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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

O vento agita os panos, nas mesas onde estão outros panos. Toalhas, lençóis, soutiens, cuecas, meias, camisolas, calças e vestidos. Conjuntos, onde nos limpamos, tapamos, usamos diariamente para estarmos confortáveis, não andarmos nus, ou expostos dos contratempos do clima. Dos olhares fulminantes, ou libidinosos. Mulheres experientes não se cansam de observar a exposição da mercadoria, mexem e remexem, contornam ao tronco. Muitos alterados pelos partos, ou outras deformações. (...)
As nuvens e a chuva distanciam-se da aldeia, na Carreira do Mato, dando lugar ao sol. Este não fica muito tempo a brilhar, pouco depois regressam outra vez, projectando violentas bátegas a caírem com um barulho ensurdecedor no tejadilho da biblioteca ambulante. A tasca do Ti Zé está vazia, a televisão transmite a emissão da manhã, ansiosa por alguém se sentar e poisar o olhar na transmissão. A incerteza meteorológica não permite que ninguém esteja sentado na esplanada como (...)
A neblina dissipou-se, deu o lugar ao sol no pano azul preparado para a pintura do dia. Em Alferrarede Velha, as bancadas dos vendedores ambulantes estão a abarrotar de roupa para vender. A roupa anda de mão em mão, colocam-na defronte das ancas, tiram a medida a olho, não serve, atiram-na para cima do que está exposto. Estão o tempo todo nisto, até acertarem na saia, nas calças, ou camisola, para estrearem ou oferecerem aos afilhados na Páscoa. Os mesmos gestos repetem-se na (...)
Os primeiros pingos de chuva começam a cair, sobre o vale, a charneca beija a planície apertada pela intromissão natural do declive. As primeiras flores de cor branca, da planta, conhecida como esteva, estão a aparecer. De um dia para o outro a charneca ficará repleta destas flores, uma página em branco onde o silêncio escreverá sobre a harmonia e a tranquilidade, a solidão sobre as ausências. Irão misturar-se com as flores amarelas predominantes no momento, as do tojo, com (...)
A cooperação da temperatura não é a melhor hoje de manhã, no trabalho, nas histórias, com a biblioteca ambulante. As bancadas na pequena feira estão atulhadas de roupa, as freguesas mexem e remexem, como se as mãos tenham olhos. O que pretendem é orientação, a textura, os padrões, a qualidade apresentada no que está exposto. Não muito diferente de quem lê uma história, folheando as páginas, explorando detalhes, prognosticando, imaginando, ou cheirar a tinta impressa, tudo (...)
Faltará pouco tempo para as nuvens desatarem o aguaceiro em Alferrarede Velha, nas viagens e andanças com letras, pelas aldeias da minha terra. O sol ainda deu um ar da sua graça, mas o sorriso alargado não foi suficiente para contagiar a manhã. Há pessoas a passarem junto da biblioteca ambulante, seguem apressadas na direcção do café. Fogem da chuva abundante, a tardar por enquanto, só um acontecimento extraordinário impedirá a mesma se desmanchar cá em baixo. O vento (...)
O vale parece saído das páginas de um conto de Natal, as ovelhas a pastarem, os leitores a comerem as letras com os olhos, cobiçam mais palavras novas. Estão o dia todo com o focinho no solo, a procurarem as ervas macias, nunca estão saciadas. A tarde adormece devagarinho, a pastora junta-se ao rebanho com os cães. Os leitores marcam as páginas da história, para não se perderem na noite fria a olharem para o céu estrelado. A lua é a estrela maior, a que emite mais luz, será (...)
Amanheceu com a chuva a bater nos vidros da janela do meu quarto, o nevoeiro teimosamente nega a visualização  do rio, da estrada, sempre incansável a levar a biblioteca ambulante às aldeias da minha terra. Em Alferrarede Velha um gato insiste numa observação curiosa às histórias, quererá ele entrar, o interior da biblioteca rodeado de papel, provoca o instinto de desgastar as unhas,  ou  demarcar território nas páginas das histórias. Tem muito caminho a percorrer, árvores (...)
Um traço cheio de cor atravessa o vale na direcção da aldeia, acompanha a linha de água sem a deixar ver o céu. Os majestosos choupos ostentam uma aparatosa folhagem de cores outonais, impondo a quem por aqui passa a sua observação. A biblioteca ambulante confunde-se, um risco colorido a desenhar histórias, pessoas e leitores nas viagens e andanças pelas aldeias. O caderno está longe de estar preenchido, mas tem obras produzidas,  pela curiosidade, pelas emoções, pela (...)
No campanário da igreja, o relógio dá as 15h, um pouco abaixo envolvida na sombra do plátano grande, a biblioteca ambulante é favorecida pelo sopro, ao mesmo tempo, quente e fresco do vento. O sussurrar da aragem bate na charneca e regressa logo trazendo o fremir dos insectos pousados nos ramos das árvores. O vento não sabe o que quer, tem momentos que não se sente, parece adormecido, é engano meu, sem avisar volta a agitar as copas das árvores. Os pássaros não se ouvem, (...)