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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

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Ontem, aconteceu um episódio com a biblioteca ambulante, ao deixar o rasto das histórias, as últimas casas, na derradeira aldeia do dia. Atento à estrada na condução da mercadoria valiosa, o olhar do viajante das viagens e andanças é interrompido momentaneamente na ligação ao destino. A impaciência das luzes projectadas a partir de uns faróis de uma carrinha pick-up, aproximando-se rapidamente do espelho retrovisor lateral da biblioteca ambulante. Ao tentar perceber a perseguição que estava a acontecer, o primeiro impulso foi abrandar a velocidade até parar. A carrinha perseguidora desviou-se na direcção de um trilho, parando o motor imediatamente. Um homem sai apressado com um livro na mão, ainda sem entender, foi tudo muito rápido, encarei finalmente a razão para o alarmismo rodoviário. O homem esbaforido, a proferir palavras de desespero e alívio ao mesmo tempo disse-me, avistei-o ali em baixo estacionado, fui a casa buscar o livro da minha mulher para o entregar na biblioteca. Cheguei cá acima e já não estava, dei pela carrinha a desaparecer na curva. Foram estas as sua palavras, acalmei-o, não haveria problema se não conseguisse alcançar a biblioteca ambulante. Explicou os motivos das sucessivas ausências nos dias da presença das histórias na aldeia. Estão em Lisboa, nem sempre a visita à aldeia coincide com a da biblioteca ambulante. Ontem foi esse dia, e o marido da leitora, quase falhava a devolução da história.  Hoje, a chuva e o frio são dois amantes envolvidos nos lençóis da manhã, praticam o amor desprovidos de cuidado, há algo de violento na maneira como se comportam no leito atmosférico. O som dos gemidos, do vento, e da chuva, ecoam nas aldeias da minha terra. Arrebatam a ansiedade dos leitores perante a aproximação da trovoada de histórias na biblioteca ambulante. A algazarra das palavras reunidas perante a presença dos leitores, fechou-se no final da história. Quando o prazer terminou com a intromissão do sol, de um momento para o outro a roupa da cama, acenava, chamando as nuvens, aprisionada pelas molas, no arame do estendal.

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