Atrevida, com faculdade de agir ...
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Ao início da manhã o céu azul contrariava os constantes avisos meteorológicos colocados a circular na véspera. Um bom começo no último dia das viagens e andanças, tal não aconteceu, pois, no trajecto para a primeira aldeia do dia abateu-se sobre a biblioteca ambulante uma chuva abundante. Parecia um crepúsculo precoce, a manhã repentinamente escureceu, os faróis acesos dos automóveis, as nuvens colaborando, manchas de uma coloração igual ao tecido subcutâneo quando sofre traumatismos. Na aldeia da Amoreira os homens estão de olhos colados na televisão, enfiados na penumbra, vendo as notícias, sobre a neve cobrindo algumas regiões do norte do país. Com o preço da electricidade elevado, o proprietário do café mantém o ambiente na obscuridade, os clientes não consomem o suficiente para a despesa luz. Mais branda, a chuva continua a cair na aldeia, não impediu o regresso dos leitores à biblioteca ambulante. Entram de rompante, sacudindo os pingos do vestuário, com necessidade de falarem da Ingrid. Ingrid é a protagonista destes dois últimos dias, nas aldeias da minha terra. Atrevida, com faculdade de agir ou mover-se rapidamente, determinada a infligir mau estar às pessoas, nas aldeias da minha terra. Ingrid causaria uma corrida às livrarias ou bibliotecas se fosse a estrela de uma história. Não consigo imaginar as inúmeras palavras que um escrevedor teria de passar a escrito no papel. A tinta necessária para encher o pequeno tinteiro da caneta, as horas a caminhar devagar com a Ingrid nas folhas de papel.