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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Escritos abandonados na gaveta

06 - 02 - 2017

De: Mustafa Ali

Allepo

Síria

 

Para: Tio Sam

Casa Branca

América

 

Espero que ao receberes esta carta te encontres bem com a tua consciência!

Escrevo-te de uma cidade que em tempos atrás acordava com o sol batendo nas nossas janelas, os pássaros logo de manhã chilreavam de alegria saltando de ramo em ramo nas laranjeiras floridas, ao mesmo tempo  que o perfume destas preenchia as ruas. As crianças percorriam-nas cheias de alegria, caminhando para a escola acompanhadas pelos pais, que seguiam depois para os seus trabalhos. Os jardins tinham gente usufruindo dos seus espaços, conversavam uns com os outros, as crianças brincavam perseguindo bolas. Uns passeavam os animais de estimação, debaixo das árvores as esplanadas eram ponto de encontro de famílias,  e de amigos. Embalados pelo sopro suave do vento, conversavam, bebiam, numa sã convivência, os enamorados, andavam de mão dada construindo o sonho de uma vida a dois, ou mesmo vivendo amores de uma existência esporádica mas cheios de felicidade. Da minha janela, além do sol, o rio corria repleto de entusiasmo e fauna, homens seguravam canas, passavam horas olhando as suas águas na expectativa de surgir na ponta da linha, preso no anzol o peixe que poderia ser alimento nesse dia. Tio, escrevo-te porque o que relatei anteriormente já não existe, não há meninos nas ruas brincando, não há homens, não há mulheres, não há pássaros, não há risos e sorrisos, até as lágrimas secaram de tanto correrem pelos rostos destas pessoas que vêm a sua cidade destruída pelas bombas que caem constantemente, pelas armas que ceifam vidas de novos e velhos. Inocentes que pagam com a vida a crueldade de um tirano. Tio, peço-te que me deixes a mim e aos outros desta cidade, que possamos ir para a tua cidade, aí, na América, para continuarmos os nossos sonhos, ter trabalho, ter escola, ter novamente sorrisos, alegria, e mais importante, ter amor pelo próximo.

 

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