O relógio da torre sineiro, na igreja da aldeia do Souto toca as onze horas, o sol está alto, há pessoas na rua. Amparados pelos muros, conversam umas com as outras, reunindo a vitamina D o mais tempo possível, para gerir a quantidade necessária, enquanto o sol dá a volta e se ausentar outra vez. A leitura é conduzida preventivamente, seguindo as palavras com velocidade reduzida, sem transpor as linhas, os sinais gráficos, nas aldeias da minha terra, é preciso ler com tempo, a (...)
Pelos caminhos das viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, aqui e ali, surgem pequenos oásis protegidos pela sombra das oliveiras. Não são mais do que panos verdes estendidos, acolhendo a azeitona expulsa pelos paus compridos que as mulheres e homens empunham. Batalhas desiguais entre aldeões e frutos oleosos, desenvolvem-se por estes dias nos campos das aldeias da minha terra. A progressão é lenta, conquistar áreas de olival, subir e descer socalcos, limpar as (...)
Ainda há verão nas aldeias da minha terra, com as manhãs frias, sem inquietarem muito as pessoas. Os próximos dias vão ser fogosos no período da tarde, embora a impetuosidade solar perca rapidamente a robustez com a diminuição dos dias. Na aldeia do Souto o dia ainda jovem, parece distraído, ou não quer crescer, está delicado. Debaixo do céu azul sem confusões, a biblioteca ambulante sem esperança no surgimento de leitores em ambos os princípios da rua, onde permanece. (...)
Nas oliveiras, a azeitona num par de dias sacode a delicadeza para se tornar madura. A chuva dá-lhe força para se desenvolver rapidamente e transformar-se no óleo que gostamos. Nos pratos, nas saladas, a escrita temperada, o mistério, a aventura, a paixão, a morte. Ao dispôr de qualquer um, na biblioteca ambulante, levar histórias para casa fica mais fácil. Voltar, levar outra vez, pratos de letras, comidas do mundo inteiro, saborear nos lugares preferidos, sós, com companhia. (...)
Manhã inerte, sem reclamações meteorológicas, no Parque Urbano de São Lourenço. As crianças orientadas por elementos da Associação de Pais, do Centro Escolar Maria Lucília Moita, quando passamos por elas, seguiam para o lugar onde a biblioteca ambulante se dirigia. Depois de um café, lá fomos, eu e a Sílvia, ao encontro do grupo de crianças, expectantes, das histórias que iriam encontrar, das leituras que podiam prende-los para sempre aos livros. É sempre o objectivo (...)
Na aldeia do Souto ultimam-se os preparativos no espaço onde se realizará a Festa do Futuro, no próximo fim-de-semana. Um evento onde a biblioteca ambulante irá estar presente, colocando ao dispor dos forasteiros, das pessoas da aldeia, histórias. Há gente nova na aldeia, são aqueles que estão presentes no verão, chegam à boleia das férias. Procuram novidades, saber como estão os que nunca se afastam da povoação. Guardiões dos lugares, das memórias, da intimidade de (...)
O verão, como está hoje de manhã, nem muito frio nem muito quente, deveria prosseguir neste grau de aquecimento até à chegada do outono. As viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra não seriam marcadas pelo abuso da força da temperatura do sol. Mas, recomendadas às pessoas, seguindo a biblioteca ambulante, irem aos lugares onde esta permanece, nas aldeias. O bibliotecário respiraria, livre, do peso da temperatura elevada. Da quantidade de água libertada pelos (...)
Um homem montado na sua bicicleta abranda a marcha ao aproximar-se da biblioteca ambulante. Até agora foi a única pessoa na aldeia do Souto a percorrer a rua. Apesar de travar a celeridade, não chegou a parar, olhou as histórias fugazmente, deixou-se ir, aproveitando a inclinação da rua, quando esta alcança o coreto da aldeia. Levantou-se cedo, sobre a mesa da cozinha uma caneca de café esperava-o, fumegando, a bandeira de xadrez agitando-se para o início de um dia activo. A (...)
As nuvens esfregam os olhos, para não deixarem cair lágrimas, na aldeia do Souto voltou a usar-se agasalhos, a roupa de bem estar, e de protecção do frio. Como podem as palavras serem guarnecidas de asas para voarem sobre a aldeia. As nuvens baixas, comprimem, a faculdade de inventar histórias, a decisão dos leitores de saírem à rua. Nela, movimentam-se para se dirigirem ao mini-mercado, atravessar a rua, clarificarem ideias, sachar a terra nas hortas. Na direcção da biblioteca (...)
As nuvens andam nas aldeias da minha terra, são claras, batidas em castelo, a envolverem as oportunidades com o auxílio da biblioteca ambulante. A batedeira usada para bater os ingredientes, as comunidades. Num copo fundo de boca larga, onde podem entrar mensagens, sonhos, paixões, dramas, informação abrangente; as palavras misturam-se as doces e as amargas, ao sabor de qualquer leitor. Deixam-se arrefecer, tiram-se das formas páginas de letras, e colocam-se histórias em (...)