A chuva não para de cair, alimentando as ribeiras, tornando visível pequenos charcos nos terrenos que acompanham a biblioteca ambulante pelas aldeias da minha terra. No interior do café Areias, no meio da obscuridade jogam às cartas dois homens. Enfiados no fundo da sala, só muito perto da mesa onde estão sentados se deixam ver. Admiro a audácia destes dois, disputando um jogo de bisca, onde os naipes parecem silhuetas presas nas mãos. Mas, não é bem assim, pois as cartas são (...)
As folhas no chão são as únicas fiéis no adro da igreja, protegidas debaixo do véu que cobre a manhã. O horizonte está um pouco denso, na estrada, ao longe, os pequenos círculos amarelos aproximam-se rapidamente da biblioteca ambulante, deixando atrás de si um rasto de água pulverizado. Não é a mesma pegada da biblioteca sobre rodas, ou da carrinha da distribuição dos jornais. Os primeiros afastam-se, secam pouco depois, perante a indiferença dos que continuam a passar na (...)
Em Alvega, o largo do coreto pôs em condições o monte de lenha, que irá ser consumida lentamente, durante os próximos dias, ultrapassando mesmo o final do corrente ano. Por aqui irão passar as gentes da aldeia, os forasteiros oriundos dos lugares próximos. O calor libertado em virtude da incandescência, a temperatura elevada, são favoráveis a ajuntamentos, de pessoas, de conversas, de muitas histórias. A enorme fogueira será a atracção da aldeia, ao redor desta, quando a (...)
O relógio da torre sineiro, na igreja da aldeia do Souto toca as onze horas, o sol está alto, há pessoas na rua. Amparados pelos muros, conversam umas com as outras, reunindo a vitamina D o mais tempo possível, para gerir a quantidade necessária, enquanto o sol dá a volta e se ausentar outra vez. A leitura é conduzida preventivamente, seguindo as palavras com velocidade reduzida, sem transpor as linhas, os sinais gráficos, nas aldeias da minha terra, é preciso ler com tempo, a (...)
Ouvi-a a lamentar-se na rua, depois foi aproximando-se da biblioteca ambulante, falando em voz alta.- Ohh! Sr, João! Ohh! Sr. João! A minha filha morreu. Fiquei totalmente embaraçado, não esperava a entrada sobressaltada da leitora. Com os olhos lacrimejantes lá foi relantando o sucedido com a sua filha. Sabia desta morte, foi comentada na comunidade, publicada nas redes sociais, não sabia a relação de parentesco com a leitora. O primeiro momento foi de segurar a comoção, até (...)
Na estrada em direcção à aldeia do Vale das Mós o nevoeiro denso tomou conta das viagens e andanças. Não fossem os faróis dos automóveis transitando no sentido contrário, o viajante das viagens e andanças achava que seguia o rasto das guias brancas isolado, a conduzir a biblioteca ambulante. Mais adiante na planície os primeiros raios de sol despontam, formando pequenas clareiras brilhantes quando tocam no orvalho da manhã. O tractor com as suas garras desperta a terra (...)
Foi muito longo o tempo que o sol demorou a sair da incerteza em que estava mergulhado. As aldeias da minha terra, encantadas, misteriosas, quando as brumas assentam no território onde a biblioteca ambulante é rainha. Uma lutadora incansável, a combater a iliteracia, a solidão, são várias as lutas diárias, onde se ganha e perde. Conquistou leitores, sem desistir, continua, adaptando as histórias ao quotidiano das pessoas das aldeias. Na sua corte todos são bem vindos, ouvir os (...)
A charneca está brilhante, as gotículas de água estão em todo o lado, beneficiando o viajante das viagens e andanças. Não é o país das maravilhas, mas podia ser, cintilante, com histórias para todos na biblioteca ambulante. As pessoas nas aldeias da minha terra não desistem de colher a azeitona, após a paragem forçada, provocada pela visita da Cláudia, os panos verdes voltaram a rodear as oliveiras. Os homens e as mulheres chicoteando com as varas os ramos, agora, com a (...)
A Cláudia foi uma leitora que entrou repentinamente na biblioteca ambulante, agitando as folhas das histórias sempre que pousava os olhos nas sinopses, no nome destas. Foi mais, trouxe histórias que os leitores das aldeias da minha terra recordarão para sempre. Os que vierem depois deles relembrarão os próximos a vir, e assim sucessivamente. Como tem acontecido com os nossos antepassados até ao presente. A oralidade, foi o primeiro caminho, quando as palavras se conseguiram (...)
A cor branca das casas sobressai na tarde cinzenta na aldeia de Rio de Moinhos, das nuvens a água desaba sem piedade sobre a biblioteca ambulante. O largo está transformado num lençol de água retratando os leitores ausentes, o outono desapaixonado. O rasto das memórias, nas ruas da aldeia, afluem na direcção da biblioteca ambulante, atravessam o largo na corrente rápida e estreita, afogando-se mais à frente no rio. Umas perdem-se para sempre por entre os calhaus e areias no (...)