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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

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Hoje, o céu é uma cabeça de chuveiro, tem os buracos todos desimpedidos. Tiram vantagem os animais no campo, nas pastagens, têm a erva tenra, a água limpa, condições para crescerem saudáveis. Debaixo deste chuveiro natural não arriscarão banharem-se os leitores, os corajosos que se atiram para baixo do jato de água, podem vir à sauna, a biblioteca ambulante, é um espaço aquecido. Um lugar excessivamente quente, ocupado por histórias, chamas invisíveis, aquecendo quem as lê. Só a água fria reprimirá os sentimentos calorentos causados nas palavras impressas, nos terrenos, nas pastagens, nos baldios, onde não se conhece o autor, nas páginas. Campos de letras fixadas pela tinta dos aparos, o sangue, e as lágrimas, jorradas na escrita literária. Ao atravessar a ponte na margem norte, rumo ao sul, vi, estas abraçadas às águas do rio, matam saudades, beijam-se num aperto, possível na imaginação do escritor. A curiosidade trouxe o sol ao largo do Cabrito esta tarde. O espaço está animado com as pessoas cavaqueando despretensiosamente umas com as outras. Mãos nos bolsos, boinas a taparem as cabeças, protegendo a calvície da hesitação do tempo. Os telhados do casario são o pasto das estrelas, nas noites frias do mês de janeiro. Deixaram de proteger as pessoas, ou não existem, morreram, andam desalinhadas com a sociedade. O resto, são aqueles deambulantes ocupando o tempo nos cafés, estão reformados, dependentes de subsídios, ou não querem trabalhar. Os tempos atuais projetam um futuro cheio de incertezas. No Rossio ao Sul do Tejo, o coreto, há boleia dos pássaros dá música ao silêncio.