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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

A biblioteca ambulante comporta-se como uma flor, no largo, vestida predominantemente de amarelo e outras cores alegres, a seduzir prováveis leitores, a voarem ao redor. Assim fazem os insectos a recolherem pólen, transportando-o depois para outras flores, provocando a fecundação. Os leitores atraídos vão contribuir, a repartir as palavras absorvidas, pela aldeia. Vão actuar de maneira a formarem outros leitores e assim sucessivamente ao ponto de gerarem um grupo de leitores na (...)
Absorto, quase dei um salto do banco, na biblioteca ambulante. Uma mulher deu-me a saudação, ao passar próximo, consolidou, em voz alta, há pessoas na aldeia. Afastou a dormência, tentando conquistar-me, a seguir apareceram outras, saindo do café, apressadas para chegarem a suas casas. Está calor, as histórias não são importantes para a solidez social destas, nem o olhar desviaram, na aldeia não se passava nada. A sombra das casas em Alvega, abrigou a biblioteca ambulante com (...)
A chuva abundante enche a manhã de água, a depressão Nelson, também nome do herói na batalha de Trafalgar, na qual foi mortalmente atingido por um atirador francês, tem o comportamento de uma armada vitoriosa. Conquista tudo à sua frente, não permite o alívio necessário para voltarmos a uma situação de normalidade. Os leitores deslocarem-se ao encontro da biblioteca ambulante no largo S. João de Brito, na aldeia do Tubaral, as mulheres aguardarem a chegada do padeiro, os (...)
A confusão instalou-se nas cabeças das mulheres na aldeia do Tubaral. A padeira ainda não chegou com o pão, a biblioteca ambulante, buzinou freneticamente, copiando a carrinha do pão. Sem intenção, induziu em erro as mulheres com o estratagema do serviço concorrente. Uma destas mulheres, insiste, mencionar em voz alta, para outra, colocada de atalaia ao pão, mais abaixo na rua. É um dia igual aos outros, não se cansando a repetir estas palavras, insensíveis, relacionadas com a (...)
20 Fev, 2024

Onde foram elas ...

A renovação da casa, no largo da aldeia, no Tubaral, avança paulatinamente. O som do berbequim a perfurar a solidão, a explorar a história das paredes de outrora, tentando saber as histórias. As memórias enraizadas, nas paredes da casa, do martelo a bater no silêncio, dão energia ao largo. A betoneira a girar é a roda da sorte, da densidade populacional da aldeia. A sorte está nas palavras consoantes, seleccionadas,  «casa, janela, ninho» e numa vogal, «a». Após a (...)
  A aldeia tem vida, os cães ladram, a chiadeira do arame no estendal da roupa faz-se ouvir ao deslizar na roldana, não sei onde, é perto, numa destas casas olhando o vazio no largo. Há pessoas, não se deixam ver, só a padeira as atrai para o largo. Uma vez, ou outra, há uma força invisível que traz estas pessoas à biblioteca ambulante, o pão em primeiro lugar, a coincidência boa é estarem no momento certo no largo, as histórias. A semelhança, mantêm-se na aldeia onde (...)
Está um frio de fazer levantar os pelos do corpo, o ar não está para brincadeiras, gela tudo. A biblioteca ambulante na aldeia do Tubaral, não espera novidades esta manhã, os leitores presos ao lume crepitante nas lareiras, não levantarão os traseiros dos assentos, aquecidos pelo calor do fogo. Há, sempre todos os dias nas viagens e andanças, qualquer situação a impedir, este ou aquele leitor de se deslocarem à biblioteca ambulante. As nabiças na horta estão a pedir a (...)
O reflexo das folhas douradas que caem, ornamenta a tarde a preparar-se para mergulhar no reino da escuridão. O espólio de algumas destas obras da natureza, aguardam  a vez para se sacrificarem na fogueira de Natal. O fogo irá consumir vorazmente a lenha amontoada nos próximos dias, ao redor deste, os leitores do tempo, na aldeia, juntam-se para comerem e beberem. Momentos de escutarem com atenção os murmúrios do fogo, estão seduzidos pelas danças das chamas.  O calor (...)
O nevoeiro escapa-se da charneca, está em todo o lado, envolve a biblioteca ambulante a estrada, as aldeias. As histórias seguem atrás, aninhadas umas nas outras para não terem frio. O ar quente sai, aquece os pés do viajante das viagens e andanças, incapaz de alcançar as prateleiras, onde os personagens das histórias tiritam por causa do frio, inquietos, intrometem-se numas e noutras. Não param de saltar páginas, a correrem as linhas de cima para baixo, de baixo para cima, (...)
A chuva afoga a esperança no aparecimento de leitores, dilui o sangue na vida da escrita. Afugenta as pessoas, mascara os pássaros entre a folhagem espessa, inunda a tarde das viagens e andanças. As palavras não se afundam, são bóias, salvam vidas, inimigas da solidão, e companheiras do silêncio. A chuva a cair em cima da aldeia, bem podiam ser as letras asfixiando tudo e todos. Quem não souber nadar fica sábio, quem sobreviveu, permanecerá num deserto carecido de  emoções.