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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

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Enquanto houver estrada para andar, pessoas para conquistar, e leitores para lerem, a biblioteca ambulante continuará a estacionar nas aldeias da minha terra. Um início promissor esta manhã aconteceu, ao atravessar uma aldeia para chegar a outra como destino. A saudação com o braço levantado de uma leitora, não há nada mais motivador para o viajante das viagens e andanças, o reconhecimento daqueles que usam e abusam das histórias, à passagem apressada nas suas aldeias da biblioteca ambulante. Fui abordado na rua, na aldeia do Souto, por um tractorista a conduzir o seu veículo agrícola. Abrandou a marcha até parar junto de mim, a questionar-me sobre o José Diniz. Que era feito dele, se vivia ainda. Respondi-lhe, infelizmente não se encontrava entre nós, partiu de vez, está a levar histórias nas aldeias do céu. Disse-me, que tinha sido o seu dentista noutros tempos, que o via muitas vezes a trazer histórias às aldeias também. Não é o primeiro a chegar-se perto de mim para me confidenciar a experiência de ter conhecido o José Diniz, através da leitura, ou pela necessidade de tratar os dentes. A sua memória continua a perdurar nas gentes das aldeias da minha terra, ou melhor, a importância dos livros, da sua leitura, no passado, para estas pessoas. O José Diniz, a biblioteca ambulante da altura, deixaram uma marca impossível de apagar. Uma saudade que os mais novos não conhecem, e não querem saber. A tarde iniciou-se com a inscrição de uma leitora na biblioteca ambulante, a pouco e pouco, as pessoas abraçam a leitura, apertam as emoções, estrangulando assim os seus problemas, a exclusão social. As cabaças penduradas, dançam na melodia do silêncio, estimuladas pelo vento frio. Afagam os desejos da solidão nas noites do inverno, vibram nos dias de verão com alegria nas romarias. O céu ficou cinzento, a biblioteca ambulante, amanhã regressa outra vez.