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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

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O fio, a linha na qual transponho distâncias, equilibrando-me diariamente a chegar ao exterior, partiu-se. Fiquei no lado da criação, na folha branca por escrever. Actualmente é complicado perder a engrenagem, habituado à produção súbita dos pensamentos, da instantaneidade de comunicar observações e oralidades dispersas, afogo-me no processo onde aprendi a comunicar. Perdi aquela frouxidão de deixar para depois, há tempo, locais próprios para distender memórias, as ideias que brigam agora na minha mente. Mas, isso foi noutro tempo, estou no escuro, faltou a luz, não vejo como atingi-los imediatamente. Queria estar como a manada, quando a avistei enquanto percorria a estrada na biblioteca ambulante, na sombra dos sobreiros, estendido na erva a ver duração das coisas a passar despreocupadamente. Longe dos pensamentos, esperando que outro dia chegasse, e mais outros sucessivamente. Apresso-me a escrever numa folha de papel, para não perder pitada do que se desprende da mente. Rasuro, volto a escrever, avanço, galgado até à margem da folha, abrando, não sei se faço a curva, repentinamente, ponto final. Sigo, escrevendo em baixo após uma pausa, não sei ainda como terminar... No céu, as nuvens baixas, deslocam-se vagarosamente, não têm pressa ao contrário do viajante das viagens e andanças. No momento próprio descarregam o que lhes vai no interior, água, o que mais precisamos, tinta, para a terra conseguir escrever a palavra esperança.