheando as histórias de uma ponta à outra, captando fragmentos motivadores para retirarem as histórias das prateleiras. De (...)
O som da moto-serra empunhada pelo homem equilibrando-se no escadote a cortar ramos de uma árvore absorve a tranquilidade da tarde na aldeia. Este desafio à quietude  do lugar chamou a curiosidade, esta, trouxe as pessoas ao largo, pô-las a falar alto umas com as outras para se perceberem, mas sempre com os olhos colocados no trabalho realizado na árvore. Talvez entendam do assunto, acredito que sim, estamos num território rural, ou eventualmente não concordam com a separação, ou (...)