Há um ambiente diferente ...
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Em algum lugar o outono despertou, as manhãs têm acordado debaixo de neblinas, as noites estão mais frias. Os dias ficam curtos nas aldeias da minha terra, a bravura da temperatura sente-se após o pino do sol. As viagens e andanças estão mais agradáveis, os leitores saem à rua, esperam as histórias com sorrisos nos lábios. Há um ambiente diferente, de mudança, parece estar tudo arrumado, a inquietação, daqueles dias abrasadores desesperando as pessoas, ficou para trás. Talvez sejam falsas premonições, fiquemos todos desenganados um dia destes, quando a temperatura volte a escalar, deixando-nos sem brilho. Estacionada no limite urbano da cidade, a biblioteca ambulante, na sombra da copa de um soberbo plátano, um dos muitos patronos que dão nome ao lugar, em Alferrarede. Donde está a maior concentração destas imponentes árvores, surge uma mulher com andar determinante, na direcção do sítio onde está a biblioteca ambulante. Possivelmente saiu do Cento de Saúde, Não traz cara de doente, a saia esvoaçando, transmite a ilusão de vir a voar, tal não é a sua passada. Os braços desnudados, são telas, preenchidas por perfeitos desenhos. Flores, rostos longos, respeitando a estrutura dos membros superiores, apelam aos olhares por onde passa. São representações, factos, passado, presente, na vida da mulher. Aquela brochura que envolve uma história, revelando um pouco do recheio com palavras. A história da mulher, não sei quem é, pode estar interpretada nos desenhos exibidos nos seus braços. Somente aqueles que privam com ela, têm acesso ao interior, à sua história, são parcelas da sua vida. A mulher continuou no seu andamento pedestre, nem para a biblioteca ambulante olhou, o destino seja onde for, espera-a brevemente.