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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

08.01.26

É o fogo que não se vê ...


historiasabeirario

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Hoje, o dia está cinzento, sem uma réstia de sol não há vivacidade nas aldeias, ficam de parte os leitores da biblioteca ambulante. Os restantes estão em casa, sei disso, o ar é denso, o odor da lenha em combustão impregna os lugares onde a biblioteca ambulante permanece. Originária do sobreiro, arde em todas as lareiras, nas aldeias. As chaminés estão o dia todo a vomitar fumo, sem parar, parecem comboios alimentados a vapor, cujas fornalhas engolem toneladas de lenha para gerar o vapor nas caldeiras. Parece fácil, não é, aproveitar ou abater, partes lenhosas de árvores sucumbidas por fenómenos naturais, aniquiladas pelas ambições desmedidas de riqueza. Transformar em pequenas porções de modo que caibam nos vãos abertos nas paredes para o efeito. Encher até não caber mais, causando o enjoo e o lançamento em abundância do fumo pelo pescoço da chaminé, expulsando-o depois pela cabeça. É o fogo que não se vê,  o amor tímido,  histórias privadas. Escondidas por detrás das paredes brancas, erguendo-se nas planícies, assentes nos vales, cercadas pela charneca.