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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

12.05.25

A morte da primavera está para breve...


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A estrada rompe o tempo pelas aldeias adentro, são várias as mulheres defronte das casas, segurando sacos de pano, ou plástico. Esperam pela carrinha do padeiro, mexericam, agarram o sol, antes que fique tapado pelas nuvens. Os telhados das casas do largo, brilham debaixo dos raios do sol, na aldeia do Tubaral. Os cães ladram às nuvens, estas não se amedrontam com os latidos. Não se vê ninguém, há esperança, a vinda de uma leitora pode ser verdade. A laranjeira continua cheia de fruta, não são colhidas, são azedas, não sei, está uma no chão, no largo. Caiu quando a biblioteca ambulante estacionou, generosamente a árvore ofereceu-a, foi o embate, motivado pelo estacionamento. As nuvens prosseguem, esforçam-se para encontrarem o lugar certo para largarem a água que trazem. A morte da primavera está para breve, as águas das ribeiras, desenfreadas, não param de correr no regaço da planície. Avinhando o fim trágico, dos campos de flores a perder de vista, da erva por amadurecer, estão num pranto. O mesmo colo que as palavras têm na superfície branca da folha, após um longo período de elaboração na mente do escritor. Para desaguarem nas mãos dos leitores, afogarem-se nas lágrimas destes, emocionados, no fim da história. A aldeia do Monte Galego não me disse nada. Um gato à beira da estrada acenou-me, talvez, seja imaginação minha, o aceno que me fez. Não é um dos gatos leitores da biblioteca ambulante, pode vir a ser, basta ir ao encontro da biblioteca no largo do coreto, em Alvega. Finalmente entrou um leitor, não foi o gato, foi o Fernando, trás um saco de papel, cheio de livros. Na despedida, o saco rompeu-se, são as palavras a pressiona-lo, para ir rapidamente para casa.