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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

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O nevoeiro é matreiro, num instante esconde, noutro descobre, automóveis, a transitarem à frente da biblioteca ambulante, lugares, a espreitarem quem passa na estrada. Na Associação Comunitária de Apoio à Terceira Idade de Mouriscas, alguns, que desfrutam do apoio da instituição, estão ausentes da vida, ou no caminho em direcção ao túnel, que lhes tirará a luz para sempre, têm momentos onde conseguem romper a neblina. Surpreendem, como se fosse ontem, as histórias estão ali à mão de semear de quem os ouve. Vejo os vultos, parados no tempo, no fim das histórias, semelhantes, talvez, não sei, um dia, se irei ler. Em Sentieiras, os jornais da biblioteca ambulante, estão num tumulto exagerado, páginas para a frente, para trás, notícias frescas, a bola ainda rola, nas cabeças de quem os agita. A manhã amena, está convidativa aos leitores casuais, aqueles estreitamente vinculados às histórias. A folga permitida no Carnaval, deu boleia a outro dia, trouxe pessoas às aldeias. As memórias, atropelam-se à mesa do almoço, comendo cozido à portuguesa, os pratos cheios de palavras, e os copos de alegria. Condições para se escrever no tempo histórias, relembrar episódios, fixar para sempre mais um dia em família, com os amigos. As aldeias da minha terra, geram a saudade, dos avós, dos pais, dos tios, dos primos. Dos que partiram, e já não voltam. Do passado, e do presente que perderam. A tarde está quente, a roupa de inverno é um estorvo, os meus pés estão assando lentamente dentro das botas. Um calor sobe devagar e preenche a biblioteca ambulante. A pequenada baloiça, empurradas pelo amor da mãe, cujos braços são alavancas, para lhes dar o impulso para crescerem. Ouço a palavra avó, a palavra mãe, ecoando no ar, lugares a partir dos quais se iniciaram, se desenvolveram condições para se viver, ou estar presente. A biblioteca ambulante é um desses lugares, onde se pode começar a conhecer, e a difundir ideias. Um local de partidas, de viagens, um cais de acolhimento ao silêncio, ao som das palavras.