Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

IMG_20230905_110915.jpg

A mulher velha caminha pela rua, o vento sopra no que resta dos ornamentos da festa de verão, criando a única sonoridade na aldeia. É evidente que não se dirige na direcção da biblioteca ambulante, escapa-se por outra rua, com as histórias na sua frente, não tem curiosidade de as conhecer, ou não as viu. A horta, puxa-lhe os pensamentos para o que resta dos frutos presos nos tomateiros, os cachos das uvas por colher, ou a perda de alguns destes frutos, derivado da chuva intensa da última noite, os javalis. Os assaltos constantes destes animais mais parecidos com orks, perturbam estas comunidades, não há ninguém que saia de casa diariamente e não vá às hortas verificar o estado dos terrenos cultivados.  Os animais esfomeados viram tudo do avesso procurando alimento, as cabeças enormes onde sobressaem  dois dentes afiados, metem medo a qualquer um. Os cães deixam de ladrar para não serem enfrentados por estes antepassados dos porcos. A guerra aberta até agora está inclinada para o lado destas quadrilhas selvagens, com o sol a desaparecer no horizonte, é o momento  apropriado para saírem dos buracos escavados no chão, e saquearem legumes, fruta, raízes de árvores, deixando-as moribundas. As aldeias desguarnecidas de protecção pouco podem fazer perante estes indivíduos, um conflito que acontecia na floresta ocasionalmente, para equilibrar a espécie. As queimadas sucessivas destruíram as florestas, que deixaram de ser apetecíveis, actualmente sem alimento confrontam-se com os humanos. Perderam o medo, assaltam as searas do milho, os quintais envolvendo os espaços habitacionais, não saíram de nenhum filme, transpondo os écrans gigantes, são reais, tenho-os avistado nas minhas viagens às aldeias a levar histórias. Abeiram-se da estrada vindos da floresta, pelos trilhos medievais, a palmilharem a charneca. Mercenários ao serviço do homem que destrói os habitats onde sempre viveram.