A aldeia está despojada da ...
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A neblina actuou como um mata-borrão ao início da manhã, absorvendo a abundância dos desânimos da noite. A manhã despiu o pijama estampado por nuvens, deixando o sol abraçar a nudez insegura perante esta situação inesperada. A aldeia está despojada da roupa que a aquece, sem pessoas, e leitores, onde andarão as gentes da aldeia. Só os pássaros se fazem ouvir com o som esfuziante da cantoria. Voam de um lado para o outro, ao redor da biblioteca ambulante, procuram letras para escreverem histórias novas, casas nas árvores, berços favoráveis ao desenvolvimento dos pintos, das pessoas. Páginas brancas construídas por palavras de carinho e ânimo para o que vem aí, incógnita, insegurança, a indeterminação dos pensamentos no tempo actual. O importante é continuar a voar, a sonhar pelas histórias dentro, abrigos para espíritos audaciosos e fracos. A tília, árvore que abriga a biblioteca ambulante com a sua sombra durante a permanência na aldeia das Bicas, não tem ainda o que vestir. A sua floração surge no verão, o seu perfume também é muito agradável, um lugar muito bom para os leitores renovarem histórias. A primavera cooperará com a cobertura dos ramos, realçando uns mais que outros, criando um modelo arrojado, mantendo a sombra a proteger a biblioteca ambulante do sol. Os leitores continuam demorados, uma, não vem de certeza, vi-a na paragem dos transportes públicos, dentro do limite urbano da cidade, afastada da sua aldeia. Os outros, não sei onde andarão, talvez recuperem o atraso, na plantação dos tomateiros, das alfaces, dos pimenteiros, nas hortas que possuem. A chuva das últimas semanas encharcou os terrenos, seria um crime afogar as raízes das plantas. A biblioteca ambulante tem as portas abertas, a temperatura assim o exige, as histórias têm assim mais oportunidade de seduzir novos leitores.