Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

IMG_20240110_160125.jpg

IMG_20240110_160001.jpg

IMG_20240110_160238.jpg

O denso nevoeiro envolve as aldeias da minha terra a norte do rio Tejo, aquelas, cujos alicerces estão constantemente a banharem-se no rio Zêzere. Do alto das suas escarpas este último rio perde-se no horizonte, seguindo-o, a montante, podemos adivinhar os montes Hermínios com os cumes cheios de neve. A aldeia está adormecida na obscuridade desta atmosfera aquosa, há pouco tempo uma mulher passou próxima da biblioteca ambulante, dirigindo-se à mercearia, destacando umas pantufas calçadas, com os pés aquecidos, o restante corpo mantêm-se equilibrado. Num prédio, uma das suas janelas tem um letreiro a informar da venda do mesmo. Seria bom que o negócio se concretizasse, as aldeias precisam de pessoas a viveram nos seus territórios, a cultivarem os campos, a manterem as tradições, evitando assim o seu desaparecimento. Uma mulher, não a mesma que calçava pantufas chega-se perto, à janela da biblioteca ambulante, a falar, não a entendia, baixei o vidro para a ouvir melhor, apontava para o nome do José Diniz a sobressair na carroçaria do veículo. Disse-me, que as suas filhas tinham frequentado a biblioteca conduzida por ele noutros tempos, ao marido, há muitos anos, foi-lhe extraído por ele quatro dentes na mesma consulta em Abrantes. Mencionou,  com um sorriso alargado. Chegou a casa numa lástima, segundo ela. Para quem não saiba, o José Diniz, além de ser um bibliotecário ambulante, tinha o dom de arrancar dentes, uma herança genética do seu pai. Depois há estes episódios, onde alguém o solicita, aflito, suplicando resoluções para as dores insuportáveis. Em vez de um, o tal malvado dente doente, vão mais três, supostamente iriam ter a maleita do primeiro. O sol espreita, levanta o véu, lentamente as pessoas deixam-se atrair pelos raios dourados e saem de casa, o destino são as hortas, levar alimento aos animais, rotinas de uma vida inteira de quem habita as aldeias. A tarde amedrontou outra vez o sol, ainda na aldeia do Souto a biblioteca ambulante, noutro largo da aldeia, aguarda pacientemente por mais leitores, pelas pessoas curiosas, acham divertido um veículo carregar histórias e disponibilizar as mesmas às populações das aldeias. Não imaginam elas, o quanto é difícil fazer aderir pessoas a lerem. A iliteracia, a preguiça para voltarem a empurrar as letras com os olhos numa página de palavras, continuarem por aí adiante num oceano de frases, a encontrarem linguísticas ou expressões das quais nunca ouviram falarem. Quase sempre solicitam autores contemporâneos aos da sua juventude, alguns desconhecidos do bibliotecário, sempre a tentar encontra-los nos meandros do catálogo, nas estantes sombrias dos depósitos. Aventuras literárias, armado em Indiana Jones, explorador de tesouros literários. Não é só ele, todos os outros que trabalham na área da biblioteconomia, se deparam constantemente com estas explorações. Os leitores são o mais importante, não os podemos defraudar. Nas aldeias, no meio rural, os leitores têm as mesmas exigências, aguardam pela próxima visita da biblioteca ambulante quando esta não possui a história pela qual têm interesse. Não há depósitos com mobilidade, há sempre bibliotecários em movimento, em ação a confrontarem pesquisas difíceis nos depósitos. Ali, atrás, na curta viagem, a estrada que trouxe a biblioteca ambulante à aldeia das Fontes, inspirada em alguém, ou no declive vertiginoso possível, permitido pela natureza, através de uma sequência de curvas apertadas. Na qual, felizmente transitam ainda transportes públicos, contribuições, afinal a esperança ainda é a última a morrer. Com panoramas belos e escondidos dos roteiros. Estacionei numa varanda ampla para o rio Zêzere, no lugar da Bairrada, as margens estão submersas, as águas do rio batem na enorme barreira de betão que as aprisiona mais a jusante, na barragem do Castelo do Bode. Do local onde observo a sua passagem está gordo, uma prenhez de energia, de subsistência para várias populações, daqui até Lisboa, todos se saciam na sua potencialidade. Na soalheira aldeia das Fontes já se planifica as pequenas hortas, ao redor do casario da aldeia. Aqui e ali vêm-se agricultores familiares, cuidando das parcelas, escrevendo regos, aos quais se lhes juntarão sementes e plantas. São escritas e leituras que nem todos sabem fazer e desenvolver, atividades praticadas somente ao alcance de alguns sábios. Também aqui é necessário insistir na prática da arte rural, chamar pessoas, criar condições nas aldeias. Tal como nas histórias, com a biblioteca ambulante, não basta saber ler, tem-se de continuar a praticar e a desenvolver conhecimentos.