Não há pessoas ...
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As pálpebras estão pesadas, não aguentam o peso da temperatura exterior na sombra do plátano grande. Não se vê vivalma na aldeia do Vale Zebrinho, na biblioteca ambulante, as histórias não vão ter sorte. Hoje não sai nenhuma, desviadas pela corrente de leitores, do leito onde as palavras são seixos depositados nos canais artificiais, mergulhados nas páginas. Presas nas represas, aguardando que a sede se manifeste, para as comportas se abrirem e deixarem passar a cascata de emoções. A charneca está ressequida, envelheceu repentinamente, o calor, a passagem do tempo, transformaram-na, está triste e só. Os animais silvestres, as aves, não se deixam ver, foram apagados, assim como a cor verde, que enchia totalmente a paisagem. Um trabalhador da Junta de Freguesia, passou a olhar na direcção da biblioteca ambulante, empurrando um pequeno carrinho contendo dois baldes enormes, onde deposita as palavras trazidas pelo vento. O choro silencioso dos velhos, a separação. O homem vai vagaroso, impelindo os queixumes das gentes da aldeia, matutando consigo próprio, a presença das histórias numa tarde de elevado calor na sua aldeia. Onde irá deitar a lamúria, os gemidos, as palavras, que não são ouvidas além dos limites da aldeia. Há meios, há cansaço, há resignação. Não há pessoas...
