Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

IMG_20240405_134314.jpg

O tempo é democrático, apesar dos defeitos que possui. Nem sempre se apresenta no período exacto do seu manifesto, apesar das previsões mostrarem muitas vezes o contrário. Sermos surpreendidos pela chuva abundante logo de manhã, quando acordamos, prontos para um dia primaveril e soalheiro. Ouvirmos o ribombar inesperado da trovoada ao longe, sentindo a mesma aproximando-se zangada. Usarmos vestuário inapropriado num dia desconcertante para a temperatura prevista, que não aconteceu. Gostemos ou não, temos que aceitar, respeitar os desígnios da liberdade, da soberania e expressão livre do tempo. O tempo está a mudar, contra esta modificação natural é impossível de a confrontarmos corpo a corpo. Podemos sim, alterar maneiras e comportamentos, deixarmos para trás as manifestações opressivas ao tempo. Aprendermos a aperfeiçoarmos ao tempo, a convivermos educadamente com ele. O tempo somos nós, o tempo são as histórias na biblioteca ambulante, são os leitores, as pessoas nas aldeias da minha terra. Agora é o tempo, das flores acenarem na berma da estrada, à passagem da biblioteca ambulante, enfeitiçada pelas variedades de perfumes, que o tempo trouxe, ao longo das viagens e andanças. Na estrada, em direcção à aldeia da Lampreia, as cegonhas, nos ninhos são as sentinelas do tempo, erguidas, protegem as crias, vigiam com o olhar a possibilidade dos intrusos se intrometerem, provenientes das nuvens a voarem baixo. Não devemos ser indiferentes à prepotência do tempo, temos de reagir, estar preparados para contestar o tempo. Nas aldeias da minha terra, os leitores respondem à passagem devagar do tempo, lendo as histórias. O tempo é sempre o mesmo, mas, o vento a deixar as páginas para trás, acelera a memória dos leitores no tempo.