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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

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Com a cegueira de ler nem me deitava, foi uma das frases que disse. Estas e muitas outras que me seduziram, no  tempo em que as mulheres liam às escondidas até que a alma lhes doesse. Ainda jovem, tirava livros do pequeno volume deixado pelo tio numa mesa. Livros estes que trazia para a aldeia e distribuía pelos rapazes, histórias que não ficavam por aqui, sem interrupções eram trocadas depois de lidas por uns e outros até se esgotarem. Voltando ao início , onde a mulher jovem, e velha hoje, lia em segredo após a mãe cansada de um dia de trabalho no campo, espalhava o carvão ardente, o que restava da lenha  que aqueceu a cozinha, antes de se ir deitar. Quando esta pregava o olho e não era preciso muito tempo, a jovem voltava a juntar as brasas e lia até que a alma lhe causasse dor. Houve um dia que o tio lhe questionou se ela andava a ler, disse que sim e qual o problema, perguntou ela. Problema não há nenhum respondeu o tio, mas tenho que te ensinar umas coisas acerca da leitura. Nem tudo o que lês nos livros é verdade, disse o tio, e ainda disse mais, não faças da tua vida o que as histórias te dizem. Uma cumplicidade que ficou para a vida, segundo ela, o tempo passou, foram sessenta anos, e ainda continua a gostar de ler, não principia uma história, sem terminar outra.