Extinguindo o fogo, suprimindo ...
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A chuva não para de cair, alimentando as ribeiras, tornando visível pequenos charcos nos terrenos que acompanham a biblioteca ambulante pelas aldeias da minha terra. No interior do café Areias, no meio da obscuridade jogam às cartas dois homens. Enfiados no fundo da sala, só muito perto da mesa onde estão sentados se deixam ver. Admiro a audácia destes dois, disputando um jogo de bisca, onde os naipes parecem silhuetas presas nas mãos. Mas, não é bem assim, pois as cartas são atiradas para cima da mesa com rapidez. Recolhidas instantaneamente pelo jogador que atingiu a vitória na jogada. Na entrada do estabelecimento dois homens fumam, enquanto dão goles pelo gargalo das respectivas cervejas. Ambos estão sintonizados nos movimentos de levar o cigarro à boca, inspirarem o fumo, expulsa-lo, após um momento de reflexão. De seguida na outra mão, impulsionada pelo braço, abocanham a parte superior estreita da garrafa, sorvendo o líquido dourado. Extinguindo o fogo, suprimindo alguma preocupação. Estão nisto, ao mesmo tempo, entre dentes soltam palavras imperccebíveis. Quando me aproximo, resguardando os jornais de baixo do braço, protegendo-os da chuva, viram o olhar, na tentativa de advinharem as letras mais gordas dos cabeçalhos. Passo por eles apressado para evitar molhar-me o menos possível, têm de vir para o interior, para conseguirem ler melhor as notícias. Aqui, na aldeia, a Vasp não chega, nunca chegou, para compreenderem o mundo, ou escolherem a viagem, lendo histórias, têm a biblioteca ambulante. Substituindo o quiosque, a livraria, é um espaço de discussão onde cada um pode expressar-se em liberdade e igualdade.