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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paulo Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paulo Auster

O sustento que nós precisamos

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Na estrada não ouço música, mas vejo as flores a dançarem, nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. No sentido da aldeia da Barrada a biblioteca ambulante transita na planície, os campos são de perder a vista, aqui e acolá alguns rebanhos apascetam, longe do búrburio citadino o viajante das viagens e andanças enquanto conduz as histórias relembra um episódio passado na tarde de ontem na aldeia de Arreciadas com um leitor. Ao entrar questionava se devido ao manuseamento das histórias por vários leitores, se as mesmas não seriam transmissoras do vírus tão detalhado na imprensa. Respondi, se a bactéria souber ler, seria melhor ponderar, o contrário, ou seja analfabeta, estaria à vontade. Olhou para mim, meio sério com um sorriso ao mesmo tempo, entrou e transportou algumas histórias. Tenho de brincar apesar  da preocupação generalizada, não penso sistemáticamente no assunto, continuo a levar histórias como sempre levei, mantendo a normalidade. Os diálogos acontecem sem assustar, apesar de algum isolamento as pessoas estão informadas, a televisão, a rádio emitem o melhor que podem, embora a meu ver na televisão abusam no tempo da notícia. No largo do café Areias, sopra uma aragem, melhora um pouco o ambiente, disfarçando a temperatura, outra vez elevada para o mês em que estamos. Não se avista ninguém, dormem a sesta, ainda é cedo para uma visita à horta, se necessário regar novamente as favas e couves, gerar equilíbrio no seu crescimento. No seguimento das viagens e andanças a biblioteca ambulante seguiu para a aldeia do Pego,  no sentido da aldeia de Vale Zebrinho, penetrou outra vez na depressão natural que dá origem à toponomia da povoação, a cor vermelha no solo domina o limite da charneca. O movimento de pessoas e carros na aldeia é diferente ao de ontem, enquanto a biblioteca ambulante aqui permaneceu, hoje encontra-se mais automóveis estacionados e gente a caminhar com orientação para a igreja que está situada num planalto. Posso estar muito enganado, mas conjecturo que só pode ter acontecido um falecimento de um fillho da terra. Não é a primeira vez que testemunho estas infelizes ocorrências, e quando assim acontece, é como se houvesse uma convocação de todos do próprio lugar, residentes e ausentes por vários motivos. Na aldeia do Pego as laranjeiras ainda não se desprenderam da fruta e já estão floridas, não há descanso entre as divisões do ano. Defronte da loja agrícola do outro lado da rua, o passeio está todo engalanado com gereberas, sardinheiras, árvores de fruto, pequenas alfaces preparadas para serem plantadas, um desenho ao vivo com exemplares naturais e coloridos para quem os queira adquirir. Nas prateleiras da biblioteca ambulante, as brochuras das histórias são exemplos de muitas primaveras, invernos, outonos e verões, cheias de cor, dentro o mais importante, a mensagem escrita de pensamentos, saberes de variados autores, o sustento que nós precisamos para nos mantermos informados.