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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

28.04.25

Afinal, as aldeias possuem...


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Sem luz, os leitores na aldeia continuam a entrar na biblioteca ambulante, não é complicado viver sem energia artificial. Na horta, há legumes e hortaliça, têm galinhas, ovos, e coelhos, no galinheiro, na coelheira, poços abastecidos pelas rede de canais subterrâneos, alimentados pela infiltração da água das recentes chuvas. Lêem sob a iluminação dos antigos candeeiros a petróleo, ou recorrem a velas de cera, caso a energia eléctrica não tenha sido reposta. Afinal, as aldeias possuem recursos que a cidade não tem, não permite, face ao acelerado avanço tecnológico, ao abandono, dos modos de proceder, de um passado que aconteceu há pouco tempo. Terminado o trabalho no campo, outro qualquer ofício, pouco antes de o sol se deitar, os leitores na aldeia, após irem para dentro de casa, têm sempre uma história à espera, para continuarem  a sonhar, com um amanhã melhor, enquanto não chega outro dia. Não ficam irritados, pela ausência da TV, da impossibilidade de andarem a bisbilhotarem pela internet adentro. Concentram-se na história, sem interrupções, das notícias bombásticas, da política obscena, da guerra. Serões saudáveis passam-se assim na aldeia, até aos primeiros bocejos, são os sinais da carência de descanso. Um sopro na vela de cera, rodar, a roda exterior do candeeiro a petróleo para recolher o pavio e extinguir a chama. Adormecerem na almofada, mantendo as palavras lidas, mornas, até ao recomeço no dia seguinte, depois de cumprido o exercício da actividade profissional.